Que sentimento serviu de pincel para colorir esta viagem?

 


Em Veneza tu aprendes que o Príncipe só quer namorar, não procura um cavalo branco nem o pezinho da sua amada, que à meia noite o feitiço não se acaba e que a princesa não precisa de ir embora, nem deixar o sapatinho na escada.

Acordar em Veneza, no Gritti Palace, não é acordar: é emergir lentamente de um sonho que decidiu ficar. O sol não entra - insinua-se. Dança sobre o Grande Canal como um conspirador dourado, refletindo-se nas paredes do quarto com a leveza de quem conhece segredos antigos. Ao abrir as janelas pesadas de veludo, o mundo apresenta-se em sussurros: o deslizar preguiçoso das gôndolas, o lamento distante - ou bênção - dos sinos de San Marco, e aquele silêncio vivo que só cidades eternas sabem guardar. A arquitetura gótica observa-me com dignidade ancestral, enquanto o conforto moderno me envolve como um cúmplice discreto.

O banho é um ritual. A água cai em chuva perfeita sobre o mármore italiano, despertando a pele e a alma. As fragrâncias personalizadas não pedem licença aos sentidos: entram, instalam-se e ficam. Há algo de profundamente sensual em começar o dia assim - não por excesso, mas por precisão. Tudo está onde deve estar.


O pequeno-almoço chega como um poema servido em porcelana delicada. No terraço privado sobre o canal, o café acabado de moer anuncia-se antes de ser visto, e os croissants de pistáchio parecem ter sido criados por alguém que acredita no amor. Cada gesto da equipa é coreografado com uma elegância quase zen. Comer, ali, não é alimentar-se: é celebrar. A vida. O amor. A beleza de estar exatamente onde se está.

Depois, mochila às costas - porque até o luxo precisa de humildade - abandono o hotel e deixo-me abraçar pela brisa suave que sobe das águas. Veneza recebe-me sem perguntas. Perco-me de propósito num labirinto de ruelas e pontes centenárias, onde cada esquina é uma revelação e cada sombra conta histórias. A luz dourada do outono pousa sobre os palacetes como um filtro cinematográfico exageradamente perfeito. Casais passam por mim de mãos dadas, trocando olhares que dizem tudo sem dizer nada. Há uma sensualidade discreta no balanço das gôndolas, no murmúrio dos canais, na forma como o tempo aqui não corre - flutua. Em Veneza, os minutos não passam: seduzem.


Aqui um gesto vale por mil palavras, mas Veneza sabe que o amor não é um conto de fadas e, as repetidas palavras de amor para toda a vida é a promessa menos cumprida. Oh, mas como é bom ouvi-las! Eu acredito que toda a envolvência que vi nos casais apaixonados… era verdadeira. Tanto amor… admiro o seu poder esmagador de alterar e definir nossas vidas. Infelizmente para muitos a chama se apaga de uma forma inexplicável e para outros tantos, o amor simplesmente se vai. Nestes casos, eu me interrogo; que sentimento serviu de pincel para colorir esta viagem?

Percorrer Veneza de mãos coladas é como viver um conto de fadas, aquela fantasia onde o Príncipe encantado te leva ao colo com o teu vestidinho branco até ao castelo. Tu deitas na cama, fechas os olhos e acreditas em tudo: no Pai Natal, na Fada dos Dentes, no Príncipe Encantado. Em Veneza aprendes que o conto de fadas é um pouco diferente do teu sonho. O castelo pode não ser bem um castelo e que não é tão importante ter um final de “felizes para sempre" e sim um final "felizes neste momento".  Em Veneza tu aprendes que o Príncipe só quer namorar, não procura um cavalo branco nem o pezinho da sua amada, que à meia noite o feitiço não se acaba e que a princesa não precisa de ir embora, nem deixar o sapatinho na escada.


A manhã ainda era uma criança. Era preciso percorrer as ruelas empedradas para apreciar o Palácio Ducal que se impõe, com a sua arquitetura gótica e o peso do poder antigo. A Ponte dos Suspiros que liga destinos e arrependimentos, e por um instante quase ouço os suspiros de quem ali passou. A Ponte de Rialto que pulsa com vida e história, guardando mercados que cheiram a séculos. A Basílica de Santa Maria della Salute que se ergue barroca e protetora, enquanto o Teatro La Fenice, resiliente como um amante reincidente, lembra-nos que a beleza também renasce das cinzas.

O almoço, claro, tinha de ser italiano. Num restaurante sem pressa, entrego-me ao melhor risoto de espargos que alguma vez comi - cremoso, envolvente, quase indecente de tão bom. Acompanha-o um vinho branco de Collio, fresco e elegante, e para fechar, um affogato simples e perfeito: gelato rendido a um expresso quente. Há prazeres que não precisam de ser reinventados.


Depois, caminho. Digestão lenta, ideias soltas. Na cabeça, uma pergunta martela com charme: e se? Um passeio de gôndola pelos canais menores, sentir a Veneza de antigamente… hum. O problema era prático - o preço parecia exigir companhia invisível. Foi então que o destino, esse diretor de casting infalível, entrou em cena.

Cruzámos olhares no mesmo segundo e com a mesma intenção. “Bonjour, je m'appelle Brigitte, aimeriez-vous partager? Assenti sem compreender totalmente, mas compreendi o suficiente quando percebi que dividir a gôndola também dividia o custo. Apresentámo-nos. Eu, português. Ela, francesa. Professora, mas blogger por um tempo - porque a vida também precisa de pausas criativas. “Et vous?” Hesitei. “Moi?” Ando na descoberta do que quero descobrir. Aventureiro… assim, assim. Rimos. Rir é sempre um bom começo.


A conversa fluiu como os canais: viagens, lugares, histórias improváveis. A gôndola avançava devagar, cúmplice silenciosa, enquanto Veneza se revelava em versões íntimas - fachadas descascadas, janelas que espiam, sombras que abraçam. Brigitte tinha uma beleza que não pedia atenção, mas recebia-a naturalmente: cabelo loiro liso, corpo leve de curvas perfeitas, um olhar curioso e um sorriso de quem não se leva demasiado a sério. Havia nela uma inteligência descomplicada, uma sensualidade tranquila, típica de alguém desprendida do norte de França.

Foi ali, entre histórias partilhadas e silêncios confortáveis, que ela me convidou para prolongar o dia num passeio de barco até Murano e Burano. Aceitei sem hesitar - a solidão, às vezes, precisa mesmo de um intervalo. Vi nos seus olhos um brilho satisfeito, quase infantil.


Murano recebeu-nos com o fogo transformado em arte. O vidro moldado em cores impossíveis parecia refletir o espírito da ilha: frágil, intenso, eterno. Mas mal colocamos o pé na minúscula ilha de Burano, senti que tinha chegado a um lugar sui generis, tão silencioso que dava para ouvir cada passo. Casinhas com cores vivas onde nada combina, mas que nos transporta para um mundo colorido, que não irei esquecer mesmo depois de dar a volta ao mundo.

Aqui não há monumentos ou atrações turísticas, além das casas coloridas e janelas decoradas com cortinas rendadas, como que a identificar quem lá mora. Parece que acabei de entrar num livro de banda desenhada e encarnar no Pato Donald. Na verdade, não há muito para se visitar em Burano, o melhor a fazer aqui, é passear pelas ruelas e aproveitar o ambiente relaxado desta ilha colorida para namorar.


Ao regressarmos, convidei-a para jantar. Ela sorriu, à-vontade, divertida: “Ufa, pensei que não me convidavas. Mas se queres conhecer-me melhor, prefiro petiscar num terraço em frente ao Grande Canal e saborear um bom vinho tinto italiano. Concordas? “Vamos lá” - respondi, porque algumas decisões não precisam de reflexão.

A noite caiu serena sobre Veneza. O vinho era profundo, a conversa ainda mais. Falámos de tudo e de nada, como fazem as pessoas que se encontram no momento certo. Viajar tem esse poder estranho: torna-nos mais humanos, mais atentos, menos armados. Ensina-nos a escutar o mundo como ele é.

https://www.youtube.com/watch?v=oXnx9LZDIac&list=RDWblqgMk6m1Q&index=8

Depois… depois não me lembro de chegar ao hotel. Apenas de um retângulo muito macio e confortável, de um perfume francês persistente na minha roupa, e de mim a colocar os fones para escutar uma música serena, cheia de sensualidade - exatamente como as noites em Veneza.

 

Diário de uma viagem – 99 dia – 02/10/2025





Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…