O fascínio perigoso em torno dos amores clandestinos!

 

Despertei em Veneza como quem acorda dentro de um sonho mal explicado. O quarto estava inundado por uma luz líquida, dourada, que parecia subir do Grande Canal. Depois… depois também não me lembro de ter chegado ao hotel. Há lapsos de memória que não são falhas, são indulgências do universo - uma forma elegante de nos poupar aos detalhes quando a noite foi excessivamente perfeita.

Fui à janela despedir-me do Grande Canal como quem se despede de uma amante que sabe que não vai esquecer. As gôndolas deslizavam preguiçosas, cúmplices silenciosas de tudo o que não foi dito. Pensei na noite didática com Brigitte - nome que ainda ecoava em mim como um acorde menor, doce e perigoso. Não fiquei com o seu contacto. Talvez por descuido, talvez por romantismo irresponsável, talvez porque algumas histórias existem apenas para permanecerem suspensas. Quem sabe se o destino, esse carteiro caprichoso, não nos voltará a cruzar por aí, numa esquina improvável do mundo.


A manhã já ia a meio, sem pressas nem julgamentos. A viagem até Verona levaria cerca de uma hora e um quarto, mas o meu corpo ainda negociava a paz com a ressaca do dia anterior. Um duche tranquilo, quase meditativo, onde a água parecia lavar não só o corpo, mas também os excessos da alma. Movimentos lentos, diplomáticos - qualquer gesto brusco seria considerado um ato hostil para a minha dor de cabeça.

A sala de pequenos-almoços do hotel, de frente para o Grande Canal, era um manifesto de harmonia. Tons quentes, ocres e azuis suaves, como se alguém tivesse tentado pintar a calma. A música, discreta, um jazz italiano sussurrado, não invadia - acariciava. O staff, maravilhosamente atento, tinha aquele sorriso genuíno de quem sabe que trabalha num cenário onde a beleza é rotina. Havia doces que pareciam pequenas obras barrocas, café forte, pão quente onde a manteiga se rendia sem resistência. Frutas frescas, sumos vibrantes, cores que acordavam os sentidos antes mesmo do paladar. Comi devagar, respeitando o momento, como quem sabe que a pressa é inimiga da memória.


Depois, malas no carro e rumo a Verona. À medida que me afastava das águas de Veneza e avançava pelo interior, a paisagem transformava-se numa tapeçaria viva. Vinhas alinhadas com rigor poético, campos férteis, árvores que pareciam conversar entre si. O céu estava nublado, mas de um cinzento elegante, nada dramático - um céu que sabia esperar. A música romântica no carro fazia o seu trabalho: embalava pensamentos, criava cenas que talvez nunca acontecessem. Ao longo do Canal de Brenta, as Villas de Palladio surgiam como pausas arquitetónicas no tempo, residências de verão da aristocracia veneziana, sugerindo uma vida feita de contemplação, elegância e algum tédio bem vestido.

A rota levou-me a Vicenza, onde parei para um café italiano, intenso, quase filosófico. A cidade respira Renascimento. O Teatro Olímpico, a Basílica Palladiana, a Piazza dei Signori… tudo ali parece organizado segundo uma lógica estética superior. Acabei por almoçar em Vicenza, decisão sábia e ligeiramente gulosa, para poder visitar o museu de Andrea Palladio. As suas obras, renascentistas e rigorosas, explicam perfeitamente porque a cidade carrega o selo de Patrimônio da UNESCO. Ali, a geometria também sabe ser emotiva.


De volta à estrada, segui até Verona. Ao chegar ao hotel, junto ao rio Ádige - esse rio fundamental para a história e beleza do nordeste italiano - fui surpreendido pela maravilha arquitetónica do edifício. Obras de arte nas paredes, cada uma contando uma história, um staff que me recebeu de braços abertos como se eu fosse um velho amigo que finalmente regressava, e um quarto confortável com uma panorâmica serena sobre o rio. Colocar as malas, um banho refrescante e sair à procura de um restaurante foi um pulinho - literalmente, o corpo já cooperava melhor.

Escolhi um restaurante italiano numa zona ajardinada de Verona. Mesas ao ar livre, luzes suaves penduradas nas árvores, aromas que misturavam manjericão e alho. A comida era deliciosa e generosa, o vinho italiano fazia justiça à sua reputação - encorpado, envolvente, ligeiramente atrevido. A sobremesa foi soberba, daquelas que nos fazem sentir o invisível e refletir sobre as nossas decisões na vida.


Nesta cidade de palácios renascentistas e igrejas barrocas, todas as ruas e pracetas evocam um episódio da tragédia de Romeu e Julieta. Património Mundial desde o ano 2000 Verona, separada pelo rio Ádige, com algumas pontes da época romana que unem as margens e permitem aceder ao bairro histórico. Mesmo que William Shakespeare não tivesse ambientado o amor proibido de “Romeu e Julieta”, a cidade, com um poder de sedução inato, continuaria a ser uma das mais românticas de Itália.

Quando se busca adrenalina no proibido, entra-se num ritmo alucinante de viver às escondidas, de ter de inventar um outro mundo paralelo, de ter que se superar e encontrar as mais inusitadas formas de respirar, como se qualquer loucura pudesse ser justificada.  As dificuldades em se viver um amor proibido, não está presente só na história de Romeu e Julieta. Às vezes o amor se acende e se intensifica quando é acompanhado por uma dose, grande ou pequena, de impossibilidade. A paixão nunca é tão ardente como quando é de alguma forma impedida.


Existe, sem dúvida, um fascínio perigoso em torno dos amores clandestinos, mas algumas pessoas parecem viciadas em viver no proibido, como se nada pudessem fazer para evitar. Torna-se um modo visceral e até insano, viver intensamente, mergulhar de corpo e alma numa situação em que pouco importa se está prestes a desabar, como se vivesse numa gangorra de emoções, ora incrivelmente feliz, ora absurdamente dilacerado, transformado em dor, lágrimas e tragédia. Os obstáculos tornam-se estímulos e o risco acaba sendo visto como um desafio atraente.

Se aceitares que, ainda efêmeros, os amores proibidos compensam o tempo curto pela intensidade, é o mesmo que aceitares que se não houvesse confusão entre o desejo e a razão não haveria conflitos internos, mas também não haveria “emoção”. Por isso é que muitas vezes corremos atrás do pouco que nos oferecem pela adrenalina que a própria imprevisibilidade nos provoca.


Ao sair do restaurante e atravessar o jardim em direção ao hotel, um velho simpático, sentado num dos muitos bancos, acenou-me. Disse que podia ler as cartas sobre o meu futuro. Antes, perguntou-me qual seria a pergunta mais pertinente - talvez o acontecimento que iria alterar o meu percurso. Sorri. Disse-lhe que não seria fácil ler nas cartas, quando a concha que carrego na mala se transformará numa mulher real. Perguntei-lhe também quando a carta de amor que lancei engarrafada ao mar, em Constança, chegaria ao seu destino - ou se as duas situações estariam entrelaçadas.

O velho perdeu o sorriso. Olhou-me fixamente. Após uma pausa que pareceu uma eternidade mal iluminada, pegou num baralho de cartas gastas pelo tempo e começou a separá-las. O silêncio tornou-se denso, quase físico. Depois de algum tempo, voltou a olhar-me e disse-me que estava a ficar cansado. Pediu-me para voltar no dia seguinte - teria boas notícias para me dar. Abraçou-me com um tremor, daqueles que não fingem juventude.

Voltei para o hotel a pensar na cidade onde acabara de chegar e no que ela representa para cada um. Verona, afinal, não é apenas a cidade do amor - é a cidade da expectativa. Sem mais, entrei no quarto, coloquei os fones, e só tive tempo de escutar esta música romântica. Adormeci ansioso para escutar o que o velho tinha para me dizer no dia seguinte.

https://www.youtube.com/watch?v=aLnZ1NQm2uk&list=RDTQoU1qxddaI&index=11

O ancião, de barbas brancas e feições que o tempo cinzelara com a sabedoria das eras, possuía um olhar que era, simultaneamente, um espelho e um portal. As suas íris, de um azul tempestuoso e profundo, pareciam ter absorvido a luz de estrelas extintas. Não fixavam objetos, mas a essência das coisas. A sua visão não se limitava ao espectro visível; penetrava a substância, desnudava intenções e lia a aura das almas, como se cada pessoa fosse um livro aberto que ele pacientemente folheava.

 

Diário de uma viagem – 100 dia – 03/10/2025

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