Dez mil cavernas… talvez, em alguma delas, exista um escrito antigo que fale da origem da minha Concha!
Despertei
com a chamada de Katarina ainda preso às redes do sono, em Zagreb. O quarto
estava mergulhado numa luz preguiçosa, dessas que não pedem licença para
entrar, apenas se instalam. Já não era muito cedo, mas o percurso até Liubliana
prometia apenas duas horas - um capricho do tempo, quase um suspiro geográfico.
Um banho fresco acordou-me a pele e as ideias; a água escorria como se lavasse
não só o corpo, mas também as expectativas. Pouco depois, estava sentado diante
de um pequeno-almoço vibrante, cheio de frutas, cores e vitaminas, como se o
dia tivesse decidido começar com um sorriso saudável.
Estava
entusiasmado. Ia entrar, pela primeira vez, na Eslovénia. Um país verdejante,
ex-jugoslavo, descrito como um poema natural escrito em montanhas, florestas e
lagos. Um território onde os Balcãs flertam com a Itália e a Áustria, onde o
turismo ativo se mistura com uma gastronomia rica e uma economia moderna,
orgulhosamente sustentável. Qualidade de vida como assinatura nacional. Hum…
parecia que eu estava prestes a encontrar o meu paraíso.
Um
país pequeno, mas incrivelmente diverso: uma extensão dos Alpes a norte e
noroeste, planaltos ondulantes, e uma tímida, mas sedutora faixa costeira de 43
quilómetros no Mar Adriático. Mais de dez mil cavernas e mais de 60% do
território coberto por florestas protegidas. O terceiro país mais arborizado da
Europa. Hum… cavernas. Algo nelas chamava-me, como um segredo sussurrado
debaixo da terra. Teria de descobrir.
A
estrada até Liubliana revelou-se um ritual de transição. À medida que deixava a
Croácia, a paisagem ia-se tornando mais suave, mais ordenada, quase mais
silenciosa. As casas pareciam sorrir com telhados bem desenhados, jardins
cuidados, janelas abertas ao mundo. O clima de finais de setembro envolvia tudo
num dourado melancólico: o verão despedia-se sem drama, o outono chegava com
elegância. O verde tornava-se mais profundo, mais pensado, como se alguém o
tivesse afinado.
A
Eslovénia tem apenas cerca de dois milhões de habitantes, mas ostenta uma
economia estável, um elevado IDH e uma renda per capita invejável. Serviços,
indústria automóvel, siderurgia, metalurgia e comércio sustentam um país que
dialoga economicamente com a Alemanha, Itália e Áustria. Tudo indicava que eu
estava a entrar num território de bem-estar, prosperidade e equilíbrio - onde a
riqueza material caminha lado a lado com saúde, educação e oportunidades. Ainda
assim, sabia que os números não contam tudo. Vamos descobrir…
Os
eslovenos são descritos como educados, recetivos, orgulhosos da sua terra e da
sua história. Há uma influência germânica nos gestos e uma intimidade profunda
com a natureza: desportos de inverno, caminhadas, silêncio. Mas eu sabia também
que estava a entrar num país místico, carregado de segredos antigos - e isso
aguçava a minha curiosidade como um felino diante de uma porta entreaberta.
O
folclore esloveno mergulha as raízes na mitologia eslava. Perun, deus do
trovão, Morana, senhora do inverno e da morte, Veles, deus da terra, das águas
e da magia. Divindades que não pedem explicação racional, apenas respeito.
Dizem que gigantes habitaram estas montanhas; algumas formações rochosas, como
a Ajdovska deklica, a “Menina Gigante”, são gigantes transformados em pedra por
caprichos do destino. Nos Alpes Julianos, ecoa a lenda de Zlatorog, o mítico
íbex de chifres dourados, guardião de tesouros e senhor da natureza selvagem.
Mas
eram as cavernas que me chamavam. Com milhares de cavernas, o mundo subterrâneo
da Eslovénia é um convite ao mistério: criaturas esquecidas, tesouros ocultos,
passagens secretas como as que se dizem ligar ao Castelo de Predjama. Talvez,
em alguma delas, exista um escrito antigo que fale da origem da minha Concha -
e do momento exato em que a mulher que ela se transforma se torna real. Hum…
talvez quando receber a carta de amor que lancei, engarrafada, no mar de
Constança.
Cheguei
a Liubliana no início da tarde. A cidade recebeu-me sem pressa. Encontrei
rapidamente o hotel, em pleno centro histórico, mesmo ao lado do rio Ljubljanica.
Assim que entrei, fui brindado com uma bebida fresca: um copo de cvicek,
levemente ácido, refrescante, quase atrevido - como se dissesse “bem-vindo, mas
não te acomodes demasiado”. O staff da receção, um homem e uma mulher, exalava
elegância e charme, tal como o edifício: antigo, de paredes que sabiam
histórias, mas com um conforto que respeitava o presente.
O
quarto era amplo, luminoso, com vista para o rio e para ruas que pareciam
sussurrar passos antigos. As cortinas dançavam suavemente, cúmplices do tempo. Pousei
as malas e deixei-me levar pelo estômago. À beira do rio, entrei no primeiro
restaurante que me seduziu pelo aroma. Pequeno, íntimo, não mais de cinco
mesas, chão de madeira gasto pelo tempo e duas senhoras idosas na cozinha -
mãos sábias, olhares atentos. Comi carnes grelhadas no ponto certo, acompanhei
com um vinho tinto suave, redondo, que escorregava perigosamente bem. A
sobremesa, à base de frutos cremosos, foi a cereja em cima do bolo -
literalmente e metaforicamente.
O
staff era composto por uma mulher elegante, sorriso luminoso, tempero humano
tão afinado quanto a comida. Chamava-se Eva. Foi ela quem me contou que a
Eslovénia é produtora de vinho há mais de 2.500 anos, terra de castas
autóctones, práticas orgânicas e biodinâmicas, ainda subestimada, mas cada vez
mais respeitada. Eva havia trabalhado como enóloga durante anos, e falava do
vinho como quem fala de um amante antigo.
O
almoço arrastou-se. Tomei notas enquanto Eva falava. Quando levantei os olhos
para pedir um café, a sala estava vazia e a tarde avançada. Delicadamente,
serviu-me um café forte - turska kava, denso, intenso - acompanhado de um
pequeno aperitivo esloveno. Sentou-se em frente a mim, como quem finalmente
respira, e disse: “Agora fala-me um pouco de Portugal.” Falei. E, como sempre
acontece quando estamos longe, a saudade veio embalada em nostalgia. Ela
escutou em silêncio, olhos atentos. No fim, sorriu: “Wow… tu vives no paraíso.
Quero muito conhecer.”
Ao
levantar-me, percebi que o vinho esloveno é maroto: entra suave e sai a dançar.
Caminhei pela cidade até ao hotel, e aos poucos o efeito dissipou-se. Tinha
almoçado e jantado e, naquele momento, tudo o que queria era estender-me no
quarto, contemplar o rio e a iluminação dourada da cidade histórica à noite.
O
dia seguinte prometia intensidade. Liubliana, uma das capitais mais
sustentáveis e verdes da Europa, esperava-me. Quando me preparava para colocar
os fones e adormecer, recebi uma mensagem de Eva: “Se amanhã vieres almoçar
novamente aqui, peço folga de tarde para te mostrar a cidade.” Agradeci e
confirmei. Não há nada melhor do que descobrir uma cidade através de uma nativa
culta, que conhece os cantos da casa e os silêncios entre as ruas.
https://www.youtube.com/watch?v=RSyUWjftHrs&list=PLJmzdqLGl_E7CbbYpSgH3Gi-rZyvgxr-6
Viajar é um privilégio, mas também um desgaste. Quando as jornadas se prolongam, o corpo cobra, a mente vacila. Sem uma gestão consciente do esforço e da energia, até o mais belo caminho pode tornar-se pesado. E nenhuma paisagem, por mais mágica que seja, merece ser atravessada em exaustão.
Diário
de uma viagem – 96 dia – 29/09/2025







Comentários
Enviar um comentário