Companheira ou acompanhante? O mais cruel é a simulação. O teatro do cuidado, do toque, do “para sempre” ensaiado.
Despertar
em Liubliana, na Eslovénia, mesmo em frente ao rio Ljubljanica, é mais do que
acordar: é renascer. A água serpenteia preguiçosa pelo centro histórico como
uma ideia antiga que nunca se cansa de ser bela. Abri os olhos com a sensação
rara de juventude devolvida, o corpo leve, a alma curiosa, pronto para
enfrentar um novo dia numa cidade que parece feita de mistérios sussurrados e
promessas silenciosas.
O
banho foi um ritual. A água morna escorreu-me pela pele como uma mão
conhecedora, libertando aromas de ervas e citrinos que o vapor elevava até ao
teto alto do quarto. Fechei os olhos. Cada gota parecia acordar um sentido
adormecido, cada inspiração era um convite ao prazer simples de existir. Saí do
banho com a pele a arder suavemente, como se tivesse sido beijada pelo tempo.
O
pequeno-almoço esperava-me numa sala que respirava história - paredes marcadas
por séculos de confidências, madeira polida pelo toque de gerações, janelas
altas por onde a luz entrava com respeito. O pão ainda morno desfazia-se sob a
manteiga, os queijos tinham personalidade, as frutas eram maduras e insolentes,
o café forte e profundo como uma conversa que ainda não começou. Comi devagar, com
gula e gratidão, como quem se prepara para amar uma cidade inteira. Mochila às
costas, estava pronto.
Ao
amanhecer, Liubliana desperta como um segredo contado ao ouvido entre os Alpes
e o Adriático. Caminhei pelas margens do Ljubljanica, onde o coração da cidade
bate mais devagar. Uma névoa prateada dançava sobre a água, e os primeiros
raios de sol douravam as fachadas em tons pastel. Atravessei a Ponte Tripla
sentindo a elegância de outros tempos; os meus passos ecoavam na pedra,
fundindo o pulsar urbano com a serenidade de um jardim interior.
Na
Ponte do Dragão, as figuras míticas pareciam vigiar não só a cidade, mas o amor
que floresce em cada esquina, protegendo histórias que as pedras contam apenas
a quem caminha sem pressa. Perdi-me de propósito nas ruelas onde o aroma de
café acabado de moer e pão quente escapava das esplanadas ainda tranquilas. Lá
no alto, o Castelo de Liubliana observava tudo como um guardião romântico,
rodeado por uma natureza exuberante que invade as ruas. Barcos silenciosos
deslizavam sob as pontes, bicicletas passavam como pensamentos felizes, e a
manhã tornava-se uma carícia na alma - o tempo suspenso para que o mundo
pudesse, simplesmente, ser belo.
Quando
chegou a hora do almoço, voltei ao restaurante de Eva. Havia uma mesa num
canto, reservada, com o meu nome. Mal me sentei, recebi o sorriso dela - desses
que prometem sem explicar. A refeição foi uma surpresa pensada para mim: zlikrofi
delicados, recheados com batata e ervas, envoltos num molho amanteigado que
cheirava a casa; depois um prato de carne lentamente confecionada, profunda de
sabor, acompanhada por um vinho esloveno sedoso, mineral, que descia como uma
confidência bem guardada. A sobremesa levou-me ao sétimo céu: uma gibanica em
camadas indecentes de doçura, textura e memória. Sorri. Liubliana tinha gosto.
Esperava
ansioso descobrir a cidade pela mão de Eva, como ela prometera no dia anterior.
Não importa há quanto tempo viajo ou quão longe já fui: há cidades que nos
fascinam, poucas que nos capturam, e raríssimas que nos reclamam o coração. Só
uma o fará de forma definitiva, quando a mulher da concha se tornar real.
No
final do almoço, Eva surgiu transformada: roupa desportiva, elegante na
simplicidade, sentou-se à minha frente com naturalidade desarmante. “Estou
pronta para, ao teu lado, descobrirmos Liubliana. O almoço foi por minha conta.
O jantar, convidas-me tu. Disse tudo? Fez-se um silêncio denso entre os nossos
olhares - desses que dizem o que a voz ainda não sabe. E partimos.
Caminhámos
por entre vegetação luxuriante, num ambiente feito para peões e confidências.
Vimos o Castelo de Liubliana, com vistas que roubam o fôlego; seguimos o legado
de Plecnik, presente em cada gesto arquitetónico; atravessámos o Mercado
Central, vivo de cores, vozes e cheiros; voltámos à Ponte do Dragão e à Ponte
Tripla; encontrámos o Homem Verde, símbolo antigo da fertilidade e da natureza
que insiste em renascer.
Parámos
para um café numa esplanada junto ao rio. Eva pegou-me na mão com carinho. “Agora
vamos falar de nós. Mas antes das lendas da Eslovênia. Eu sei que gostas”. Sorri,
curioso e ligeiramente arrepiado. Ela contou-me do dragão derrotado por São
Jorge, do Homem Verde cuja barba traz sorte ao amor, da fonte que canta às
donzelas, da bruxa de Smarjetna Gora vencida por coragem. “E as dez mil
Cavernas?” - perguntei-lhe entusiasmado. Ela riu-se. Um riso curto, malicioso,
desses que sabem mais do que dizem. Os olhos estreitaram-se como se guardassem
um mapa secreto. “O que queres saber das cavernas?”
Disse-me
então que as cavernas nascem do tempo e da água, desse pacto lento e silencioso
que a chuva assina com a pedra. Que a água, carregada de dióxido de carbono,
aprende a ser delicada e persistente, dissolvendo calcário e dolomita ao longo
de milhões de anos, escavando corredores onde a escuridão tem memória. Falou-me
do Rio Pivka, subterrâneo e paciente, desenhando salões invisíveis, e dos
minerais que, gota a gota, erguem estalactites e estalagmites como catedrais
que ninguém ousa profanar. Enquanto falava, eu via o mundo por dentro: a beleza
do que se constrói sem pressa, longe dos olhos.
Depois
veio um silêncio. Um desses silêncios que não pedem desculpa por existir. O ar
entre nós parecia suspenso, como se o tempo tivesse tropeçado. Reforcei a
coragem. “E tu, nasceste em Liubliana?” Ela negou com a cabeça. “Não, Maurício.”
O silêncio voltou, mais pesado. As palavras custavam-lhe a sair, como se
tivessem de atravessar uma caverna antes de chegar à boca. “Nasci em Celje. A
terceira cidade da Eslovénia. Vivi lá até há cinco anos… depois de um casamento
que, por sorte, não chegou a acontecer.” Olhei-lhe os olhos. Havia um brilho
húmido, contido, e a voz tornou-se quase inaudível. “Queres partilhar?” - perguntei,
meio curioso, meio ternurento, oferecendo-lhe o ombro como quem acende uma
vela.
“Os
meus pais têm uma vida estável, um pouco acima da média. Sou filha única.
Formei-me cedo em relações internacionais.” - Fez uma pausa, respirou fundo. “Apaixonei-me
por um homem que tinha tudo para me fazer feliz… até perceber que a pressa dele
em casar era uma corrida para chegar aos bens que os meus pais poderiam deixar.
Parou de novo, à procura de ar. Olhou para o lado, depois para mim.
“Eu
estava cega. Não porque não visse, mas porque me recusava a acreditar. Só
quando o casamento já estava marcado e lhe disse que, a pedido dos meus pais,
seria com separação de bens… tudo mudou. A atitude, o tom, o amor." Um sorriso
triste, quase irónico. “Desapareceu de um dia para o outro. Nunca mais o vi.” Precisávamos
de uma pausa mais longa. Pedi duas cervejas geladas. O vidro suado parecia
entender-nos melhor do que nós próprios.
Percebi
então que tínhamos histórias parecidas, ainda que com cicatrizes em lugares
diferentes. Ela em Celje e eu em terras de Santa Maria. Quando o amor se
mistura com interesses materiais, instala-se uma névoa perigosa. Nunca sabemos
se quem nos acompanha é companheiro ou acompanhante - alguém que caminha ao
nosso lado enquanto há estrada, e salta fora quando acaba o conforto.
Há
uma tristeza funda nesses relacionamentos por interesse. Uma tristeza que vem
misturada com vergonha. Vergonha por termos acreditado. Vergonha por termos
confundido promessas com contratos invisíveis. São assaltos que não deixam
portas arrombadas, mas levam tudo: tempo, confiança, futuro imaginado. Homens e
mulheres, sem distinção, transformam o afeto numa oportunidade de negócio, e o
“nós” num cálculo frio. São “lobos e lobas”, que andam sempre na rua bem
vestidos, como radares à procura da presa.
O
mais cruel é a simulação. O teatro do cuidado, do toque, do “para sempre”
ensaiado. Descobrir a farsa é como perceber, tarde demais, que a caverna não
era abrigo, mas armadilha. E quando se descobre, as mazelas já estão feitas -
sobretudo pelo tempo em que acreditámos que a felicidade estava ao alcance da
mão.
A
conversa prolongou-se mais do que o previsto. Houve risos breves, um humor
sarcástico a tentar salvar-nos do peso, e momentos de pura emotividade, desses
que deixam a voz embargada e o coração mais leve por ter falado. Foi uma
confissão autêntica, verdadeira, realista. Daquelas que não pedem aplauso,
apenas escuta. Lá fora, Liubliana continuava colorida, viva, indiferente. Cá
dentro, aprendíamos que algumas cavernas existem nas pessoas - e que
atravessá-las exige coragem, luz e, às vezes, a companhia certa.
Ainda
visitámos a Universidade de Liubliana, antiga e bela, e chegámos à Praça Preseren,
viva e poética. Jantámos num restaurante acolhedor, jazz suave, petiscos
delicados. A praça era um abraço coletivo, um lugar onde a amizade se senta à
mesa com o romance. “Sinto-me bem
contigo. Estou leve” - disse Eva.
Depois
fomos caminhar pela margem do rio Ljubljanica. A água serpenteava pelo centro
histórico com a elegância preguiçosa de quem sabe exatamente para onde vai - ao
contrário de mim, que já começava a perder o norte. As fachadas coloridas
refletiam-se no rio como memórias inventadas, e o ar tinha um perfume húmido,
quase doce, misturado com promessas e silêncios cúmplices. Havia qualquer coisa
de mágico naquele passeio: o som distante de copos a tilintar, o riso solto de
estudantes, a cadência suave dos passos lado a lado, como se o mundo tivesse
decidido abrandar só para nós.
Falávamos
dos nossos países. Ou melhor, Eva falava da Eslovénia. Com a tranquilidade de
quem apresenta factos irrefutáveis, começou a descrever um país seguro,
socialmente equilibrado, com um sistema de saúde sólido, uma esperança média de
vida de quase 85 anos e indicadores de bem-estar que piscavam o olho à média
europeia - às vezes até lhe faziam sombra. Hum… pensei. Comecei a perder 1–0.
Continuou: um dos países mais seguros do mundo, educação forte, rendimento
estável, Índice de Desenvolvimento Humano elevado. Hum… 2–0. O custo de vida
mais baixo, o tempo de deslocação curto, o cuidado com a população envelhecida,
a sustentabilidade social pensada como algo sério e não apenas bonito em
discursos. Eu já nem tentava disfarçar. O placar emocional estava
desequilibrado, e eu sentia-me deliciosamente derrotado.
Enquanto
ela falava, eu observava a forma como a luz tocava o seu rosto, como o vento
brincava com o seu cabelo, como a sua voz tinha um ritmo que combinava com o
rio. Pensei, com um humor meio sarcástico e meio rendido: meu Deus… eu quero
viver aqui.
Quando
chegou a minha vez, falei de Portugal. Falei da beleza da paisagem, das praias
intermináveis, do sol generoso, da gastronomia que abraça, da amabilidade dos
portugueses, dessa arte quase sensual de bem receber. Falei com amor, claro -
mas com a consciência lúcida de quem sabe que, contra factos, não há
argumentos. O rio continuava a correr, indiferente ao meu patriotismo ferido, e
eu sorri. Porque perder ali, daquela forma, ao lado de Eva, naquela cidade
misteriosa e vibrante, não era exatamente uma derrota. Era uma aventura. Uma
dessas que ficam na pele, na memória… e talvez no coração.
Regressei
ao hotel rendido, mas cheio de esperança. Não pensei mais além. Havia dias que
pedem apenas isso: serem dias. Quando entrei no quarto iluminado, a luz era
morna, dourada. As cortinas de linho respiravam ao ritmo da noite, a cama
oferecia-se em camadas de conforto, lençóis macios como promessas cumpridas,
almofadas generosas onde o cansaço encontra perdão. Um candeeiro discreto
desenhava sombras cúmplices nas paredes, e o ar cheirava a madeira polida e a
distância feliz.
Fui
à janela. A cidade calava-se com elegância, e o rio, esse confidente, passava
como um pensamento lento. No silêncio, desabafei a minha concha da mala e
coloquei-a cuidadosamente em cima da almofada ao meu lado - um talismã marinho
numa cama de terra firme. A noite estava calma; e quando assim é, sei-o desde
sempre, é sinónimo de uma noite agitada. Há calmarias que conspiram.
Acredito
em momentos mágicos, surpreendentes, inauditos - quando as energias se fundem
como tintas numa água clara, e os corpos, mesmo sem se tocarem, aprendem a
linguagem do entrelaçar. O astral torna-se uma espécie de travessia, meio
aventura, meio reza, com humor sarcástico a piscar o olho ao destino, como quem
diz: “não te levo tão a sério, mas sigo-te”.
A
minha concha parecia cintilar. Coloquei os fones, para ouvir a minha música. O
som era uma vibração doce, quase sensual, que percorria a pele por dentro.
Ri-me sozinho - que outro remédio? - dessa minha mania de procurar sonhos
mágicos em quartos de hotel. Às vezes funcionava.
https://www.youtube.com/watch?v=gI_Ps_ObOYs&list=RDgI_Ps_ObOYs&start_radio=1
Adormeci
com a ideia de que o mistério não pede respostas, pede entrega. O dia seguinte
reservava-me a cidade prometida: Veneza. A cidade do amor, onde as ruas são
carícias líquidas e as noites sabem a despedidas que querem ficar. Sorri. Há
amores que começam antes do encontro - e outros que se insinuam, devagar, como
um beijo deixado no ar, à espera de ser lembrado e com a certeza de que algumas viagens começam
muito antes do próximo amanhecer.
Diário
de uma viagem – 97 dia – 30/09/2025









Comentários
Enviar um comentário