Aqui o amor está no ar, na poesia, no coração e também no nosso olhar!
Levantei-me lentamente, com dores nas costas, como se o dia anterior tivesse sido passado dentro de um ginásio pouco amigável e muito criativo na tortura. O espelho devolveu-me um sorriso torto, desses que sabem segredos e fingem não contar. Fui à janela: Liubliana estava lá, serena, flertando com o rio como quem sabe que será lembrada. A cidade respirava baixo, numa elegância discreta, e o rio devolvia-lhe o olhar, cúmplice.
No
duche, alternei água quente e gelada para recompor os ossos e reorganizar a
alma. Saí seguindo o aroma do café forte, ainda a acabar de abotoar a camisa no
elevador - esse espaço neutro onde os pensamentos se alinham como gravatas mal
escolhidas. As noites pouco dormidas provocam-me um apetite invulgar por sabores
doces, uma gula quase infantil, como se o corpo pedisse consolo com açúcar.
A
sala de pequenos-almoços recebia-me com uma luz dourada, espalhada por mesas de
madeira clara e tecidos que pareciam ter sido escolhidos por alguém que
acredita no toque. O ar estava perfumado de pão acabado de sair do forno,
frutas maduras e café recém-moído, intenso, honesto. O staff movia-se com uma
harmonia quase coreografada: gestos precisos, silenciosos, sensuais na sua
atenção - uma chávena pousada com delicadeza, um sorriso oferecido no tempo
exato. Havia cestos de pão de todas as promessas - crocantes, macios, escuros,
claros - e frutas que exalavam cor: laranjas abertas como pequenos sóis, figos
tímidos, uvas curiosas. A música, suave, escorria pelas paredes como um
sussurro cúmplice, embalando o espaço numa calma que quase convencia o relógio
a desacelerar.
Quando
me preparava para fazer o check-out, lá estava a Eva, no fundo do salão,
sentada confortavelmente, como se o lugar lhe pertencesse desde sempre - à espera
de se despedir de mim. Aproximei-me serenamente, ensaiando por dentro a
coreografia de uma despedida. “Pensavas que ias embora sem te despedires de
mim?” - disse, com uma voz serena e um olhar brilhante de lágrimas. “Nunca” -
respondi, e o abraço veio antes das palavras seguintes. Senti os seus braços a
percorrerem-me o corpo, a cabeça aconchegada ao meu ombro, o respirar a
procurar mais ar, como quem quer guardar o suficiente para depois. O tempo,
educado, afastou-se um passo. “Não é um adeus, Eva. Prometeste visitar
Portugal.” “Conta comigo mais rápido do que pensas” – respondeu, “porque as
tuas palavras sobre Portugal transportaram-me para um paraíso.”
Acompanhou-me
até ao carro. O céu parecia cúmplice dessa promessa improvisada. Pelo espelho
retrovisor, vi-a acenar à medida que me afastava de Liubliana em direção a
Veneza, ali ao lado, a cerca de duas horas e meia de estrada. O aceno ficou
maior do que a cidade, e a cidade ficou maior do que o mapa. Levei comigo uma
saudade que não pesa, uma amizade que aquece e um romantismo discreto, desses
que viajam bem. A estrada abriu-se, aventureira, e eu segui - com a certeza
leve de que algumas despedidas são apenas o começo de outra história.
Saí
de Liubliana ainda com o dia a espreguiçar-se, como quem não quer acordar de um
sonho bonito. Outubro começava - esse mês que não decide se é verão tardio ou
outono precoce - e a Eslovênia vestia-se de cobre, âmbar e verde cansado. A
estrada serpenteava entre colinas suaves, florestas que cheiravam a folhas
húmidas e promessas antigas, e um céu de azul delicadamente irónico, como se
dissesse: vai, mas volta diferente.
O
carro avançava e eu com ele, aventureiro por vocação e romântico por teimosia.
Cada curva parecia escrita por um poeta distraído, cada aldeia um segredo que
piscava o olho e fingia não se importar. O ar estava fresco, quase atrevido, e
a paisagem parecia ter sido pintada com pincéis embriagados de melancolia
feliz.
A
fronteira entre a Eslovênia e a Itália surgiu sem dramatismos, como um acordo
silencioso entre duas almas que se conhecem bem. Um idioma mudava, o ritmo
também. As placas ganhavam vogais generosas, os gestos tornavam-se mais
expressivos, e até o vento parecia falar com as mãos.
Trieste
recebeu-me com essa elegância ligeiramente decadente de quem já foi império e
agora prefere ser memória. Cidade de fronteira, de misturas, de identidades que
não pedem licença. O Adriático ali é um espelho vaidoso, refletindo fachadas
pálidas e histórias densas. Almocei junto ao mar, porque há decisões que não se
discutem. Encontrei um restaurante simpático, desses que parecem escolhidos
pelo acaso, mas afinal estavam destinados.
Pedi
uma massa carbonara feita à moda italiana - cremosa, insolente, absolutamente
sem remorsos - acompanhada por um vinho branco fresco da Toscana, que deslizava
pela boca como uma confidência bem guardada. Para sobremesa, uma panna cotta
delicada, tremendo de prazer contido, como se soubesse que era irresistível.
Eu, rendido, aceitei.
Trieste
é uma cidade que seduz pela inteligência. O Castelo de Miramare ergue-se como
um poema trágico do amor Habsburgo, branco, sonhador, debruçado sobre o mar
como quem espera alguém que nunca mais volta. Mais adiante, o mito da Dama
Branca do Castelo de Duino sussurra nas pedras, lembrando que os fantasmas
também amam - e às vezes mais intensamente do que os vivos.
Nos
cafés históricos, onde James Joyce e Italo Svevo beberam ideias fortes como o
café que tornou Trieste a capital cafeinada do Império Austro-Húngaro, sente-se
ainda o murmúrio literário, o fumo das palavras não ditas. Mas a cidade também
sabe ser grave: a Risiera di San Sabba, memorial silencioso, recorda que nem
toda a história é romântica - e que a memória é um dever, não um acessório
decorativo.
Subi
depois ao Castello di San Giusto, no alto do monte, onde o século XV ainda
observa tudo com paciência. Lá de cima, Trieste abre-se inteira: a cidade, o
mar, o horizonte. Um suspiro panorâmico. Um momento em que o tempo parece pedir
licença para passar.
E
então segui viagem para Veneza. A estrada tornou-se mais suave, mais luminosa.
Casas de cores quentes surgiam como sorrisos espontâneos. Pessoas nas suas
tarefas - um agricultor atento, uma senhora a estender roupa, um casal a
discutir com paixão teatral - davam vida ao cenário. A natureza acompanhava,
cúmplice, com campos dourados e árvores que já ensaiavam a despedida das
folhas.
Quando
Veneza apareceu, não entrou: revelou-se. Iluminada, festiva, descaradamente
romântica. Como alguém que abre os braços sem pedir explicações, que seduz sem
esforço, que acolhe com um abraço lento e inevitável. As luzes refletiam-se na
água como gargalhadas douradas, e eu senti - com humor sarcástico e coração
rendido - que estava prestes a ser enganado da melhor maneira possível. Veneza
não promete. Veneza cumpre… ou destrói com charme. E eu, felizmente, estava
pronto para tudo.
Procurei
o hotel junto ao Grande Canal, um desses hotéis de charme que parecem saber
mais sobre amor do que qualquer manual de autoajuda. Portas antigas, silêncio
elegante, conforto que não grita luxo - sussurra. Fui recebido com abraços
largos e uma alegria genuína, tipicamente italiana, como se eu não fosse
hóspede, mas um amigo atrasado para o jantar. O entardecer caía lentamente,
dourando as fachadas, e eu ainda precisava espreitar a cidade. Não por
curiosidade, mas por necessidade: Veneza exige ser sentida antes de ser
compreendida.
Caminhei
sem pressa. Aqui, a poesia não mora apenas nos versos: está nas esquinas, nos
reflexos, no olhar distraído de quem passa. Veneza instala-se no coração e
ocupa também os olhos, porque há beleza demais para caber só dentro. Nem é
importante falar - nesta cidade, o tempo inteiro parece reservado ao amor. Amar
alguém, amar a cidade, amar a própria ideia de estar vivo. Tudo ao mesmo tempo.
Destino
sonhado dos apaixonados, Veneza justifica ao menor olhar o porquê de ser
conhecida como a “Cidade do Amor”. E então cheguei à Piazza San Marco. Não se
entra ali: pisa-se num cenário. O coração da cidade bate ali, entre a
imponência da Basílica de São Marcos, o Campanário que rasga o céu, o Palácio
Ducal carregado de história e a Torre do Relógio a lembrar, com ironia, que o
tempo aqui passa… mas de outra maneira. Napoleão chamou-lhe “o salão mais elegante
da Europa”. Não exagerou. Apenas foi honesto.
Como
não poderia deixar de ser, decidi provar uma verdadeira pizza italiana.
Procurei uma pizzaria tradicional, dessas que não precisam convencer ninguém
porque sabem exatamente quem são. Mesas ao ar livre, luz quente, toalhas
simples e um glamour natural que não se aprende - nasce. O staff recebia cada
cliente com sorrisos cúmplices, piadas rápidas, uma simpatia tão espontânea que
parecia ensaiada… mas não era. Era Itália a ser Itália.
A
cerveja veio gelada, dourada, perfeita, como um aplauso líquido ao dia que se
despedia. A pizza chegou fumegante, aroma intenso, massa fina, ingredientes
honestos e saborosos, daqueles que fazem silêncio na boca por respeito. Mas o
jantar não se limitava ao prato.
Porque,
enquanto eu comia, a Piazza transformava-se numa passarela improvisada.
Mulheres italianas entravam e saíam como num desfile naturalíssimo, andar
confiante, sensual sem esforço, provocante sem pedir desculpa. Vestidos leves,
olhares seguros, risos soltos. Um espetáculo paralelo, uma coreografia urbana
que ia alimentando o olhar tanto quanto a pizza alimentava o corpo. E eu,
espectador privilegiado, brindava - à vida, ao acaso, ao bom gosto universal.
Entre
uma dentada e outra, percebi: Veneza não é apenas um lugar. É uma experiência
que nos observa de volta, que nos testa, que nos seduz com elegância e um humor
fino, quase sarcástico. Ela sorri, promete tudo sem dizer nada e, no fim, entrega
exatamente o que precisamos - ou aquilo que nos vai mudar para sempre.
E
naquela noite — ah, naquela noite — na Piazza San Marco, com uma cerveja fria
na mão, pizza ainda fumegante no prato e o coração perigosamente aberto,
aceitei o risco. Porque há enganos que valem a pena. E Veneza… ah, Veneza
engana como ninguém. Engana com classe, com magia, com amor e um sorriso de
canto de boca, daqueles que prometem tudo e não explicam nada.
Saí
da pizzaria como quem sai de um encontro que correu melhor do que o previsto. A
cidade estava iluminada, e eu não resisti: deixei-me perder nos labirintos que
fazem de Veneza um enigma em forma de cidade. Ruas estreitas, sombras cúmplices,
reflexos dourados nos canais - cada esquina parecia sussurrar: vem, confia, eu
sei o caminho… ou talvez não.
Estava
exatamente onde gosto de estar: no território do mistério. A desvendar
silêncios, a descobrir uma cidade única que respira história e transpira amor.
Aqui, até as pedras parecem ter memória, e as paredes escutaram mais juras do
que muitos corações humanos.
Não
há como não te apaixonares por Veneza. Recortada por canais e costurada por
mais de quatrocentas pontes, a cidade é um poema arquitetónico que se lê
devagar. Igrejas, praças e fachadas surgem como obras de arte inesperadas, e de
repente tens um coraçãozinho em cada olho - sem aviso prévio, sem hipótese de
defesa.
O
amor está em todo o lado: no ar morno da noite, no reflexo do luar sobre a
água, nas mãos entrelaçadas dos casais que caminham em silêncio, sorrindo com o
olhar, à espera daquele instante mágico em que um deles finalmente se revela.
As gôndolas, vaidosas e elegantes, deslizam pelos canais como pensamentos
proibidos, criando um cenário digno de uma pintura italiana… daquelas que
parecem respirar.
Mas
Veneza não vive só de beleza e romantismo - não, seria simples demais. Os museus
guardam riquezas artísticas que explicam tudo: como esta cidade se transformou
num museu a céu aberto, onde cada passo é uma aula de história e cada olhar,
uma emoção inesperada.
Ainda
mal cheguei e já me sinto parte daqui. Talvez porque o mundo tenha mudado, mas
Veneza não. Ou talvez porque Veneza muda quem chega - discretamente, como só
ela sabe fazer.
https://www.youtube.com/watch?v=vqyhy81RD7k&list=RDvqyhy81RD7k&start_radio=1
Mais
tarde, caminhei até ao hotel. Subi ao quarto em silêncio, abri a janela e
fiquei ali, rendido ao espetáculo noturno dos canais. A água murmurava
histórias antigas, as luzes dançavam, cúmplices. Coloquei os fones, escolhi uma
música romântica - não fosse esta a cidade do amor - e deixei-me adormecer com
um sorriso leve, quase sarcástico, certo de uma coisa:
Veneza
ainda tinha muito mais para me oferecer. E eu… estava perigosamente disposto a
aceitar.
Diário
de uma viagem – 98 dia – 01/10/2025










Comentários
Enviar um comentário