Viajar não é apenas mudar de lugar - é reconhecer, no outro, um espelho inesperado do que somos.
O
sono pesado da noite anterior tinha-me embalado num esquecimento profundo, e
quando os primeiros raios de sol da manhã de bateram suavemente na janela,
espreitando por entre as cortinas, a realidade pareceu um sonho a ser desfeito.
A luz dourada dançava no quarto, desenhando padrões quentes nas paredes, e um
despertar lento e preguiçoso tomou conta de mim.
Curiosamente,
sentia-me mais cansado do que quando me deitei, como se o descanso da noite
tivesse apenas realçado o peso do cansaço acumulado. O corpo pedia mais tempo
enrolado nos lençóis macios, um convite tentador ao ócio matinal. Mas querer é
poder, e a viagem aguardada até Belgrado falou mais alto. Não havia tempo para
luxos de ficar na cama; o mundo lá fora esperava. Com um suspiro de antecipação
e um pouco de relutância, saltei para fora da cama, despertei os sentidos e
dirigi-me ao duche. A água fresca, como um beijo matinal, revigorou-me
instantaneamente.
Ao
sair do quarto, fui guiado pelo aroma inebriante que subia do andar de baixo: o
cheiro de café forte, robusto e convidativo, a flertar descaradamente com o
perfume doce e reconfortante do pão quente acabado de sair do forno, onde a
manteiga já se derretia com entusiasmo. Era o pequeno-almoço perfeito, esse
ritual aparentemente banal que, em viagem, ganha estatuto de prólogo épico. O
início de um novo capítulo. Estava pronto para o dia, pronto para a estrada,
orgulhoso por descobrir o mundo como quem descobre a si mesmo - com migalhas na
mesa, cafeína no sangue e a alma acordada antes do corpo.
Foi
nesse preciso instante, como se o guião estivesse bem ensaiado, que o telefone
vibrou. Zora. A minha guia do dia anterior por Cacak, cúmplice improvisada de
ruas, histórias e silêncios: “Já saíste para Belgrado?” Respondi que estava
ainda a fazer o que mais gosto. “Queres fazer-me companhia?” - arrisquei, meio
a brincar, meio a sério.
Ela
riu do outro lado da linha - aquele riso que carrega distância. Disse que sim, mas
confessou que também queria aproveitar a boleia até Belgrado. Ia visitar o
filho e os pais. Disse-o com naturalidade, mas havia ali qualquer coisa de
fundo, uma ausência antiga, quase um destino imposto, como se a vida lhe
tivesse ensinado cedo demais a arte de partir.
Fiquei
maravilhado com a ideia. Não pela logística - isso é sempre secundário - mas
pelo que ela representava: amizade pura, espontânea, dessas que nascem na
estrada e não pedem explicações. Zora carregava no corpo a saudade de quem ama
à distância, de quem vive entre cidades como quem vive entre estações do ano.
Não havia drama, apenas uma melancolia serena, madura, que torna as pessoas
mais verdadeiras. Era bonito. Era humano.
Quando
entrou na sala de pequenos-almoços, o mundo pareceu ajustar o foco. Vestia-se
de forma simples e desportiva, como quem prefere o conforto da verdade ao
disfarce da elegância. Calças de ganga gastas pelo tempo - e pelas histórias -
ténis prontos para muitos quilómetros ainda, e o cabelo preso com uma fita
azul, exatamente da cor dos seus olhos: claros, atentos, cheios de estrada.
Havia nela uma energia discreta, quase cinematográfica, como uma personagem
secundária que afinal rouba o filme inteiro. Sentou-se à mesa com um sorriso
cúmplice, desses que dizem “a vida não é fácil, mas hoje é nossa”. E ali, entre
café forte, pão quente e planos improvisados, percebi que viajar não é apenas
mudar de lugar - é reconhecer, no outro, um espelho inesperado do que somos
quando nos permitimos estar presentes.
Após
o pequeno-almoço, com o sol ainda a bocejar por entre as cortinas do dia, eu e
Zora partimos em direção a Belgrado. Eu, com a curiosidade inquieta de quem
coleciona cidades como quem coleciona cicatrizes felizes; ela, com o coração a
acelerar ao ritmo da saudade - do filho, dos pais, das raízes que nunca se
arrancam por completo. A distância era curta, cerca de 160 quilómetros, duas
horas que prometiam ser apenas um detalhe… e acabaram por se tornar um pequeno
capítulo de cinema.
Desta
vez foi Zora quem escolheu a música. Nada de estradas épicas ou refrões
dramáticos - optou por uma melodia calma, dessas que não competem com a
conversa, antes a abraçam. A estrada desenrolava-se à nossa frente como uma
fita de celuloide antigo: campos verdes a perder de vista, colinas que
ondulavam com preguiça, casas discretas de telhados gastos pelo tempo, cada uma
guardando segredos que jamais confessariam a um viajante apressado.
Havia
algo nela… Zora parecia viajar no tempo enquanto o carro avançava no presente.
Falava e sorria como se aquele momento não fosse um reencontro improvável, mas
a continuação lógica de um encontro casual de uma outra viagem, preparado com
minúcia por um destino irónico e ligeiramente sarcástico - daqueles que adora
surpreender-nos quando baixamos a guarda.
Contou-me
do gosto pelo hipismo e do filho, um bom aluno, orgulho silencioso que lhe
iluminava o olhar. Falou dos pais, pilares firmes da sua vida, dessas colunas
invisíveis que sustentam tudo mesmo quando não as vemos. Confessou-me um amor malsucedido,
com um humor fino, quase provocador, como quem já chorou o suficiente e agora
prefere rir da própria vulnerabilidade. Havia sensualidade na forma como falava
- não no que dizia, mas no ritmo, nas pausas, no olhar que às vezes se perdia
pela janela como se o passado estivesse estacionado algures à beira da estrada.
Belgrado
surgiu na conversa como um personagem complexo. Uma cidade de contrastes,
antiga como poucas na Europa, tantas vezes destruída e tantas vezes
reconstruída que aprendeu a fazer da resiliência um estilo de vida. Falou-me
dos splavovi, os bares e discotecas flutuantes que transformam o Danúbio e o
Sava em palcos noturnos vibrantes, onde a cidade dança sobre a própria
história. Contou-me, com um sorriso cúmplice, que Belgrado também é conhecida
como a “cidade dos gatos” — criaturas quase míticas que, em tempos, salvaram a
cidade de uma infestação de ratos e, desde então, se tornaram parte da sua alma
urbana, independentes, sobreviventes, elegantemente indiferentes.
É
ali que repousam as cinzas de Nikola Tesla, guardadas no seu museu como um
coração elétrico ainda a pulsar ideias. Foi também a primeira cidade europeia a
ter iluminação elétrica pública - um detalhe que diz muito sobre este lugar
onde o antigo e o moderno coexistem sem pedir licença, onde a arquitetura
dialoga entre séculos e a cultura se mantém rica, orgulhosa, indomável. “Wow”,
pensei baixinho, quase com medo de quebrar o encanto. Havia tanto para
descobrir. Tanto para sentir.
Quando
finalmente chegámos a Belgrado, já era início da tarde. A luz tinha uma
tonalidade dourada, cinematográfica, como se alguém tivesse ajustado a
saturação do mundo só para nos receber. Zora, sempre um passo à frente do
improviso, já tinha planeado o nosso almoço em casa dos pais. Ao princípio
resisti – confesso que hesitei. Mas quando ela me falou daquele lar humilde,
carregado de histórias, de afetos e de uma autenticidade rara… não pude dizer
que não. Algumas portas, quando se abrem, não são apenas entradas. São
convites. E eu, orgulhoso de continuar a descobrir o mundo - e as pessoas que o
tornam memorável - estava mais do que pronto para atravessá-la.
A
casa ficava numa rua estreita de Belgrado, daquelas onde o tempo anda devagar e
os prédios parecem cochichar entre si. Pequena, simples, sem qualquer luxo
visível - e, ainda assim, cheia de brio. Havia luz. Não apenas a que entrava
pelas janelas modestas, mas a que vinha das paredes cuidadas, dos objetos gastos,
mas limpos, da dignidade silenciosa de quem nunca teve muito, mas nunca deixou
faltar o essencial. E o essencial ali era humano. Era amor. Muito amor. Um amor
que não se exibe, mas que se sente imediatamente, como um calor bom que nos
envolve sem pedir licença.
Quando
entrei, senti um brilho no olhar. Não o meu - o deles. Os pais de Zora eram um
casal discreto, moldado pelo tempo e pelo trabalho de uma vida inteira. As mãos
marcadas, os gestos contidos, a postura de quem aprendeu a não esperar nada do
mundo, mas a dar tudo aos seus. E, no entanto, havia ali um brilho invulgar nos
olhos. Um brilho que não envelhece. Um brilho de quem ama sem dramatismos e
resiste sem alardes.
O
filho, um jovem sossegado, observava mais do que falava. Tinha aquele silêncio confortável
de quem sabe ouvir - qualidade rara e perigosamente subestimada. Via-se nele a
educação transmitida pelos avós, passada de geração em geração como um
património invisível: respeito, atenção, humanidade.
Fui
recebido com um abraço. Mas não um abraço qualquer. Foi quente, fraterno,
inteiro. Daqueles que não perguntam quem és nem de onde vens. Daqueles que
dizem, sem palavras: “entra, já és dos nossos”. Confesso que ali desarmei. Com
classe, claro. Mas desarmei. Fomos todos para a cozinha - porque a cozinha é
sempre o verdadeiro coração das casas que sabem receber. O aroma das mãos que
conhecem os sabores locais já pairava no ar, misturado com risos baixos,
conversas cruzadas e aquela coreografia familiar que só existe onde o amor é
hábito e não exceção.
O
almoço foi mais do que comida. Foi partilha. Os pratos eram simples, honestos,
intensos. Cada garfada trazia histórias, cada gesto tinha intenção. O tempero
principal era a fraternidade. O acompanhamento? O prazer genuíno de receber. E
o prato forte, sem dúvida, era o amor - servido sem pressa, repetido sem culpa.
Houve
humor subtil, quase sarcástico, daqueles que nasce da intimidade e não da
ironia cruel. Houve silêncios confortáveis, olhares cúmplices, momentos que
dariam um plano-sequência perfeito num filme independente europeu com boa fotografia
e orçamento reduzido - mas alma infinita.
Saí
dali diferente. Não mais sábio, talvez, mas mais cheio. Com a certeza renovada
de que descobrir o mundo não é apenas cruzar fronteiras no mapa, mas permitir
que certas portas se abram dentro de nós. E naquela rua estreita de Belgrado,
numa casa humilde e luminosa, o mundo abriu-se um pouco mais. E eu entrei.
Depois,
Zora saiu comigo até ao hotel para deixar as minhas malas. O edifício erguia-se
nas margens do rio Sava, uma construção recente, orgulhosamente reconstruída,
como quase tudo em Belgrado. Não escondia as cicatrizes da cidade; antes,
integrava-as na arquitetura, como quem diz: sobrevivemos, e ficámos mais belos
por isso.
O
hall de entrada era amplo, luminoso, com um minimalismo elegante que não
expulsava o calor humano. A receção tinha madeira clara, linhas firmes, e um
silêncio acolhedor interrompido apenas pelo murmúrio do rio ao longe. Havia ali
uma sensação de chegada - não apenas física, mas existencial.
O
quarto era um refúgio. Conforto ímpar, tecidos macios, uma cama que prometia
descanso e excessos na mesma medida. A janela oferecia uma paisagem soberba
sobre o Sava, que escorria lento, refletindo o céu como um espelho cansado, mas
honesto. Na cabeceira da cama, uma pintura da cidade antiga - Belgrado várias vezes
destruída e reconstruída - dominava o espaço. Sobre ela, uma frase em ouro
velho brilhava com discrição e peso: “A resiliência é a nossa sabedoria.” Não
era decoração. Era manifesto. Uma verdade profunda, lembrando que a verdadeira
sabedoria não nasce apenas do conhecimento, mas da capacidade de suportar,
cair, levantar-se e ainda assim continuar a amar o mundo.
Tomei
um banho rápido, quase ritualístico, como quem lava o pó das estradas e se
prepara para outra versão de si mesmo. Não queria fazer Zora esperar. Quando
desci, diferente no traje, mais leve, mais rejuvenescido, ela entrelaçou o
braço no meu com uma intimidade natural e disse, quase num sussurro cúmplice: “Hoje
vamos viver a noite. Espero-te pronto para entrares comigo no mundo maravilhoso
da noite de Belgrado.” Não foi um convite. Foi uma promessa.
Percorremos
a pé várias ruas. A conversa fluía como a água do rio: sem esforço, sem pressa,
contornando pedras, refletindo luzes. Belgrado começava a acender-se à nossa
volta, colorida, imperfeita, sensual, misteriosa. E eu caminhava orgulhoso -
não por estar ali, mas por ainda ter dentro de mim essa fome bonita de
descobrir o mundo. E de me deixar descobrir por ele.
A
noite em Belgrado tem um pulsar diferente, uma eletricidade que se espalha
desde as margens do Danúbio e do Sava até às ruas de paralelepípedos do bairro
de Skadarlija. Era um sonho, ou talvez a realidade mais vívida que alguma vez
experienciei.
Chegámos
a um terraço com vista para a fortaleza de Kalemegdan. As muralhas antigas
erguiam-se em silêncio, guardiãs de séculos e segredos, enquanto o bar nos
acolhia com uma intimidade rara: mesas pequenas, velas trémulas a desenhar
sombras quentes, música serena a escorrer pelo ar como um sussurro cúmplice. O
serviço era atento, quase invisível, como se soubesse que aquela noite
precisava de espaço para respirar. Conversámos sem pressa, rimos baixo, bebemos
duas cervejas sérvias bem geladas - talvez mais, mas boas - e cada gole parecia
selar um instante que não queria ser esquecido.
Pouco
depois, perguntou-nos se estávamos sem carro. Ao confirmarmos, aconselhou-nos a
chamar um táxi - seria mais seguro. Assim fizemos. A viagem foi silenciosa,
densa de pensamentos. Deixei Zora à porta da casa dos pais, com um olhar que
dizia mais do que qualquer promessa, e segui para o hotel, acompanhado por uma
estranha mistura de gratidão e incerteza.
Nem
todas as noites terminam como sonhámos, mas esta podia ter sido muito pior - e
valeu, inteiramente, por tudo o que nos ofereceu de bom. Já no quarto, como
sempre, abri a mala e espreitei a minha concha, ainda a brilhar, como se
guardasse o eco do mar e da noite.
https://www.youtube.com/watch?v=Yam5uK6e-bQ&list=PLD7541336B0EF26A9&index=9
Coloquei
os fones, deixei-me embalar por aquela música suave e adormeci. O dia seguinte
prometia ser intenso, cheio de descobertas por Belgrado, e eu precisava acordar
rejuvenescido, pronto para mais uma cena deste filme imprevisível que era a
viagem.
Diário
de uma viagem – 88 dia – 21/09/2025







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