Uma carta onde cada frase tropeçava apaixonada na seguinte…
Acordar
em Pristina foi como despertar dentro de um suspiro luminoso. A cidade parecia
respirar comigo, num compasso cúmplice, secreto, ligeiramente malandro - como
se tivesse passado a noite inteira à minha espera. A luz entrou devagar,
insinuante, pousando na minha pele com aquela suavidade atrevida que quase faz
cócegas: “Anda, levanta-te. O mundo hoje acordou bonito só para ti. Tens
Montenegro à tua espera.”
Ainda
carregava no corpo o rasto quente do sonho que me visitara: um amor inventado
com precisão de artista, desenhado à mão com tinta vermelha e desejo. Uma
paixão que me escapou dos dedos para uma carta longa e indisciplinada, onde
cada frase tropeçava apaixonada na seguinte. Depois enrolei a carta, beijei-a -
porque há rituais que valem a pena - e lancei-a ao mar em Constança, dentro de
uma garrafa teimosa. Tenho a mania de acreditar que os amores impossíveis
viajam mais longe. E, por mais absurdo que pareça, encontram sempre o destino
certo.
Por
um tempo caminhei dentro da memória do sonho, e cada passo devolvia um sabor
doce, quase sensual: a certeza serena de que existe alguém, algures, perdido ou
encontrado, que pertence àquele sonho - e quem sabe, ao meu acordar.
Abri
a janela. Pristina estendia-se diante de mim como um cenário de cinema: cores
saturadas, movimento lento, e uma música invisível que só o coração apaixonado
consegue ouvir. Um banho gelado devolveu-me ao corpo. O aroma do café forte e
do pão torrado - que parecia flertar descaradamente com a manteiga derretida -
arrastou-me até à sala de pequenos-almoços.
Quando
entrei na sala iluminada, parei como quem tropeça na própria emoção. Uma mesa
estava preparada com cuidado quase cerimonial: toalha impecável, flores
silvestres, detalhes escolhidos como quem conhece segredos que nunca revelei. E
o meu nome escrito num cartão, com caligrafia redonda e encantadora.
Rosafa
- a rececionista ruiva de cabelos longos, que no dia anterior me guiara pela
Garganta de Rugova com passos firmes e sorriso tímido - aproximou-se devagar,
mais devagar do que precisava, só para aumentar a minha curiosidade.
Disse,
em voz baixinha, quase a sussurrar contra o meu ouvido: “Preparei-te isto para
que não te esqueças de mim quando eu for a Portugal.” A minha resposta foi um
abraço quente, desses que fecham os olhos e dizem mais que palavras, e uma promessa
murmurada ao seu ouvido: “Serás minha convidada no Agrinho Suites & Spa
Gerês.” Depois, num tom mais alto, porque há partilhas que merecem o mundo por
testemunha: “Vamos caminhar juntos por lugares também paradisíacos no Parque
Nacional da Peneda-Gerês - mágicos, enigmáticos, rodeados por montanhas
imponentes, vales bucólicos, cascatas absurdamente perfeitas, lagoas de sonho,
matas encantadas e aldeias que parecem sobreviver fora do tempo.”
Tomámos
o pequeno-almoço com a calma de quem saboreia o instante. Quando saí para o
carro, Pristina ficava para trás - e Rosafa, a sérvia que me ficou no coração,
acenava-me como quem diz até já.
A
estrada até Kolasin abriu-se diante de mim como uma pintura mutante: montanhas
onduladas, florestas densas como labirintos, nuvens que brincavam de sombras no
asfalto. A música no carro dançava, elevando o meu astral como se alguém lhe
tivesse aumentado o brilho. Montenegro chamava por mim.
E
quanto mais avançava, mais o país se revelava: o primeiro Estado ecológico do
mundo, terra do vertiginoso canyon do rio Tara, casa de uma das últimas
florestas virgens da Europa… e povo habitado por gigantes - homens com média de
1,83. Ui, pensei. Hoje serei hobbit.
Quando
cheguei a Kolasin, já depois de atravessar a fronteira, parei para recuperar
forças. A cidade, pitoresca e serena, parecia um postal enviado por um inverno
que ainda não tinha pressa. A sua história - muda e resistente, destruída e reconstruída
vinte e três vezes - dava-lhe um charme humano, demasiado humano.
O
restaurante no centro da cidade cheirava a madeira quente e especiarias. O ar
tinha aquele perfume de lareira recente e conversa feliz. Como não havia mesas
livres, o staff - simpático como só quem vive perto de montanhas sabe ser -
juntou-me a um casal de espanhóis. Juan e Alba, de Barcelona. Pessoas que se
reconhecem em segundos, como velhos amigos reencarnados.
Comi
carne tenra, acompanhada de cerveja fresca, que me piscou o olho antes de
chegar aos lábios. De sobremesa, o extraordinário queijo montenegrino,
envelhecido e orgulhoso, servido com compota de abóbora - uma combinação tão
ousada que quase parecia proibida. Conversámos. Rimos. E descobrimos que
seguíamos todos para Budva, embora por caminhos e hospedagens diferentes. O
destino adora coincidências bem-humoradas.
Por
uns instantes, pensei ficar ali mesmo, descarregar as malas num resort de esqui
e render-me ao apelo da natureza. Mas o meu roteiro chamava-me. Troquei
contactos, despedimo-nos com abraços espontâneos, e segui viagem. Foi uma das
viagens mais belas da minha vida. A estrada serpenteava por entre vales verdes,
rios translúcidos que pareciam inventados por algum deus distraído, encostas
majestosas, bosques que respiravam como seres vivos. Montenegro, percebi, não é
apenas um país: é um ponto de exclamação da natureza. Um excesso. Uma bênção.
Cheguei
a Budva quando o céu já estava pintado de estrelas. Uma delas brilhava mais
forte. Pensei na minha concha agasalhada dentro da mala.
O
Dukley Hotel & Resort surgiu diante de mim como um refúgio suspenso entre o
azul do Adriático e o verde que quase abraça o mar. Ao entrar no hall, o
mármore refletiu a luz dos lustres como se estivesse a piscar-me o olho.
Elegância, mas daquela que não precisa de mostrar - basta existir.
Atrás
da receção, um sorriso aberto esperava-me. Ivana: morena, cabelo ondulado,
olhos castanho-terra. Um acolhimento que parecia um abraço invisível. A troca
de olhares bastou para dissipar a fadiga da viagem. O quarto? Respirei fundo
quando entrei. Design contemporâneo, varanda para o mar, a luz a entrar como
uma bênção. “Perfeito.” Disse baixinho, para não estragar.
Saí
para jantar. Comi algo leve, mais por dever do que por fome - o corpo já pedia
cama. Uma chamada de Juan e Alba convidou-me para um serão animado, mas tive de
recusar. A energia estava no vermelho. Fica para amanhã, prometi.
Ao
sair do restaurante, com o murmúrio distante do mar a dissolver-se nas ruas
estreitas, fui surpreendido por uma presença improvável: uma senhora de idade
indefinível, quase transparente no seu silêncio, como se tivesse emergido de
uma dobra do tempo. Não lhe perguntei a idade - talvez porque, no instante em
que a vi, intuí que os seus anos não se contavam, pesavam. E pesavam muito.
Aproximou-se
com suavidade, oferecendo-se para ler a minha mão. O gesto, aparentemente
simples, parecia carregado de um propósito antigo. Quando os seus dedos frágeis
tocaram a minha pele, algo mudou no ar - uma espécie de claridade suspensa,
como se o mundo nos observasse sem respirar.
Foi
então que ela murmurou, com a serenidade de quem lê destinos como quem lê
poemas: “A tua carta de amor lançada ao mar em Constança encontrará o
destinatário.” As palavras ficaram a vibrar entre nós, como se tivessem sido
arrancadas a uma profecia esquecida. Sem me dar tempo para perguntar como
sabia, voltou a fixar a minha mão - e depois os meus olhos. Nesse olhar
profundo havia algo de enigmático e triste, a melancolia de quem já viu
demasiado, a lucidez de quem conhece os caminhos que o tempo e o acaso
percorrem em segredo.
Quase
num sussurro, disse: “as tuas linhas são harmoniosas. Indicam saúde estável,
uma mente clara e emoções equilibradas… repletas de paciência e resiliência.”
As suas palavras caíram sobre mim como uma bênção antiga. Instintivamente abri
a bolsa para agradecê-la. Mas no breve instante em que desviei o olhar… ela
desapareceu. Sem passos. Sem sombra. Sem rasto.
A
rua permaneceu exatamente como antes - e, ao mesmo tempo, totalmente diferente.
Como se aquele encontro não tivesse acontecido… ou como se tivesse acontecido
num lugar onde o tempo não deixa pegadas.
Budva,
porém, dançava ao meu redor: ruelas estreitas, música de jazz escapando de
portas entreabertas, o mar a bater na marina como um coração descompassado.
Imaginei-me a caminhar por ali de mão dada com alguém que viaja comigo dentro
da concha, sentando-nos num terraço a beber vinho rubi, enquanto as luzes da
cidade tremeluzem na água escura. Um romance simples, sincero, sem artifícios.
https://www.youtube.com/watch?v=qekMnLAfh14&list=RDMM&start_radio=1&rv=rwNRFxqjEnI
Regressei
ao hotel. Nem reparei na receção. Abri a porta do quarto e encontrei o
retângulo perfeito chamado cama. Coloquei os fones. Deixei a música apagar o
mundo. E adormeci como quem cai dentro do mar.
Diário
de uma viagem – 84 dia – 17/09/2025




As palavras são um sopro de vida que se espalha pelo tempo e pelo espaço, pintando paisagens que brilham em cores de sonho e em aromas que acariciam a alma. Cada passo em Pristina, cada estrada ondulante de Montenegro, cada gesto, cada olhar descrito, ressoa como uma música invisível que dança entre o vento, o sol e o mar. É como se o mundo inteiro respirasse em compasso com cada frase, revelando a beleza de instantes que se eternizam na memória. Maurício, a melodia que sussurrou neste poema em prosa transforma-se no mais sublime hino à liberdade de Verdi, e é uma dádiva poder ler-te.
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