Há momentos que só existem uma vez!
Despertei em Budva ainda com o eco quente e veludoso
das palavras de Jelena - a professora de História, a montenegrina de voz que
parecia desenhada por um verão eterno. A memória dela segredando-me ao ouvido
voltou como um sussurro proibido: “Gosto de falar contigo. Porque vais embora
amanhã? Podias ficar mais uns dias… Budva tem muito mais para te mostrar. Com a
tua mão colada à minha, poderás ver o outro lado da cidade.”
Acordei com aquela sensação contraditória de quem
pertence a dois mundos ao mesmo tempo. Meio desorientado, quase num reflexo
ancestral, abri a mala para confirmar que a minha concha continuava ali -
intacta, brilhante, pulsante, como um pequeno coração marinho. Como se
murmurasse: “Não te desvies do teu/nosso caminho. Temos muita estrada para
andar.”
Fiquei suspenso no ar. Só um banho frio, aromado,
quase espiritual - como se tivesse caído num spa secreto - me devolveu o peso
do corpo. Vesti-me lentamente, como quem sobe ao palco, e caminhei para a sala
de pequenos-almoços com a sensação de desfilar numa passadeira da fama
improvisada pela vida.
Quando entrei, lá estava ela. Jelena. A mulher que
parecia luz líquida naquela sala ampla, luminosa, decorada com bandejas de
vitaminas coloridas e um aroma irresistível de café forte e pão torrado. O pão
parecia mesmo flertar descaradamente com a manteiga - tão despudoradamente que
quase me ri sozinho.
“Vim fazer-te companhia,” disse-me. “Ontem o teu
olhar expressivo já tinha respondido pela tua decisão.” Abraçou-me. Um abraço
quente, profundo, que se espalhou pelo meu corpo como uma massagem de
descompressão, desfazendo aquele nó de despedida que ninguém quer admitir.
Há momentos que só existem uma vez - como relâmpagos
que iluminam tudo por um segundo, antes de regressarem ao silêncio. São
preciosos porque são fugazes. E por isso mesmo, dentro de nós, nasce sempre
aquela esperança teimosa: que o destino, caprichoso como um gato selvagem, os
volte a cruzar.
Conversámos ali, com fluidez serena, num diálogo leve
e íntimo ao mesmo tempo. Falámos da cidade, dos seus segredos, das histórias
escondidas nas pedras antigas. Falámos do nada e do tudo, enquanto a sala
brilhava à nossa volta como se fosse cenário de cinema. Era como se Budva
inteira segurasse a respiração para não nos interromper.
A despedida não foi apressada. Nem triste. Foi um até
já de quem secretamente acredita nos reencontros. Quando entrei no carro, vi-a
afastar-se pelo retrovisor - uma pintura viva dissolvendo-se em luz. Respirei
fundo, coloquei música capaz de levantar o astral de um morto e segui para
norte: rumo a Cacak, na Sérvia.
Eu, que já me sentia meio imperador do conhecimento
dos povos. E fazia sentido: afinal, 18 imperadores romanos tinham nascido no
território da atual Sérvia. Constantino, o Grande incluído. Se isto não é
currículo, não sei o que é.
A estrada serpenteava pela paisagem montenegrina como
um poema em movimento. O verde era tão intenso que parecia pintado com tinta
fresca. As montanhas elevavam-se majestosas, vestidas de sombra e luz. Rios
deslizavam com a calma de quem tem todo o tempo do mundo.
Ao cruzar a fronteira, a natureza parecia mudar de
humor: mais densa, mais vasta, mais profunda. Um mosaico de verdes, castanhos e
dourados revelava-se a cada curva. O sol brincava com as folhagens, criando
cintilações que me seguiam como aplausos silenciosos.
Parei em Prijepolje, pequena cidade com
aproximadamente 10 mil habitantes, mas dona de um orgulho gigantesco. Aqui vive
a imagem do Anjo Branco, do Mosteiro de Mileseva - um dos primeiros símbolos
enviados para o espaço, um postal de paz enviado ao infinito. O mosteiro, do
século XIII, respira espiritualidade antiga: foi o repouso inicial de São Sava,
o santo mais venerado da Sérvia.
Prijepolje é uma tapeçaria multiétnica, onde cristãos
e muçulmanos convivem há séculos. É cidade para sentir, não para passar apenas
- mas a estrada chamava-me. Almocei num restaurante simpático, com madeira
escura, toalhas impecáveis e aquele acolhimento que não se finge. O staff
sérvio foi caloroso, direto, brincalhão - como quem te recebe na própria casa. Comi
uma carne grelhada suculenta que quase se desfez em poesia no prato. Acompanhei
com um copo de vinho tinto sérvio - forte, profundo, com alma. A Sérvia sabe
fazer vinhos como quem sabe contar histórias.
As mulheres da cidade? Sim, bonitas. Muito bonitas. Olhos
claros, cabelos loiros ou castanhos, postura firme, feminilidade natural - não
havia como não reparar. Depois caminhei um pouco para sentir o pulso da cidade,
o ritmo das suas gentes, o calor discreto do seu quotidiano.
A Sérvia não faz parte da União Europeia, mas é um
país candidato oficial desde 2012 e tem negociações de adesão em curso desde
2014, sendo um dos países dos Balcãs Ocidentais com mais potencial à adesão
plena, embora o processo enfrente alguns desafios.
E voltei à estrada. A viagem continuou por vales
extensos, montanhas que tocavam o céu e estradas que pareciam capítulos de um
romance épico. Árvores agitavam-se como se acenassem despedidas. O ar mudava de
perfume a cada quilómetro - ora pinho, ora terra molhada, ora fragrância suave
de flores silvestres.
No meio do percurso, o telemóvel tocou. Era Zora, uma
amiga de longa data que me esperava em Cacak. A Zora dos dias leves num
cruzeiro distante. A Zora das conversas que nunca se perderam. “Então, viajante
do mundo, estás vivo? Ainda estás em Prijepolje? Eu avisei-te que as mulheres
sérvias são uma tentação!” — riu com aquele humor que desarma e aconchega. “Quando
chegas? Ah, tirei uns dias de folga. Quero mostrar-te a cidade. Serei tua guia…
e tua guarda-costas.”
Cheguei a CaCak quando a noite já vestia o céu com um
manto de estrelas douradas. O hotel, junto ao rio Zapadna Morava, parecia ter
sido retirado de uma cena romântica com orquestra incluída. Entrei no hall e lá
estava ela. Zora. Como sempre a guardei
na memória: camisa branca, jeans gastos, ténis brancos. A tatuagem no braço
dizendo “I'm love” - verdadeira como ela. Corpo com curvas subtis, contorno
elegante. Olhos azul-mar profundo, daqueles que guardam segredos e tempestades.
Cabelo ruivo que parecia acender a sala.
Voz serena, quente, delicada - a voz de quem já ouviu
demasiadas dores no hospital onde trabalha como psicóloga de crianças com
cancro. Mal me viu, abriu um sorriso que me devolveu uma parte do mundo. “Então,
surpreso? Cheguei mais cedo. Não fosses raptado antes de eu aqui estar. Aqui
não confio nas mulheres!” — e riu.
Fiz o check-in, subi ao quarto, duche rápido, roupa
fresca, e desci. Zora observou-me como quem lê um livro aberto. “Vamos a um
lugar sossegado. Quero alimentar-te bem - e dar-te um bom vinho sérvio.” piscou
o olho. Fomos até um restaurante que era também um museu - literalmente um
museu gastronómico. Salas com artefactos antigos, música sinfónica a tocar
baixinho, iluminação morna. Um cenário perfeito para conversas que se querem
longas e olhares que se querem intensos.
Zora falou-me de Cacak, uma pequena cidade com quase
70.000 habitantes, rica em história, famosa por sua arquitetura original
preservada (barroco, classicismo), ruínas de termas romanas no centro, a
figueira mais alta dos Balcãs, e dos spas termais como Gornja Trepca e Ovcar
Spa, além de abrigar a renomada galeria "Nadezda Petrovic", com uma
mistura de antiguidade, cultura e natureza.
Depois, mudou de assunto: “Então, conta-me tudo.
Deixaste o teu amor em Portugal a chorar?” Sorri. “Não. Veio comigo” disse. “Veio
contigo? Explica-me isso.” Fiz silêncio. Um silêncio cheio. Profundo. Daqueles
que dão mais respostas do que as palavras. “É uma história longa. Melhor falar
de nós.” E assim fizemos. Conversámos com palavras, mas também com olhares que
se tocavam, com mãos que se aproximavam devagar. Às vezes uma ponta de mistério
torna tudo mais sedutor - e nós sabíamos disso. O jantar parecia dança: ritmado,
insinuante, envolvente. A sobremesa… divina. O vinho ajudou. As mãos
tocaram-se. As vozes ficaram mais baixas. A noite ganhou textura.
Fomos caminhar pela marginal do rio. Zora contou-me
do divórcio, desgovernado como barco sem leme. Do filho que ficara com os avós
em Belgrado. Da fuga para Cacak. Da procura de paz. “Encontraste-a?”,
perguntei. “Sim… estou a reencontrar-me lentamente. Também preciso de viajar e Portugal
será o meu primeiro destino.” - sorriu.
A ideia ficou a brilhar dentro de mim. Despedi-me
dela já tarde. Voltei ao hotel. No quarto, senti um aroma suave, misterioso.
Abri a mala. A concha estava lá. Brilhante, como uma promessa de uma noite
mágica. Quase ouvi uma voz: “Se eu quiser…” Fechei a mala devagar, como quem
respeita um segredo.
https://www.youtube.com/watch?v=xqvUD-_tlUs&list=RDxqvUD-_tlUs&start_radio=1
Coloquei os fones. Deixei a música abraçar-me. E a
noite terminou num mistério macio, com uma sensualidade que não precisava de se
revelar para ser verdadeira.
Diário de uma viagem – 86 dia – 19/09/2025







Experiencias únicas! fantástico.
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ResponderEliminarMaurício, ler-te é mergulhar numa epopeia de sentimentos.
A viagem pelos Balcãs é inspiradora, mas a magia acontece em Cacak, onde o destino parou para te esperar. A chegada não é só um ponto no mapa; é uma convergência. A pessoa que te aguarda é pura luz,
O encontro é o palco onde as vossas histórias se ligam novamente, com uma fluidez serena. A concha, no final, é a guardiã do segredo que paira no ar.
O fecho, em mistério macio, e a melodia de "Woman in Love", dão a esta etapa uma profundidade emocional rara.
Que momento sublime. Espero a próxima página desta viagem pelo mundo. Maurício