E tu? Sempre guia… ou às vezes também te deixas guiar?
A
luz da manhã espreita como quem tem segredos para contar. Insinua-se pelas
cortinas opacas, eletronicamente obedientes, derramando um brilho morno sobre a
suíte contemporânea que repousa no coração vibrante de Pristina. É quase
indecente a forma como acaricia cada superfície - o metal escovado, o mármore
polido, o cristal minimalista - como se a aurora quisesse reivindicar o quarto
para si antes que eu o ocupasse plenamente.
Despertar
aqui não é simplesmente acordar: é assistir ao renascimento lento do mundo.
Envolvido em lençóis de algodão egípcio - frescos como promessas sussurradas -
e acolhido por um colchão que me segura sem me prender, a transição entre o
sono e a vigília acontece com a mesma delicadeza de um beijo roubado. Há
silêncio. Um silêncio tão perfeito que até parece ter sido desenhado por um
arquiteto obcecado pela paz. Lá fora, Pristina palpita, mas aqui dentro o tempo
repousa, dócil.
Com
um gesto preguiçoso no tablet da mesa de cabeceira, as cortinas abrem-se e
deixam revelar a sinfonia urbana da capital kosovar a despertar. Edifícios
modernos, praças cheias de vida e, ao longe, as colinas ondulantes que parecem
velar a cidade como guardiãs antigas. O perfume delicioso do café acabado de
fazer infiltra-se no ar. Traz consigo a lembrança do pão quente, das lascas
douradas de manteiga a renderem-se ao calor. A promessa do pequeno-almoço
torna-se tão poética que quase dá vontade de o aplaudir.
O
duche de efeito chuva, no banheiro de mármore, devolve-me ao corpo. É uma
catarata doméstica, íntima, luxuosa, que desperta músculos, humor e alguma
vaidade. As amenidades de spa - discretamente perfumadas - fazem-me sentir que
sim, talvez o paraíso tenha sido inspirado numa casa de banho como esta.
Descer
para a sala de pequenos-almoços é como deslizar para dentro de um filme europeu
meticulosamente fotografado. O design é minimalista, mas indulgente; linhas limpas,
cores neutras, texturas nobres. Tudo convida a ficar um pouco mais. Mas
Pristina chama. O hotel, um refúgio urbano, parece sorrir-me silenciosamente,
como quem diz: vai, descobre. O mundo é teu.
Na
receção, Rosafa – era assim que lia no crachá - oferece-me um sorriso fluido,
cheio de um calor natural. Com voz luminosa, aconselha-me a incluir na minha
visita uma caminhada organizada pelo hotel à Garganta de Rugova. O nome soa a
aventura, a ecoar entre pedras antigas. Ela explica: fica perto da cidade Peja,
no norte do Kosovo, um desfiladeiro profundo e majestoso, um dos maiores da
Europa. A viagem… cerca de 1h30. Um programa completo, com queda de água,
cavernas e uma visita final à cidade de Peja.
Não
houve tempo para pensar. O autocarro esperava, a mochila já estava às costas e…
entrei. Surpresa das surpresas: os guias eram a própria Rosafa - desta vez em
jeans e t-shirt branca, simples e radiante - e Uke, um jovem albanês de
simpatia desarmante, com um inglês impecável e um espanhol cheio de ritmo. Éramos
sete turistas. Sete almas prontas para a mesma aventura.
Na
viagem para a Garganta de Rugova, a estrada serpenteava por vales e colinas
enquanto o autocarro, com o ar-condicionado temperado e uma playlist
inesperadamente boa, nos conduzia ao norte. O humor instalou-se logo nos
primeiros quilómetros. Uke, com uma energia contagiante, contava histórias
locais com uma mistura de orgulho e ironia leve que fazia todos rir. Rosafa,
por sua vez, tinha uma forma suave de falar, como se cada palavra fosse um gesto
de carinho que ela oferecia à paisagem.
E
a natureza… ah, a natureza! Tornava-se cada vez mais dramática, mais selvagem.
Os penhascos da Garganta de Rugova erguiam-se como catedrais de pedra talhadas
pela eternidade. O rio serpenteava lá em baixo, cintilante, atrevido. A luz do
sol, ao bater nas paredes do desfiladeiro, fazia dançar reflexos dourados que
pareciam pequenos espíritos guardiões.
Quando
iniciamos a caminhada foi incrível. Todos os caminhos eram palco de uma
maravilhosa aventura que nos lavava à cachoeira Drin Blanc. O dia começou com
céu limpo, o sol a dourar a paisagem e aquele silêncio da montanha que só a
natureza sabe oferecer.
Desde
os primeiros passos, o entusiasmo era palpável. Risos, curiosidade e aquele
espírito leve que só os verdadeiros caminhantes carregam no olhar. Entre montes
e vales, fomos atravessando trilhos de pedra, ouvindo a melodia dos pássaros e
o som suave da água a correr. Lagoas, espelhadas sob o sol, pareciam saídas de
um sonho - calmas, cristalinas, guardadas pelo silêncio sagrado da serra.
Cada
paragem foi um momento único, foi mais do que um convívio, foi uma celebração
da natureza, um hino à nossa amizade e uma partilha: histórias em língua
diferente, gargalhadas universais, fotos tiradas com alma e até um mergulho
corajoso nas águas geladas.
Enquanto
todos caminhavam juntos, partilhando garrafas de água, piadas cúmplices e
fotografias emolduradas pelo verde profundo, Rosafa, a guia, uma Sérvia,
destacava-se, não pela roupa - simples, prática - mas pelo brilho curioso no
olhar e pela forma como os passos dela encontravam sempre os meus, como
querendo tambem saber de Portugal.
Ela
caminhava com elegância e firmeza pelos trilhos irregulares da serra. Ruiva, de
cabelos longos, com roupa que se misturava com os tons do outono, balançava ao
ritmo do vento da montanha, refletindo tons de cobre sob o sol da manhã, como a
serra tivesse acendido uma fogueira só para ela.
Mas
o mais arrebatador era o olhar. Um verde profundo, quase dourado, onde se
misturavam curiosidade, inteligência e uma pitada provocante de mistério. Ela
não se limitava a mostrar, ela explorava com os olhos. Falava de tudo: das
pedras antigas, das plantas selvagens, das histórias do povo.
Era
sensual sem esforço. Não pelo que mostrava, mas pela forma como estava
presente. Atenta, instigante, com um charme natural que deixava no ar a
sensação de que tudo à volta dela era um pouco mais vivo.
“As
montanhas no teu país também têm alma, verdade?” perguntou-me, com um sorriso
no canto da boca. Ela queria saber mais de Portugal. Das serras, das cidades,
mas também de mim. E eu respondi “E tu? Sempre guia… ou às vezes também te
deixas guiar?” — disse-lhe, rindo, com um olhar meio inocente.
A
caminhada foi uma mistura de surpresa, riso e contemplação. Os nove
desconhecidos tornaram-se rapidamente cúmplices. Tirámos fotografias,
partilhámos histórias, apanhámos folhas para “recordações poéticas”, como
Rosafa brincou. Visitámos a cascata do Drin Blanc - uma cortina de água pura e
fria - e as cavernas misteriosas que cheiram a terra antiga e ecoam segredos
pré-históricos.
Quando
nos sentámos para o picnic preparado pelo hotel, parecia que estávamos numa
pintura viva. O menu: pães artesanais ainda mornos, queijos locais intensos,
azeitonas brilhantes, tomates suculentos, frango grelhado aromático e pequenos
frascos de mel de montanha. Para beber, limonada fresca com hortelã e água
mineral vinda diretamente das nascentes da região. Tudo partilhado com risos
leves e comentários espirituosos. Uke até improvisou uma pequena “competição”
de quem fazia a melhor fotografia do almoço - que ele mesmo ganhou, claro.
O
regresso foi tranquilo, embalado pela suave exaustão de um dia perfeito. Cheguei
ao hotel ao final da tarde, mas não ia desperdiçar a energia que ainda vibrava
em mim. Saí para explorar Pristina. Consegui visitar: A Biblioteca Nacional do
Kosovo - aquela arquitetura ousada e controversa, feita de cúpulas metálicas,
que parece algo entre ficção científica e arte pós-moderna. A Catedral de Madre
Teresa - branca, luminosa, ainda jovem, com uma torre sineira elegante que
recorta o céu. O Bulevar Madre Teresa - repleto de cafés, vozes e juventude,
onde o coração social da cidade bate forte. O monumento "Newborn" -
símbolo da independência, colorido e sempre reinventado.
Ah!
Se tivesse mais tempo, teria explorado: O Museu Etnográfico Emin Gjiku,
pequeno, mas riquíssimo. O bairro de Ulpiana, cheio de vida cultural. O Germia
Park, um pulmão verde onde a cidade respira. E o Mercado Velho, com os seus
aromas e texturas que contam histórias de décadas. Pristina não é uma cidade
óbvia - e talvez por isso seja tão fascinante.
Já
era tarde quando regressei, decidido a jantar ali mesmo. A sala de refeições do
hotel parecia saída de uma revista de design: luzes suaves, tons âmbar, mesas
amplas, e um staff que parecia adivinhar vontades antes de serem expressas. Fui
recebido como se regressasse de uma expedição heroica - com sorrisos e um
entusiasmo discreto
O
jantar foi acompanhado por um vinho tinto kosovar surpreendente: encorpado, com
notas de ameixa e especiarias, e um final longo que parecia uma carícia
persistente. A sobremesa… ah, a sobremesa! Uma criação original do chef: um
semifrio de iogurte de cabra com compota de figo e pistáchios torrados,
apresentado como uma pequena obra de arte. Doce na medida certa, fresco,
memorável.
Antes
de subir, ainda relaxei no bar do hotel. A música de piano - suave, como água a
escorrer por pedras - envolvia tudo numa atmosfera de filme romântico.
Ofereceram-me uma bebida leve, refrescante: um mocktail de romã, limão e um
toque de hortelã, com apenas um sussurro de álcool, quase simbólico. Perfeito
para encerrar o dia sem lhe apagar o brilho.
Quando
regressei ao quarto, senti o abraço luxuoso do espaço. Mas algo chamou a minha
atenção. Sobre a mesa, cuidadosamente colocada, estava a minha concha - aquela
que viajara comigo, guardada no fundo da mala - agora exposta com uma ternura
quase ritual. Ao seu lado, um pequeno pergaminho desbotado. A mensagem, escrita
com traços frágeis, dizia: “O amor acredita… mesmo contra todas as
probabilidades.”
Fiquei
imóvel por um momento, como quem é apanhado entre mundos. Depois fechei os
olhos e murmurei para dentro de mim: “Não quero pensar no que penso porque o
futuro pensará por mim.”
https://www.youtube.com/watch?v=TnThIGhFn5Q&list=RDTnThIGhFn5Q&start_radio=1
E
assim, embalado por esse mistério doce, deixei que a noite me reclinasse nos
seus braços com esta musica romântica.
Diário
de uma viagem – 83 dia – 16/09/2025




Ler este texto é deixar-se guiar por um dia que amanhece suave e termina envolto num daqueles mistérios que ficam na memória. Pristina acorda, a Garganta de Rugova abre-se como um segredo antigo, e cada gesto — os guias, a caminhada, o picnic. Há calor no teu olhar, uma atenção íntima ao mundo que dá profundidade ao que tocas. E, como em Saramago, cada detalhe ganha alma, como se a própria viagem falasse.
ResponderEliminarÉ sempre um prazer ler-te, Maurício.