Viajar é muito mais do que ver monumentos: é acumular pedaços de gente!

 


Despedi-me de Budapeste com o coração cheio -  duas vezes cheio, para ser preciso, porque a emoção insistia em ecoar dentro de mim como se o próprio peito tivesse virado sala de concerto. O pequeno-almoço foi um momento sagrado, quase meditativo. A sala onde me sentei parecia saída de um sonho: paredes em tons suaves entre o creme e o dourado, janelas generosas onde o sol pousava com carinho, flores frescas salpicando cor, e mesas perfeitamente arrumadas como soldados preparados para servir - só que muito mais simpáticos. O silêncio tinha textura de spa, grosso, aconchegante, capaz de abraçar pensamentos inquietos. Frutas brilhantes como joias, pães crocantes, queijos perfumados, ovos cremosos, bolos que piscavam para mim como se conspirassem com a gula, e o aroma do café - ah, o café -  aquele perfume que convence até santos a pecar pela manhã.

Para trás deixei uma amizade inesquecível, daquelas que não precisam de rótulos nem explicações secretas - e Lorena era prova viva disso.  A amizade entre um homem e uma mulher pode ser sagrada, sensual na alma e pura no coração – mentes sujas chamam-lhe promiscuidade. O destino, com o seu humor peculiar, não permitiu a despedida: ela entrava no turno da tarde, e eu partia de manhã. Mas ficou a promessa - reencontrar-nos-emos. Em Budapeste, em Lisboa, numa esquina qualquer do mundo, ou naquele território espiritual onde os verdadeiros amigos moram para sempre.

Tenho a sorte - ou o azar para os meus neurónios sociais hiperativos - de fazer amigos com facilidade. O mundo é grande, e eu trato de preenchê-lo com abraços, conversas, gargalhadas e memórias. Viajar é muito mais do que ver monumentos: é acumular pedaços de gente, aprender sotaques emocionais, alimentar o coração com histórias. Não existem fronteiras quando se viaja com alma.

Preparado para a estrada rumo a Cluj-Napoca, selecionei uma playlist com músicas capazes de amaciar qualquer canto duro do espírito. O céu estava limpo, o sol tímido, quase envergonhado - como alguém que chega cedo demais a uma festa e fica à porta a perguntar se já pode entrar. A estrada estendia-se com elegância, flanqueada por campos verdes, árvores que dançavam com o vento e aquele silêncio profundo que só os viajantes entendem. Era como flutuar - suave, tranquilo, romântico. Pensava na vida, sentia-a correr dentro de mim, e até o tempo parecia respirar mais devagar. Sensualidade pura — não do corpo, mas da alma.

Mas viajar também nos abre os olhos. Em Budapeste também notei sinais de pobreza -  não apenas a visível, mas a envergonhada, aquela que se esconde atrás de gestos educados e roupas limpas. A pobreza silenciosa dói mais porque pede ajuda baixinho. E lembrei-me que o mundo é feito de contrastes - beleza e dor trançadas como numa dança antiga.

Ao som da musica comecei a tecer pensamento que sempre me acompanharam como uma bandeira. A vida é um ciclo de acontecimentos que se repetem.

Vivemos num abismo social entre pobreza envergonhada, a pobreza de espírito e ostentação de riqueza, numa época em que o rico e o pobre são separados por uma linha tênue. Existe uma espécie de pobreza anímica na riqueza que a torna semelhante à mais negra miséria, quando se transforma na multiplicação de desejos continuados.

Este mundo, para muitos é um pesadelo e para outros uma oportunidade de enriquecimento. Esta sequência de fatos permite que, para alguns o dinheiro anda sempre à volta, mas, para a grande maioria, o dinheiro dá meia volta e desaparece antes de cobrir as necessidades básicas.

As diferenças sociais não resultam da falta de recursos, mas sim da sua má alocação, porque o que mundo produz daria para todos viverem de maneira digna e confortável. Pois é…  mas para que isso aconteça é imperativo reduzir a desigualdade, o único caminho para uma sociedade mais decente, mais produtiva e principalmente mais justa.

Todos sabemos que a grande riqueza e a grande pobreza são patológicas para a sociedade, mas também todos estamos conscientes que o problema central está naqueles que usurpam, progressivamente, o poder de aumentar a suas regalias, enquanto a situação se agrava com a inoperância do sistema num processo de desequilíbrio social generalizado até atingir pontos de rutura, com violência e tensões generalizadas.

Por tudo isto, combate à desigualdade é uma necessidade ética. Não é concebível que no século XXI tenhamos manifestações trágicas de pobreza e miséria. Para termos um mundo justo, o básico, numa sociedade civilizada, não pode faltar a ninguém, seja qual for o país.

Se todos vivêssemos com verdade e honestidade, seria um passo gigante para um mundo melhor. Lembra-te que da riqueza à miséria é um pulinho!

Antes da fronteira, fiz pausa em Debrecen, essa cidade que respira história e conhecimento. Sem pressa, encontrei um restaurante modesto, numa rua serena onde o tempo caminhava devagar. Pedi o prato do dia -  comida honesta, saborosa, com personalidade: carne tenra, batatas douradas e uma sopa deliciosa que parecia abraço quente. A cerveja era perfeita; o café, forte o suficiente para ressuscitar sonhos. O staff? Conversador, simpático, quase me adotaram - se eu demorasse mais dez minutos, já tinha convite para um casamento ou uma ceia de domingo.



De regresso à estrada, entrei na Roménia. As montanhas erguiam-se como gigantes poetas, colinas suaves ondulavam como lençóis de seda, e cada quilómetro oferecia uma nova pintura da natureza. Nenhuma fotografia faria justiça. O Danúbio, lá longe, seguia para o Mar Negro, como quem conhece bem o seu destino. Ao chegar a Cluj-Napoca, o céu estava escuro, mas a cidade brilhava — vibrante, colorida, cheia de juventude, energia e promessas. Um lugar onde a alma dança.

O hotel, criterioso como sempre escolho, foi uma delícia à primeira vista: arquitetura moderna, linhas limpas, perfume discreto, silêncio acolhedor, e um staff de sorriso fácil e vontade sincera de servir. A viagem fora longa, e a funcionária convenceu-me com doçura - e aquele jeito de quem sabe o que diz - a jantar ali mesmo. Bendita persuasão.

A refeição foi um ritual: carne grelhada na mesa, suculenta, perfumada, quase sensual na forma como libertava aroma; vinho tinto que parecia ter sido inventado por deuses românticos; garrafeira digna de suspiros. Ao meu lado, duas turistas francesas murmuravam e riam com aquele sotaque que faz até contas de supermercado parecerem poemas - e os seus sorrisos maliciosos quase competiam com a sobremesa. E que sobremesa: doces tão leves e divinos que eu tive quase certeza de que os anjos trabalham na pastelaria.

Cansado e feliz, subi para o quarto. Antes de me render aos lençóis macios, abri o computador e vi notícias de Portugal. Lá estavam os estudantes, revoltados -e com razão - pelos custos absurdos para estudar. Queremos um país de cérebros brilhantes ou de analfabetos felizes com um garrafão de vinho? (Perdoa-me, Salazar, mas o teu tempo ficou no passado - e ainda bem.)

Ensino gratuito não é utopia; é visão. Basta olhar para a Noruega, Suécia, Finlândia - e tantos outros que já entenderam que formar mentes é investir no futuro. É tudo uma questão de prioridade na gestão dos impostos que todos pagamos. Queremos um país onde o sol e o mar brilhem, sim - mas também onde os jovens possam sonhar, criar, ficar. Um país onde emigrar seja escolha, não sobrevivência.

Com esse pensamento, embalado por música romântica e pela promessa doce de um amanhã surpreendente, fechei os olhos. A cama abraçou-me com lençóis suaves, e adormeci com a serenidade de quem carrega o coração cheio - e a alma ainda mais.

 

Diário de uma viagem – 62 dia – 27/08/2025

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