Sou corajosa, mesmo cansada. E determinada, mesmo insegura!



Ainda o sol só sussurrava no horizonte quando eu já abria as janelas do meu quarto no coração de Cluj-Napoca, a orgulhosa Capital da Transilvânia. O ar fresco da manhã entrou como quem diz: “Hoje a vida promete, prepara-te.” E eu? Eu estava pronto. Ali, naquela cidade jovem, pulsante, geminada com a minha cidade de Braga, por ambas terem sido Capitais Europeias da Juventude nos anos de 2015 e 2026 - terra onde nasci, cresci e batalho todos os dias por uma vida justa, honesta e cheia de propósito.

Ansioso, tomei um banho que acordaria até vampiro preguiçoso, segui para o pequeno-almoço num salão moderno e confortável, digno de filme europeu, daqueles em que as torradas parecem poesia e o café tem personalidade própria.

Antes de explorar a cidade, passei pela receção para pegar o mapa. E foi ali que a vida decidiu brincar com o destino - com humor, claro, porque o universo tem sentido de humor. Elisabete, alta, de cabelos negros e sorriso que iluminava até os mosaicos antigos no chão, perguntou em tom curioso: “És português?” Expliquei que sim, com orgulho de quem carrega fado e alegria no mesmo peito. Ela então contou que tinha uma amiga, Luna, guia turística dedicada e estudante apaixonada da língua portuguesa. Luna podia mostrar-me a cidade e, segundo Elisabete, seria impossível não me divertir. “E não te preocupes”, disse ela a rir, “ela promete tentar não assassinar o português.”

Solidão também precisa de companhia - às vezes só para aprender a rir de si própria. Aceitei. Quinze minutos depois, lá estava ela: Luna. Mulher de estatura média, figura elegante, cabelo ruivo meio selvagem e um sorriso tão natural que parecia nascer com o sol. Vestia desportivamente o que lhe dava um ar juvenil e leve. “Olá, Maurício! Bem-vindo a Cluj!” - disse, com sotaque doce e vontade de encantar. E assim começou a nossa jornada matinal pela cidade.

Passámos pela Praça Unirii, onde a Igreja de São Miguel ergue-se num silêncio orgulhoso, testemunha de séculos. Luna explicava com dedicação, e eu, encantado por cada palavra dela - mesmo as que vinham com acento romeno e vontade de ser portuguesas.

Seguimos para o Bulevar Eroilor, o coração jovem da cidade. Gargalhamos com histórias locais, cruzámos cafés cheios de estudantes e respirámos história misturada com futuro.

A meio da manhã, ela sorriu e disse: “Agora, pausa obrigatória. Café sem pausa é vida sem poesia.” Levou-me ao Café New York, um lugar histórico com lustres que pareciam suspensos por magia e paredes que guardavam conversas de séculos. O bolo de mel e nozes, acompanhado de um café aromático, fez-me sentir que até a minha alma mastigava devagar, só para prolongar o prazer.

Entre curiosidades sobre Portugal e suspiros da cidade, ela começou a revelar-me a sua vida. “Tenho 45 anos, um filho maravilhoso. Vivo só com ele desde os 28. Perdi os meus pais cedo… E o meu casamento? - fez uma pausa com elegância - Não foi dos que entram nas histórias de amor.

Olhou em frente, mas parecia olhar para dentro. “Luto todos os dias por ele… e por mim. Sou corajosa, mesmo cansada. E determinada, mesmo insegura. E sabes? Isso… isso é o pilar da minha felicidade.”

Peguei-lhe na mão para a acalmar. Decidir é o primeiro passo para resolver todos os nossos problemas. Quando decidimos “colocamo-nos a jeito” para somarmos confiança, coragem, firmeza e determinação.

Quando a nossa vida corre menos bem, somos um poço de tristeza e lamentações, porque fomos treinados para o “pode ser que mude”; mas para mudarmos o rumo dos acontecimentos é preciso decidir “cortar os ramos mortos que atingem toda a nossa vida"; decidir é também uma deliberação, uma escolha, uma ordem e uma resolução, perspetivando o final que nos propomos.

Todos somos livres de escolher em ser feliz, infeliz ou “assim, assim”. É fundamental percebermos o que pretendemos para nós. Parece um cliché, mas na verdade não existe magia nem sorte na decisão do que: “o que é que eu quero?” e “que ramos vou cortar para me libertar?”

A felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito, uma experiencia diária sem motivo. Existe uma grande quantidade de ramos mortos na árvore da nossa vida, que mais não são que bloqueios no desenvolvimento da felicidade que existe em cada um de nós.

Todos tentamos encontrar a felicidade à nossa maneira, mas, muitas vezes, somos sugados e acabamos por, inconscientemente, seguirmos o caminho desenhado pelos “ramos inúteis”. Mas isso agora não importa nada! É preciso coragem e determinação para recomeçar, aceitando que não somos perfeitos, que nunca seremos iguais a ninguém, que somos pessoas com características e valores próprios.

Naquele instante, admirei-a. Não só pela beleza, mas pela força. Porque sensualidade também é coragem. Na hora do almoço ela sugeriu um restaurante da tia. Sem ela, eu nunca encontraria - era um beco escondido, num prédio gasto, daqueles que provam que beleza vive mais na essência que na pintura.

O almoço foi um abraço em forma de comida. Os tios acolheram-me como família perdida, riram alto, encheram-nos de pratos caseiros, histórias e carinho. Ali senti que amizades sinceras não se planeiam… acontecem.

Antes de sairmos, a tia de Luna aproximou-se e murmurou: “Hoje é aniversário dela. Se puderes… celebra com ela. Ela merece alegria.” Sorri. Plano traçado para o resto do dia.



Visitámos o Parque Central, o Teatro Nacional, a bela Orla do Someșul Mic e terminámos no BST Arena, onde jovens treinavam e sonhos pareciam ganhar asas. No final, entrei numa loja de flores. Escolhi flores brancas - pureza, paz, lealdade e a serenidade daquela mulher que lutava todos os dias sem desistir.

Quando lhe entreguei o ramo, Luna parou. Uma lágrima tímida, um sorriso profundo. Abraçou-me e sussurrou: “Obrigada. Já não me lembrava de receber algo tão romântico no meu aniversário…”. Convidou-me então para celebrarmos mais tarde com música e um drink especial, depois do jantar com os tios e o filho.

O jantar foi carinho romeno servido em pratos e abraços. Contei-lhes sobre Portugal e convidei-os a visitar o Norte, a respirar o paraíso do Parque Nacional do Gerês e sentir a hospitalidade no Agrinho Suites & Spa Gerês. Houve brilho nos olhos. Promessas. Sementes bonitas plantadas no tempo.

Depois, Luna levou-me a um lugar vibrante, cheio de cor e juventude. Música que mexia com o corpo, luzes que acariciavam a alma, energia que nos empurrava para dançar… ou conversar sobre tudo o que a vida insiste em ensinar.

Quando me conduziu de volta ao hotel — pela mão, com ternura feminina e força de quem sabe o que quer - senti que o dia não tinha acabado. Sentia-se eterno, gravado no peito.

Entrei no quarto. A cidade ainda respirava lá fora, mas dentro de mim reinava silêncio sereno. Antes de adormecer, ainda fui espreitar as notícias de Portugal no meu computador. Má ideia. Péssima.

O tema principal era corrupção - outra vez - e confesso que me faltou o ar quando li que o meu país ocupava o vergonhoso 43.º lugar, marcando a pior pontuação de sempre no índice de 2024. Atrás da Letónia, Eslovénia, Lituânia… e a lista lá continuava, cada nome a soar como um pequeno murro no estômago.

Há um delírio coletivo, quase um devaneio, na suposta luta contra a corrupção em Portugal. Meio país paga impostos dignos de contos de terror fiscais, enquanto a outra metade parece viver num universo paralelo onde a palavra “IRS” é apenas uma combinação aleatória de letras.

E lá seguimos todos, convivendo com o habitual “quer com fatura ou sem fatura?”, como se fosse a coisa mais natural do mundo - uma espécie de ritual nacional que faz parte da cultura portuguesa, ao nível do pastel de nata e do fado.

A verdade é que, até agora, não houve qualquer vontade política real em virar a maré, em colocar Portugal no topo dos países menos corruptos. Pelo contrário, parece que nos afundamos com uma calma quase poética, como quem aceita o destino com um suspiro resignado.

E depois há o eterno debate: o dinheiro físico e a sua “privacidade total”. Que palavra bonita… “privacidade”. Na prática, significa que o dinheiro em notas continua a ser o super-herói favorito dos evasores fiscais. Enquanto na Suécia um café já se paga com o piscar de um olho digital, por cá ainda damos o mesmo valor a uma nota de 50€ que a um abraço da avó - algo de confiança e sem rasto nenhum.

Claro que eliminar o dinheiro físico seria um processo lento, difícil, complexo… mas, convenhamos, que apenas demos um passinho de passarinho. Não por impossibilidade técnica - oh, não - mas porque, aparentemente, o sistema funciona demasiado bem para quem realmente manda.

E, sinceramente, às vezes penso que, se um dia um político português propusesse abolir o dinheiro vivo, metade do Parlamento desaparecia no dia seguinte “por motivos pessoais”. Ou então surgiria um novo partido com o lema “Liberdade para o Conto e para o Troco”, prometendo proteger o direito sagrado ao envelope castanho e ao recibo esquecido na gaveta.

Mas pronto… talvez amanhã seja o dia em que tudo começa a mudar. Ou talvez… alguém nos vai pedir para voltar depois das eleições. E assim, com este misto de tristeza, incredulidade e uma pontinha de humor desconfiado, fechei o computador. Porque dormir, pelo menos dormir, ainda não taxam. (Por enquanto…)

O sono chegou denso…, porém doce ao som deste musica:

https://www.youtube.com/watch?v=k4l3PAKdQCo&list=RDk4l3PAKdQCo&start_radio=1

Amanhã será até Chisinau na Moldávia. Mas hoje? Hoje eu adormeço com saudade fresca e coração cheio. E aqui, entre o travesseiro e a esperança, pensei: existem encontros que não pedem licença - chegam, transformam, e mesmo se partem, deixam luz acesa dentro de nós. E que sorte é viver o bastante para todos os dias lutar por amor, por justiça, por nós mesmos… e por quem cruza o nosso caminho com verdade

 

Diário de uma viagem – 63 dia – 28/08/2025 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…