Só comecei a compreender o vinho Grego no final da garrafa!

 


Acordei em Burgas na Bulgária, antes da própria madrugada ter coragem de acender as luzes do céu. O sol ainda dormia, preguiçoso, enroscado no horizonte, e eu carregava na cabeça o aroma denso dos mistérios dos dias anteriores - como se a noite, num capricho, tivesse deixado segredos espalhados nos meus pensamentos.

Fui o primeiro hóspede a chegar à sala de pequenos-almoços. O silêncio ainda tinha aquela textura cáustica, quase metálica, típica da madrugada búlgara: uma imobilidade que parece suspender o tempo. Assim que me sentei, uma música suave começou a tocar - tão suave que parecia estar à minha espera, como se alguém tivesse observado a minha chegada e sussurrado para a aparelhagem: agora.

Malas no carro, curiosidade acesa, e o coração pronto para mais uma travessia - desta vez até Tessalônica, na Grécia. Burgas ficava para trás, mas já me abraçava com aquela saudade antecipada que só as cidades inesperadamente belas conseguem provocar.

A viagem começou com um sol encoberto, tímido, por detrás de nuvens que pareciam pinceladas de carvão sobre um céu de prata. A paisagem era uma mistura de verde antigo e amarelos queimados: colinas suaves que se desdobravam como lençóis lavados ao vento, campos de trigo que acenavam ao carro, aldeias com casas de telhados vermelhos e paredes gastas pelo tempo.

À medida que o dia avançava, o sol libertava-se do seu torpor. Primeiro, um brilho pálido. Depois, um dourado quente que fazia cintilar as pedras, os troncos, as placas de estrada. As cores ganhavam voz: o verde falava alto, o azul do céu abria-se num sorriso, o cinzento das nuvens recuava com elegância, como uma cortina num palco.

Antes de abandonar o hotel, ainda aproveitei a internet para ver o que se passava em Portugal e no mundo. Bastaram cinco minutos para me sentir esmagado por aquela estranha comédia humana que insiste em não se levar demasiado a sério.

Uma notícia chamou-me atenção: um aumento expressivo no número de divórcios. Segundo as estatísticas - essas que não perdoam ninguém - já há muitos mais divorciados do que viúvos. O que me levou a concluir, com humor um pouco sarcástico, que talvez as pessoas tenham decidido que enfrentar a morte é muito mais dramático do que enfrentar um advogado.

E, verdade seja dita, quando alguém está mesmo decidido a divorciar-se, qualquer causa serve. O café saiu morno, o gato olhou de lado, a toalha não foi dobrada com paixão suficiente… pronto, já está. Brincadeiras à parte, percebi que isto é um verdadeiro flagelo moderno, não pela comédia, mas pela tristeza silenciosa que se esconde por trás de tantas separações - como se as almas estivessem a desaprender a arte delicada de permanecer, provocando dor nos corações mais sensíveis.

Estar apaixonado é atributo do coração, mas esquecer, não; é tarefa da nossa cabecinha, às vezes… porque tem um outro eu lá dentro que age por conta própria.  Seria bom que num esforço de consciencialização resolvesse todas as dificuldades de um modo pragmático, mas às vezes complica a simplicidade de ser feliz, de valorizamos um abraço, o sorriso das pessoas, a simpatia de alguém que nos dá bom dia, a verdade de um amigo, a disponibilidade para ajudar, a gentileza de oferecer flores.

Não sou especialista no assunto e ainda tenho muito para aprender. Porém, acredito no poder do toque, do conhecimento, da partilha e do milagre das viagens. Também eu tive e terei falhas, mas estou comprometido em dar o melhor de mim para aprender e ensinar a ser feliz.

Eu conheço-me suficientemente bem para aceitar que posso me surpreender nos pormenores, mas não complico. É necessário desaprender para aprender de novo. Houve um tempo em que eu pensava que, para isso, seria preciso renascer, mas não, basta apenas desaprender o medo de mudar o que não está bem.

Entre o tempo e o destino, há encontros e desencontros. Às vezes prometemos reencontros para “depois”, com a leveza de quem acredita que o tempo é infinito, mas o “depois” é insidioso, pode nunca mais chegar e, nesse espaço indefinido entre a esperança e o esquecimento, mora o “nunca mais”.

Nada é para sempre, todo fim tem um recomeço, mas sem aquilo que acabou de acabar, porque a nossa vida é uma sequência de ensinamentos e, quando o tempo nos alerta que não nos vai dar todo o tempo, mergulhamos num mundo onde a vida tem outros valores; aprendemos que amor não é paixão, alegria não é felicidade e que amizade é uma sensação sustentada num sentimento de lealdade e proteção, que reduz o sofrimento e divide a nossa dor.

Na hora de virar a página, ensaia o sorriso mais bonito, porque descobres que existe muito mais no livro do que aquela página que tu não consegues terminar, porque estás acorrentado às mágoas, aos rancores às decepções, às falsas expectativas.

Tudo simples, mas nada fácil reconhecer que vivemos todo este tempo com valores intoxicados, sistematicamente na busca da felicidade, numa permanente confusão de sentimentos e de valores.  No meio de tudo isto, onde está a felicidade?... talvez em alguns momentos, talvez em nenhum momento ou talvez nos pormenores que nunca valoramos.

Este é o tempo de virar a página do livro que insisto continuar a ler, mas há capítulos que já não me dizem mais nada. São palavras repetidas, dores recicladas, promessas que se perderam no tempo. Já dizia Ary dos Santos “Natal é em dezembro, mas em maio pode ser, Natal é em setembro, é quando um homem quiser”

Com este turbilhão de pensamentos e embalado por uma música romântica - “If You Love Me”, que parecia querer transformar a paisagem num filme - cheguei a Komotini, já com o estômago a acusar horas. A cidade, um polo estudantil vibrante, ergue-se apenas 15 km da costa do Mar Egeu. Nesta envolvência, comecei a pensar na garrafa que lancei em Constança, no Mar Negro, com aquela carta de amor. Por onde andará agora? Terá escolhido o rumo certo ou estará perdida entre correntes indecisas, como tantos amores modernos?



Encontrei um restaurante simples junto ao Memorial da Segunda Guerra Mundial, em forma de espada cravada na história. O espaço tinha mesas de madeira gastas, toalhas às riscas e um aroma irresistível de grelhados. Pedi carne tenra, suculenta, levemente picante, acompanhada por uma cerveja sem álcool tão fresca que quase parecia provocação.

Depois do almoço, caminhei durante uma boa hora pela cidade. Komotini tem um charme que mistura passado otomano com juventude rebelde: o Museu Folclórico, guardando tradições que teimam em não morrer, a Mesquita Yeni, elegante e silenciosa, a praça central onde estudantes conversam com uma leveza que só quem tem tempo para desperdiçar sabe ter. O povo nas ruas movia-se com um equilíbrio tranquilo: nem ricos, nem pobres, apenas pessoas que vivem o suficiente para sorrirem sem pressa.

Parti rumo a Tessalônica com o sol a começar a fazer a sua lenta retirada. A estrada serpenteava por colinas douradas e, em certos trechos, aproximava-se tanto do Mar Egeu que parecia possível esticar o braço e tocar a água azulada. O mar estava vestido de turquesa e prata. A luz, agora mais baixa, fazia a superfície ondular como se respirasse. O céu ia ganhando tons laranja e violeta, e a paisagem inteira parecia suspensa num feitiço cinematográfico.

Cheguei já de noite cerrada à segunda maior cidade da Grécia. Tessalônica tem uma aura mística: São Paulo pregou aqui; o Império Romano deixou cicatrizes de grandeza nas suas ruas; e o mar parece guardar histórias que não podem ser ditas em voz alta.

O GPS levou-me até um hotel que, para minha surpresa, ficava exatamente diante do Golfo de Tessalônica. O átrio era leve, quase etéreo: alcatifas macias como neve quente, paredes cobertas de obras de arte gregas que pareciam observar-me, um staff simpático, eficiente, com aquele sorriso que só os gregos conseguem combinar com genuína hospitalidade.

Cansado, decidi jantar no próprio hotel. A sala de jantar tinha cores quentes, mesas iluminadas por velas e música ao piano que parecia massajar a alma. Pedi um prato de peixe fresco, digitalmente em estilo contemporâneo, acompanhado por um vinho grego que só comecei a compreender no final da garrafa. Nada mal para um país que hoje já compete com os “terroirs” mais celebrados do mundo.

De volta ao quarto, espreitei o Mar Egeu pela janela. Procurei, como criança teimosa, a garrafa com a carta de amor. Talvez ela passasse ali, silenciosa, a caminho de um destino que eu próprio desconhecia. O quarto convidava ao descanso: decoração em tons pastel, quadros dedicados ao amor e ao mar, almofadas que abraçavam, uma serenidade que parecia dizer: “Descansa. Amanhã o mundo será de novo uma surpresa.”

E foi assim que adormeci - embalado por um mar que guarda mensagens, por uma cidade que respira história por esta linda musica e por um romantismo que, mesmo fora de moda, ainda insiste em sobreviver, numa época em que pedir desculpas parece ser a palavra mais difícil.

https://www.youtube.com/watch?v=_hSn4-F4zjE&list=RDYHIMloy7QEs&index=4

Sorry Seems to Be the Hardest Word

 

Diário de uma viagem – 70 dia – 03/09/2025

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