O saxofone derretia-se no ar como chocolate quente!
Despertei
em Tessalônica, na Grecia, como quem emerge lentamente de um sonho demasiado
confortável para ser abandonado. O sol, tímido como um adolescente apaixonado,
espreitava pelas frestas das cortinas, desenhando na parede um bailado de luz
trémula. O mar, esse velho poeta de voz grave, murmurava lá ao longe um cântico
sereno. E eu… eu estava perigosamente inclinado a permanecer mais alguns
capítulos na cama.
Mas
a curiosidade é uma amante insistente. Antes mesmo de ser seduzido pelo aroma
de torradas quentes com manteiga - aquele perfume que parece uma carícia na
alma - e pelo café forte, capaz de acordar estátuas, abri o computador para
saber notícias de Portugal. A primeira manchete piscou para mim com aquele
atrevimento tecnológico que só os títulos sensacionalistas dominam: “O fenómeno
do amor virtual cresce em Portugal.”
Ah,
o amor virtual - essa espécie de sudoku emocional em que as peças quase
encaixam, mas há sempre um quadradinho incógnito. Segundo dizia a notícia,
milhões de pessoas aventuravam-se no “digital dating”, porque hoje até o
coração tem wi-fi. Não é que discordasse. No fundo, conquistar alguém pela
internet exige mais criatividade do que entregar flores num jantar romântico. É
malabarismo de palavras, ginástica de emoções, poesia digitada entre mensagens…
e nunca temos a certeza absoluta de quem está do outro lado. O amor virtual é
uma espécie de Penélope digital: tece-se devagar, desfaz-se depressa, vive
sempre envolto num véu de secretismo.
Fugi
desse pensamento com um banho frio, que me devolveu ao planeta Terra e
lembrou-me que há sensações que o virtual não sabe replicar - como o sabor de
uma torrada de pão a estalar, ou o perfume íntimo e terroso de um café forte
que desperta mais do que os sentidos: desperta esperanças.
E
então, energizado, mochila nas costas e humor a 80%, parti para descobrir
Tessalônica. A cidade recebeu-me com aquele ar carismático e ligeiramente
caótico típico de quem tem mais histórias para contar do que tempo para as
narrar. Os edifícios bizantinos convivem lado a lado com cafés modernos, e cada
esquina parece ter sido colocada ali para surpreender.
Comecei
pela Praça Aristóteles, onde o filósofo, se aqui estivesse, provavelmente
analisaria o trânsito antes de analisar o mundo. Pombos gregos - mais suíços do
que gregos, dada a pontualidade com que exigem migalhas - rececionaram-me.
Depois
segui para a Rotunda, esse cilindro monumental que já foi mausoléu, igreja,
mesquita e agora vive em paz com a sua crise de identidade. Lá dentro, o
silêncio é tão espesso que quase ouvimos os passos da História a caminhar
devagar.
Por
ali perto, o Arco de Galério ergue-se como um portal para outra dimensão - ou
para outro reinado, depende da imaginação. As figuras esculpidas nas colunas
parecem querer saltar cá para fora para contar os escândalos imperiais que
presenciaram.
Continuei
a subir, e das muralhas antigas observei o azul infinito do golfo. O vento
sussurrou-me ao ouvido que nenhum amor virtual tem a ousadia desse horizonte.
A
fome apertou - romântica, mas sem cerimónias - e entre as opções gregas
típicas, encontrei um pequeno restaurante romeno, escondido numa rua estreita e
ornamentado com toalhas bordadas e um aroma a nostalgia de avó.
Ali
provei sarmale, enrolados com orgulho ancestral, mergulhados em molho quente.
Acompanhados por mamaliga, que é, basicamente, um abraço de milho. O dono - um
homem robusto de bigode tão curvo que parecia pontuar as frases - recomendou-me
um vinho da melhor região da Roménia, da Transilvânia. Disse-me que era “um
vinho que até Drácula concordaria em beber ao jantar”. Eu ri. Ele não. Talvez
estivesse a falar a sério. O vinho era rubro, profundo como um segredo, e
aquecia o peito de um modo que só as bebidas com história sabem fazer.
A
meio da tarde, parei numa esplanada romântica à beira-mar. Mesas brancas,
cadeiras de ferro forjado e o mar ali mesmo a respirar devagar. Enquanto bebia
um café que parecia destilar os próprios raios de sol, vi um casal conversando
com gestos ternos, dedos que se tocavam como se fossem notas de uma melodia
improvisada.
Pensei
então no amor virtual. A mesma conversa, mas numa sala escura, iluminada apenas
pela luz azulada do ecrã… e a ternura convertida em dígitos. Que pena, pensei.
Que pena quando o amor é bom demais para caber numa caixa luminosa e imaginei os
dedos a correr no teclado:
“Nunca
ouvi a tua voz, nunca toquei na tua pele, mas mesmo assim, tu habitas num canto
secreto do meu pensamento. Somos feitas de palavras trocadas, fragmentos de nós
que se entrelaçam sem rosto, sem corpo, mas com uma intensidade que me aquece a
alma.”
“Em
cada mensagem enviada, em cada silêncio entre nossas palavras, mora um desejo
escondido. Um calor suave que começa no peito e se espalha como um sussurro
pela pele. Tu despertas-me com aquilo que não mostras e talvez aí mora o mais
delicioso secretismo.”
“Imagino
teus gestos, teu riso contido, a forma como teus olhos brilhariam se
estivéssemos frente a frente. Será que o teu toque seria tão gentil quanto as
tuas palavras? Ou talvez guardasse aquela ousadia quieta de quem sabe provocar
sem pressa?”
“Nosso
laço é feito de curiosidade, mas também de fantasia. Uma conexão que vibra num
lugar entre o afeto e o arrepio. Escrevo-te não apenas com carinho, mas com
vontade; vontade de atravessar a distância, de transformar palavra em pele,
desejo em presença.”
“Ainda
sou segredo, mas sou um segredo que te deseja em silêncio. Um toque invisível
entre as letras. E, se um dia esse véu cair, espero que seja com a mesma
intensidade com que penso em ti; com ternura… e fome de descoberta.”
“Tu
és a amiga secreta, mas talvez tu desejes ser descoberta. Talvez o mistério que
envolve esse jogo esconda mais do que um presente. Esconda desejos,
curiosidades e um carinho que se insinua entre as palavras doces e os gestos
inocentes.”
“Se
um dia esse segredo puder ser revelado, que seja com a mesma intensidade com
que escrevo essas linhas: com ternura, mas também com o fogo suave de quem não
tem pressa.”
“Meu
segredo não é o teu rosto escondido… é o desejo. É a vontade de estar perto de
ti, de descobrir tua voz, tua pele macia, o calor do teu corpo respondendo ao
meu toque. Em cada linha que escrevo, imagino-te com mais nitidez; teus lábios
entreabertos, a tua respiração acelerada, teus olhos fechando devagar quando o
prazer toma conta de ti.”
“É
estranho e deliciosamente provocante, como alguém que nunca vi pode mexer tanto
comigo. Só te conheço por palavras, mas são elas que me tocam como dedos
curiosos, deslizando por pensamentos que antes eu nem sabia ler.”
A
noite caiu com aquele charme preguiçoso das cidades mediterrânicas. As ruas
tornaram-se um rio de luz, de vozes e de perfumes misturados. Caminhei sem
pressas, como quem dança ao ritmo invisível da cidade. Regressei ao hotel, subi
ao quarto, refresquei-me e vesti uma roupa leve - a noite pedia suavidade.
Escolhi
um restaurante acolhedor, com mesas de madeira, luz baixa e janelas abertas
para a brisa quente. O jantar foi simples, mas cada garfada parecia uma
conversa íntima entre mim e os ingredientes. Depois, deixei-me envolver por um
bar de jazz próximo.
O
saxofone derretia-se no ar como chocolate quente; as notas roçavam na pele como
dedos tímidos. A bebida grega - um tsipouro perfumado - queimava devagar,
traçando caminhos sensuais pela garganta abaixo. Havia calor humano no ar:
sorrisos fáceis, olhares demorados, uma cumplicidade silenciosa entre
estranhos. A noite parecia abraçar-nos a todos, sem pedir nada em troca.
De
volta ao hotel, entrei no quarto como quem regressa a um ninho. A cama era
larga, branca, convidativa como um poema bem escrito. As cortinas deixavam
entrar apenas um fio de luz que desenhava uma linha prateada no chão.
Coloquei
os meus fones - uma melodia suave que se entranhou no corpo como um sussurro e
que se ouvia através da minha alma. E assim adormeci, embalado por sons que
pareciam bênçãos, preparando-me para a nova viagem até Atenas que me esperava
ao amanhecer.
https://www.youtube.com/watch?v=HWwlXEbdbLI&list=RDHWwlXEbdbLI&start_radio=1
-
Enlly
Blue - Through My Soul - e Tessalônica ficou lá fora, respirando, guardando
segredos, como uma amante que promete reencontro.
Diário
de uma viagem – 71 dia – 04/09/2025


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