O amor e o peixe têm algo em comum - ambos são melhores quando bem temperados e ligeiramente salgados!
Antes de adormecer em Constança, envolvido naquele ambiente místico onde o silêncio parecia respirar em uníssono com o mar, sentei-me diante da janela do quarto - as cortinas esvoaçavam, como véus guardando segredos antigos. Peguei papel e caneta. A chama da vela tremia, projetando sombras que dançavam pelas paredes.
Escrevi
uma carta - não à moda moderna dos desesperados, mas uma carta antiga, feita de
alma e tinta. Nela deixei o perfume do instante, o vestígio do toque, o eco
distante da voz dela. Cada palavra tinha o peso do tempo e a leveza da saudade.
Quando
terminei, coloquei-a numa garrafa com cuidado, como quem sela um feitiço. Eram
precisamente meia-noite, marcadas pelo relógio da igreja iluminada em frente -
o mesmo que outrora nos servira de testemunha muda. Lancei a garrafa ao mar com
a solenidade de um pacto silencioso.
Desejei,
naquele instante, que ela viajasse por mares e épocas, cruzando fronteiras
invisíveis do tempo - e que um dia, numa outra existência, fosse encontrada
como prova de que a vida é feita de muitos tempos, mas um amor mutável,
sobrevive a todos eles.
Quando
despertei, o mar estava calmo, quase imóvel - um espelho preguiçoso que
guardava mistérios no fundo. Perguntei-me, meio sorrindo, onde ele teria escondido
a minha mensagem. Os deuses do Mar Negro são conhecidos por sua discrição… e
por seu humor enigmático.
Depois
de um banho fresco e um pequeno-almoço reconfortante, parti rumo a Burgas, já
atravessando a fronteira búlgara. A estrada junto ao mar parecia um filme projetado
a céu aberto. O final do verão tingia a paisagem com verdes tenros e flores
tímidas, enquanto o sol brincava de aparecer e desaparecer atrás das nuvens. As
casas, com telhados de barro e varandas floridas, desfilavam à beira da estrada
como personagens curiosas observando minha passagem. O vento trazia o cheiro
salgado do mar e, de vez em quando, o perfume do livro de capa preta “A Love
from another World”, que deixei adormecido no meu quarto.
Parei
em Varna, a chamada Capital do Verão, uma cidade que cheira a maresia e
lembranças douradas. Almocei num restaurante que, por ironia ou destino, se
chamava “Cooking with love” - nome tão pretensioso quanto verdadeiro. Pedi
peixe grelhado, simples e perfeito, acompanhado por legumes coloridos e um copo
de vinho branco que parecia conter pedaços de sol líquido.
Enquanto
comia, pensei: o amor e o peixe têm algo em comum - ambos são melhores quando
bem temperados e ligeiramente salgados. De volta à minha
mensagem prisioneira numa garrafa de vidro que está a viajar entre tempos- há
palavras que vivem dentro de nós muito antes de encontrarem voz. Não sei ao
certo se te imaginei ou se apenas te pressenti, mas muito antes de chegares, já
havia um espaço guardado para ti; uma ausência silenciosa, mas viva, dentro de
mim.
Apressei-me
depois para visitar alguns pontos turísticos. A Necrópole de Varna, com o
tesouro de ouro mais antigo do mundo, prometia segredos de civilizações que já
sabiam o que era amar e perder. Passei diante da réplica da Torre Eiffel
construída em 2007 - símbolo irônico da tentativa humana de tocar o céu - e
senti, por um instante, o peso doce da história a me observar.
Logo
retomei a estrada rumo a Burgas. O mar corria ao meu lado, como um companheiro
fiel, ora azul profundo, ora prateado pelo reflexo das nuvens. A paisagem
alternava colinas suaves e enseadas secretas, onde talvez, quem sabe, minha
garrafa passasse flutuando.
O
rádio tocava música latina, ritmada e melancólica, e eu ria sozinho ao pensar
como é contraditório dançar com o coração apertado. Os meus pensamentos
começaram a tecer o véu da mensagem lançada ao mar em Constança. Será que
alguém um dia a encontrará? Ou talvez ela ressurgirá noutra vida, transformada
num colar de conchas, pendendo do pescoço de alguém que me reconhecerá sem
saber por quê. Hum… o mistério vive do que não se revela.
Quando
avistei Burgas, a cidade parecia brilhar sob o pôr do sol, dourada e serena,
como se se preparasse para me receber. Dizem que no tempo dos romanos era
conhecida como Aquae Calidae - Águas Cálidas. Talvez porque aqui o mar e o
coração sempre mantêm uma temperatura morna, ideal para quem carrega lembranças
incandescentes.
O
hotel onde tinha reserva ficava de frente para o mar, cercado por um vasto jardim.
Ao entrar no hall, fui tomado pelo aroma doce de jasmim e madeira polida. O
teto ostentava pinturas que pareciam observar quem chega. Depois de me instalar,
caminhei até um restaurante ao lado, decorado com redes de pescador, velas
tremeluzentes e música serena. O jantar prolongou-se, misturando sabores e
pensamentos. Cada gole de vinho parecia dissolver uma lembrança, e cada garfada
trazia de volta outra.
Olhei
o mar pela janela e pensei: quem me ler um dia, talvez esteja fervilhando de
curiosidade sobre o que escrevi naquela carta. Talvez descubra que nela não há
apenas palavras - há um feitiço. Um pacto. Um eco de amor que se recusa a
morrer.
Depois
do jantar, resolvi percorrer a marginal. O mar estava calmo. A noite tinha um
luar brilhante que parecia um pôr do sol. Foi então que ouvi, vindo de longe, o
som grave de um sino - o mesmo tom que marcara a meia-noite em Constança. Por
um instante, o tempo pareceu dobrar-se sobre si mesmo. Senti um arrepio, desses
que não vêm do frio, mas da memória. O vento sussurrava nomes que só o coração
reconhece. De repente, uma gaivota passou tão perto que quase roçou meu ombro e,
por um segundo, juro que vi algo brilhar preso em seu bico. Uma ilusão, talvez.
Ou um aviso.
Continuei
a caminhar, meio rindo de mim mesmo. O humor é o escudo dos que acreditam em
milagres, mas fingem que não. Mais adiante, sentei-me num banco de pedra com
vista para o mar. Um pescador ao meu lado, idoso, com barba branca e olhos
escuros de tempestade, lançou sua linha ao mar que fletia o luar. Ficámos em
silêncio por algum tempo - dois estranhos partilhando o mesmo infinito.
Com
uma voz rouca quase inaudível, disse: “O mar devolve tudo o que não lhe pertence -
disse ele, sem me olhar. Fiquei imóvel. Não tinha falado uma palavra. “Às vezes leva tempo” - continuou - “mas o mar
é um velho sentimental. Ele guarda, mas não esquece.” Sorri com ironia. “Espero
que ele tenha boa memória, então.” O pescador riu, mostrando poucos dentes, mas
um brilho juvenil. “Depende do que foi lançado. Palavras leves afundam.
Promessas verdadeiras, essas flutuam.”
Antes
que eu pudesse responder, ele recolheu a linha. No anzol, vinha presa uma
pequena concha. Dentro dela, um pedaço de papel rasgado, quase desfeito pela água.
Senti o sangue gelar. “Deve ser lixo - disse ele, entregando-me o fragmento com
naturalidade. “Mas talvez o senhor saiba
ler o que o mar escreve.”
O
papel estava ilegível, manchado de sal e tempo. Mas ali, no canto, uma palavra
resistia, teimosa e viva como um coração que se recusa a parar: “Sempre.” Fechei
os olhos. O vento soprou mais forte, e tive a impressão de ouvir a risada dela
distante, misturada ao som das ondas.
O
pescador já não estava lá. Nenhum sinal dele, nenhuma pegada. Apenas a linha do
horizonte e o rumor do mar. Talvez o mar tenha respondido. Ou talvez - e aqui o
mistério começa a rir de mim - o tempo tenha começado a devolver o que lhe
entreguei. Naquela
noite, o ar ficou quente, quase elétrico, e enquanto o luar derramava prata
sobre as águas, eu sentia - de forma instintiva e inevitável - que a mensagem
da garrafa ainda não terminara a sua viagem.
De
volta ao hotel, abri o caderno de notas e escrevi uma frase que não ouso
apagar: “Quando o mar fala, é porque o amor decidiu permanecer.” E assim,
saciado de mistério e saudade, procurei a cama. O corpo pedia descanso, mas a
alma… essa continuava desperta, sedenta por histórias - histórias de piratas
apaixonados e acorrentados, que, como eu, lançaram ao mar a esperança de um
reencontro.
Diário
de uma viagem – 68 dia – 01/09/2025


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