Não precisas de me ver para saber que estou contigo!
Acordei
em Chisinau na Moldávia, com aquela sensação suave de quem foi abraçado pela
madrugada - e ligeiramente traído pelo despertador. O quarto do hotel parecia
ter sido penteado pela brisa do rio Bic durante a noite, e ainda podia jurar
que o luar tinha ficado preso nas cortinas, conspirando com as estrelas sobre
os nossos segredos insones. Se paredes falassem… bem, provavelmente me pediriam
que investisse em noites menos dramáticas e mais horas de sono.
A
viagem do dia anterior tinha sido longa - longa daquele jeito épico em que o
corpo pede cama, a alma pede silêncio e o estômago… esse filho ingrato… exige
alimento. E ali estava eu, arrastando-me para o pequeno-almoço como um soldado
romântico ferido na batalha do prazer e da fadiga.
A
sala era um quadro: frutas frescas a brilhar como joias, café forte que seduzia
pelo cheiro e pão quente que derretia manteiga com a delicadeza de um beijo
lento que antecede promessas perigosas. Poucos hóspedes. Silêncio. Uma música
suave que parecia querer me embalar de volta para a cama.
Tudo
em paz - até surgirem passos de salto alto na madeira escura. Passos decididos.
Aquele tipo de caminhada em que cada tac… tac… tac… diz sei exatamente quem sou
e o que provoco.
“Hi
Maurício. I’m Sophia. Do you remembre me? If I can help you, I’m at the
reception.” Apenas tive tempo de murmurar, com a boca cheia e a alma surpreendida,
um “Nice to meet you, Sophia. It’s ok.” Charmoso? Não. Realista? Com certeza.
Depois
do pequeno-almoço, procurei Sophia. E ela apareceu com um sorriso tão preciso
que parecia ensaiado, mas ao mesmo tempo natural - como quem seduz sem esforço,
apenas com presença. Explicou-me caminhos, contou histórias, desenhou
percursos. No final, escreveu o seu contacto num cartão.
“Leva
o meu número. Não sou polícia, mas conheço bem esta cidade. Ficas mais
protegido.” Protegido. Uma palavra que tanto podia significar seguro como
ligeiramente dominado. Aceitei, claro. Nunca se nega proteção quando vem
acompanhada de perfume discreto e olhar inteligente.
“Ah,
e logo vou sair com amigos. Se te sentires só, estás convidado!” A porta mal
tinha fechado e já o dia se abria para mim com promessas e ruas por desvendar.
Comecei
pelas sugestões de Sophia: a Catedral da Natividade, serena como uma senhora
elegante que já viu de tudo mas mantém o batom impecável; o Arco do Triunfo, pequeno,
mas orgulhoso, como se dissesse “tamanho não é documento”; o Parque Stefan cel
Mare, onde os velhos jogam xadrez com a solenidade de generais aposentados e os
jovens riem como quem se recusa a herdar os medos da história; as largas
avenidas soviéticas ainda guardando memórias pesadas no cimento.
Nas
ruas, lojas simples, cafés acolhedores, pessoas que sorriem sem obrigações - um
sorriso com pouco açúcar, mas com verdade. Há beleza aqui, mas também pobreza.
Bancas improvisadas, idosos vendendo fruta colhida sabe-se lá onde, olhares
cansados de quem carrega mais que sacolas. Chisinau é honesta: não se arruma
demais para impressionar. E talvez por isso impressione tanto.
No
meio da grandiosidade fria e austera de Chisinau, onde a beleza das igrejas
ortodoxas se ergue entre ruas humildes e olhares cansados, senti o meu coração
apertar-se num misto de emoção e procura interior. A cidade, com as suas
contradições de luz e sombra, fez-me refletir sobre o que realmente significa
ter fé. Foi então que, guiado por uma necessidade quase instintiva, decidi
procurar o meu São Bentinho - aquele que me acompanha silenciosamente,
guardando-me em cada passo, em cada dúvida, em cada oração sussurrada ao vento.
A
Catedral da Nossa Senhora da Divina Providência surgiu diante de mim como um
farol discreto, quase escondido entre as imponentes cúpulas douradas das
igrejas ortodoxas. Era a única casa católica num país de maioria ortodoxa, e
senti-a como um abrigo para os corações peregrinos - pequena, mas de uma
grandeza que não se media em tamanho, e sim em fé. Ao entrar, o frio da rua deu
lugar a um calor sereno e envolvente. As velas tremeluziam suavemente, e o
silêncio era quase sagrado, apenas quebrado pelo eco longínquo de um cântico em
latim.
Olhei
em redor à procura da imagem do meu São Bentinho - aquele olhar firme e sereno
que tantas vezes me guiou. Não o encontrei nas paredes, nem nos altares. Mas,
ao fechar os olhos, senti-o ali. Senti-o na paz que me envolvia, no leve
perfume do incenso que subia em espirais finas, e sobretudo no pulsar do meu
próprio coração. Era como se me dissesse, sem palavras: “Não precisas de me ver
para saber que estou contigo.”
Foi
então que reparei nele - um jovem ajoelhado na segunda fila, imóvel, com uma
devoção que transcendia qualquer gesto. O seu corpo era magro, a pele pálida, e
o brilho da luz que entrava pela rosácea fazia reluzir a sua cabeça despida de
cabelo, de quem está a fazer tratamento de quimioterapia. Havia nele uma
fragilidade comovente, mas também uma força que me desarmou. As suas mãos
tremiam ligeiramente, entrelaçadas em oração, e os seus lábios murmuravam
palavras que não compreendi, mas que pareciam vir do mais profundo da alma.
Aquele
instante encheu a igreja de um silêncio ainda mais denso - não o silêncio
vazio, mas aquele que fala, que toca, que cura. Parecia que até os santos o
escutavam. E eu, observando, senti que ali estava a verdadeira presença de Deus
- não nas imagens, não nos rituais, mas naquele coração que acreditava apesar
da dor.
Baixei
a cabeça e pedi a São Bentinho que cuidasse dele. Pedi que lhe desse a mesma
paz que tantas vezes me deu, que o envolvesse com a sua força, e que, se fosse
vontade divina, o curasse. Naquele instante, percebi que São Bentinho estava
ali, sim - não numa imagem de pedra, mas vivo, agindo através da fé daquele
jovem e da esperança que se espalhava silenciosamente por toda a catedral.
Saí
dali mais leve, com os olhos marejados e o coração sereno. Em Chisinau, longe
de casa e entre uma fé que não era a minha, encontrei o meu Santo, encontrei o
meu Deus - e, sobretudo, encontrei-me a mim mesmo.
O
restaurante indicado por Sophia era modesto, sem luxos. Cadeiras que já viveram
outras vidas, paredes que mereciam férias da tinta. Mas a comida… ah, a comida
era como certos amores: não se escolhe pelos olhos, mas pelo sabor que explode
e marca. Pratos simples, porções generosas, tempero caseiro e uma vodka que
dizia “tenta-me mais uma vez”. Eu obedeci, claro. Quem sou eu para contrariar
tradições locais?
Continuei
a caminhada. Não procurava apenas monumentos - procurava almas. Há uma vibração
jovem nas ruas, um desejo coletivo de futuro. Eles sonham alto, dançam quando
podem e sorriem com resistência. A juventude moldava caminha com pressa, como
se tentasse ultrapassar a sua história.
De
volta ao hotel, pronto para um banho que lavasse o pó e talvez algumas
lembranças, o telefone tocou. “Como correu o teu dia? Quais são os teus planos
para a noite?” Planos? Eu? Nunca os tive. Ou fingi que não os tinha. Coloquei a
noite nas mãos dela. “Perfeito” - disse ela com a voz de quem já sabe que manda
mais do que admite. “Vamos jantar antes de nos juntarmos aos meus amigos. Nossos
amigos”, corrigiu-se. Um gesto gentil de quem não queria que eu me sentisse um
estrangeiro emocional.
O
restaurante ao lado do Bic exalava música suave, luz quente e aromas que
prometiam sedução culinária. O silêncio entre nós era confortável, como duas almas
cansadas a reconhecerem-se. Então Sophia falou. Suave, triste, transparente
como água a correr na madrugada.
Um
amor que desabou. Dois meses devastadores. Ela tentou segurar o que já estava
morto. Ouvir é também tocar - e eu ouvi. E enquanto ela falava, pensei naquelas
ironias perfeitas que vida adora escrever: duas histórias quebradas, dois
corações que sentiram a mesma dor, em lugares diferentes.
E
lentamente comecei a desabafar: Não existe um só ponto de equilíbrio nas nossas
histórias, verdadeiras ou irreais! O relacionamento com uma pessoa egocêntrica
pode ser muito desafiador. No começo tu nem te apercebes e até achas
confortável ter uma mulher decidida ao teu lado, mas, ao longo do tempo, acabas
por te perderes nessa dinâmica e sentires-te sugado das tuas ideias e criatividade.
Mas quando se trata de uma peniafóbica a situação torna-se ainda mais
complicada.
Guardo
na minha memória imagens avassaladoras desse desespero incontrolado,
infernizando os momentos que apostei em ser feliz, impotente para analisar se
“o copo estava meio cheio ou meio vazio”
Quando
a peniafobia está implicada na construção da sua identidade, a egocêntrica
perde facilmente o autocontrole e descarrila na acumulação compulsiva de
desejos materiais.
Começa
com pouco e depois quer mais e mais e depois é sempre pouco. É o medo
irracional de ficar pobre, provindo da incapacidade para poder gerir,
individualmente, os riscos do seu pé-de-meia.
Mas
a vida é como é; eu já fiz as pazes com as minhas histórias. Não quero sentir
esse gosto enferrujado de desgosto toda vez que eu lembrar de algum nome ou
lugar. Quero aprender a aceitar os motivos, ir até ao fim nas decisões.
Aprender a não arrepender ninguém e a viver a vida como ela é. Ela não pode
mudar, mas eu posso!
Seguimos
para um bar elegante: luz baixa, música audível o suficiente para embalar, mas
baixinha o bastante para confidências. Bebidas bem servidas, amigos educados,
cultura na ponta da língua e humor afiado. Gostaram de mim - ou fingiram bem.
Não importa. A noite era boa assim.
Mas
o corpo cobrava horas de sono, e a alma… bem, essa já tinha sentido demais. Curiosidade:
quase não se fala da Ucrânia aqui. Quatro anos de dor tão perto e ainda assim
silêncio. Trauma tem sotaque baixo.
Regressei
ao quarto exausto. Abri o computador para ver notícias de Portugal… e fechei.
Miséria já tinha visto o suficiente por hoje. Despi-me devagar, como quem larga
pensamentos junto com a roupa. E deixei o silêncio cuidar de mim.
Antes
de adormecer rebobinei a conversa que tive com a Sophia ao jantar - como quem passa
o dedo na beira de um copo de vinho, tentando extrair uma nota escondida. Não
sou homem de destinos escritos em estrelas, nem de fados dramáticos com
violinos chorosos ao fundo. E, no entanto… há acontecimentos que parecem tão
precisamente coreografados que até o universo deve rir, convencido de que tem
mais graça do que nós lhe damos crédito.
Há
encontros - ou reencontros - que chegam como quem bate à porta de madrugada sem
avisar. Milhares de quilómetros podem separar vidas, rotinas, calendários, fuso
horários, mas, de repente, há um desvio perfeito que nos coloca à frente
daquela pessoa que parece já ter passeado pela nossa alma em algum lugar onde
ainda não fomos. E então eu penso: ou o acaso é um génio com sentido de humor,
ou então andamos a reincidir em vidas umas sobre as outras como quem repete um
poema porque ainda não acertou no tom.
Ninguém
entra na nossa vida por um acaso. Sophia… com uma historia de vida tão
semelhante à minha, mas em espelho: papéis trocados, tempos desencontrados,
geografias cruzadas. Se isto não for destino, é pelo menos uma coincidência com
perfume intenso, daqueles que se sentem mesmo depois de a pessoa ir embora. E
aí pergunto-me - com a seriedade filosófica de quem tenta parecer sábio e
fracassa com charme: afinal, o que é o tempo? E mais urgente ainda - em que
raio de tempo andamos a viver?
Se
há vida depois da morte, parece lógico - e ligeiramente assustador - imaginar
que há vida antes do nascimento. Talvez sejamos viajantes empenhados, repetindo
esta experiência humana até aprendermos a amar com mais paciência, a viver com
mais verdade, e a escolher as sobremesas certas sem culpa (essa parte é
importante). Talvez esta existência seja apenas o treino… e a próxima, quem
sabe, venha com um manual de instruções. Ou pelo menos com legendas.
De
vez em quando penso em fazer uma regressão - não a de idade, essa já faço
quando vejo chocolate - mas uma viagem às salas secretas da memória da alma.
Talvez ali estivesse uma pista, uma versão antiga de mim, ou uma Sophia de outra
época a olhar-me como agora, com aquele meio sorriso que parece dizer: “Já nos
vimos antes, não já?”
Não
sei se o sentido da vida é iluminar, amar, crescer, ou simplesmente não
tropeçar nas mesmas pedras com tantos estrondos. Mas sinto - ou desejo sentir -
que cada encontro raro assim é como um sinal discreto: continua. Talvez
estejamos a purificar-nos, ou talvez apenas a colecionar histórias até a alma
ficar madura e ligeiramente atrevida.
E
enquanto não descubro a verdade última do universo, deixo-me ficar aqui, entre
o mistério e o desejo, com a suspeita deliciosa de que Sophia não é deste mundo
apenas - e com a certeza teimosa de que, se a vida é uma escola, estamos pelo
menos a estudar com companhia bonita.
No
escuro, só o meu corpo, o cheiro suave do rio no ar e a sensação doce e cruel
de estar vivo e incompleto. Adormeci com esta musica linda…
https://www.youtube.com/watch?v=p_GnJTl2HqI&list=RDp_GnJTl2HqI&start_radio=1
E o luar - cúmplice eternamente indiscreto - ficou a espreitar pela janela, como quem diz: amanhã, meu caro, a viagem continua. E tu também.
Diário
de uma viagem – 65 dia – 30/08/2025


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