Não existe testemunha mais terrível, acusador mais poderoso, do que a consciência que habita em ti!
Estava
de partida de Cluj-Napoca para Chisinau na Moldávia. E logo ali, entre o
primeiro bocejo e a segunda tentativa falhada de convencer a minha consciência
de que podia dormir mais cinco minutos, ela lembrou-me do essencial: “Se
morreres no caminho por causa da guerra, ao menos vai com a barriga cheia.”
Sim,
a minha consciência é essa tia moralista e dramática com vocação para polícia
internacional. A minha mente humana romântica que sonha com aventuras, mas que é
controlada por um moralista interno que não me deixa confundir ambição com
ganância com a mesma facilidade que políticos confundem paz com poder.
Ainda
assim, antes do sol nascer, lá estava eu: arrumado, meio acordado, e
perfeitamente comprometido com a sobrevivência - começando pelo pequeno-almoço.
Afinal, ninguém enfrenta estradas longas nem proximidade de guerra com estômago
vazio.
A
sala do hotel era um poema contemporâneo - elegante, sofisticada, onde até a
salada de frutas parecia ter sido escolhida pela realeza. As vitaminas
alinhadas como soldados disciplinados, prometendo saúde enquanto eu apenas
desejava café forte e aquilo que se chama “romance gastrointestinal”:
croissants quentes, manteiga que derrete, e aquele suspiro discreto de quem
sabe que está a viver bem, mesmo que só por um instante.
Parti.
A estrada abriu-se leve, serpenteando como se quisesse seduzir o asfalto. A
natureza exibia-se em tons verdes que só podem ter sido pintados por um artista
apaixonado demais e - confesso - ligeiramente exibicionista. Campos ondulados,
flores que dançavam com o vento como se estivessem em audição para um filme
romântico, casas térreas com jardins impecáveis, tão cuidadas que até as
borboletas pareciam bater asas com etiqueta. Tudo tão bonito, tão puro… E a
consciência - claro - sussurrando: “Sabes que os humanos conseguem destruir
tudo isto por ganância, não sabes?” Romântico que sou, respondi com classe:
pois é… então regista no teu livrinho! Um país com muitas pessoas ambiciosas é
um país promissor com tendência ao crescimento saudável. Um país cheio de
gananciosos é um país corrupto.
Por
muito que te esforces por fingir um “Alto-Astral”, não existe testemunha mais
terrível, acusador mais poderoso, do que a consciência que habita em ti. Será
que estás preparado para seres ignorado, depois de te sentires endeusada nos
momentos de gloria?
Passar
da notoriedade para o anonimato sofrendo o mínimo de impacto, dependerá dos
teus valores pessoais, principalmente a capacidade de saber distinguir ambição
de ganância, sob pena chegar o momento de enfrentares o abismo da indiferença
por aqueles que outrora te idolatraram.
A
ambição está sempre em busca de mais bem-estar, mais saúde, mais qualidade de
vida, mais condições de trabalho, um país melhor, um mundo melhor. Na verdade,
é importante que as pessoas sejam ambiciosas para que consigam crescer e
arrastar as outras para topo consigo.
A
ganância não tem escrúpulos para atingir os seus objetivos; quase sempre
subjuga, usa ou coage o esforço e o talento dos que com ela partilham um
projeto de vida. Para alguns, o objetivo é o dinheiro e o poder, para outros,
uma vida de prazer e para muitos, uma combinação dos dois. Ah! Pelo meio
encontramos os miseráveis que usam o mesmo processo com medo de ficarem pobres,
Na
ambição há espaço para entender que tudo que nos circunda tem um prazo de
validade muito curto. A nossa existência tem um propósito onde todos temos uma
responsabilidade compatível com a capacidade de cada um. Se entendes que o propósito da vida é viver,
concluis que nasceste para morrer e que o propósito da vida é a morte, ou algo
que deve acontecer depois da morte. Então, teremos uma inconsistência na
existência da nossa consciência, esse mistério que nos dá a capacidade de
descobrir o nosso verdadeiro propósito de vida através dum permanente
crescimento, porque não existe testemunha mais terrível, acusador mais
poderoso, do que a consciência que habita em nós.
Por
tudo isto, controla o teu egocentrismo! Ter um dom é um presente do Universo,
mas ele não cresce sozinho. Aprende a dividir os teus êxitos com todas as
personagens que contribuíram no teu percurso para a glória.
No
depois do adeus, são esses que te aplaudirão, que irão avivar os teus feitos
num contexto de nobreza, sem te esforçares para seres lembrado com vaidade. Se
isso não acontecer é o sinal que o teu talento só reverteu em teu favor e não
causou qualquer efeito para o bem da humanidade.
E
voltei a falar comigo: “Consciência, deixa-me viver o momento. Guarda o
apocalipse para depois. Eu sei que vou encontrar na Moldávia um país com
problemas socias graves, onde existe um abismo entre a riqueza e pobreza.
Cheguei
a Târgu Neamț
na hora sagrada: almoço. A cidade respirava história - fortalezas medievais e
mosteiros que pareciam guardar segredos há séculos. Encontrei um pequeno
restaurante no coração de uma fortaleza. Madeira escura, toalhas de linho,
velas acesas em pleno dia só para provar que sofisticação não tem hora. O
cheiro da carne grelhada invadia o ar como um convite indecente - e eu, fraco
mortal, cedi.
Carne
suculenta, crocante nas bordas, tão tenra que parecia pedir carinho antes de
desaparecer na boca. A cerveja? Gelada como um amor impossível que nunca falha
quando precisamos.
Enquanto
comia, pensei: Ambição é querer desfrutar do mundo. Ganância é querer
possuí-lo… e destruí-lo no processo. Os homens, coitados, confundem as duas e
acabam nas guerras. Eu, por outro lado, confundo-me é com sobremesas - e
geralmente ganho.
Depois,
caminhei uma hora pelas ruas antigas. Calçada irregular, muros de pedra, torres
que sussurravam histórias de reis, monges, batalhas e votos de silêncio que
provavelmente ninguém cumpriu. A cidade era um museu vivo, e eu passeava como
protagonista de um romance histórico… com mais charme, claro.
Retomei
a estrada. A Moldávia esperava - terra de tradições romenas, povo moldavo, ecos
ucranianos e russos. Um país em transição, herói silencioso numa esquina da
Europa onde a economia luta e o futuro insiste. Paisagens suaves, colinas
preguiçosas, casas humildes, mas orgulhosas, jardins que teimavam em florir
mesmo perante dificuldades. O dia ardia a 30 graus, mas todos sabiam - como num
romance que promete drama - que a noite viria fria.
Cheguei
já noite cerrada. Frio que acorda, quase tão rápido quanto um pensamento
ciumento. O hotel boutique parecia tirado de um segredo bem guardado - pequeno,
acolhedor, elegante, respirando charme discreto. Ao lado do rio Bic, árvores
alinhadas como guardiãs silenciosas.
Uma
rececionista de olhos verdes da paisagem Moldava, que me chamou pelo nome como
quem encontra um amor antigo num livro esquecido. Sim, criámos empatia
instantânea - o poder divino do nome dito com doçura. Nada mais sensual do que
ser reconhecido.
A
realidade social pesada ficou lá fora, por um instante suspensa por um sorriso.
E a consciência? “Não te apaixones, estás aqui para entender o país, não para
te distrair com olhos celestiais.” Claro, consciência. Só a observar…
cientificamente.
Jantei
no bar - uma sandes simples, mas feita com carinho, acompanhada de uma cerveja
fresca. O bar era aconchegante, luz baixa, música leve, cheiro de madeira e
tranquilidade. O tipo de lugar onde até os pensamentos descansam.
Chisinau
prometia um dia intenso — cultura, resiliência, luta, beleza e cicatrizes
históricas. Um povo que dá tudo e ainda assim precisa procurar mais fora. E eu,
romântico teimoso com consciência neurótica, pronto para absorver tudo - o
encanto, a dor, o riso, o peso e o toque silencioso de um país que ama, mas
sofre.
Porque
viajar é isso: sentir, aprender, desejar, e lembrar que o mundo é frágil - e a
humanidade, quando troca ambição por ganância, paga sempre em sangue.
Enquanto
esta musica tecia os meus pensamentos eu questionava-me:
https://www.youtube.com/watch?v=7wfYIMyS_dI&list=RD7wfYIMyS_dI&start_radio=1
Afinal,
quem pode dizer para onde a estrada vai, para onde o dia flui?" "Quem pode dizer se o teu amor cresce,
conforme o teu coração escolhe?". "Quem pode dizer por que o teu
coração suspira, conforme o teu amor voa?" e "Quem pode dizer por que
o teu coração chora, quando o teu amor mente?".
Mas
hoje não. Hoje apenas descanso… com o sabor de cerveja na boca e o eco de um
sorriso verde na alma.
Diário
de uma viagem – 64 dia – 29/08/2025


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