Fiquei imóvel, com a expressão de um turista que acabou de perder o mapa e a sanidade!

 


Despertei em Burgas, Bulgária, com o corpo colado aos lençóis amarrotados de uma noite que parecia ter sido escrita por um poeta bêbado - metade sonho, metade feitiço. A luz fria da manhã atravessava a janela aberta, misturando-se com o perfume salgado do Mar Negro. O quarto parecia ter sobrevivido a uma pequena tempestade: roupa espalhada pelo chão, sapatos num duelo de abandono, e o meu caderno - sempre fiel testemunha das minhas confusões - aberto em cima da mesa.

No meio das páginas, uma nota solitária: “se transpiraste é porque o amor decidiu permanecer.” Ao lado, uma concha do mar, gravada num tom ferrugento: “estarei contigo sempre.” Por momentos pensei que tinha bebido demais - o vinho búlgaro tem esse talento para transformar o real em lenda - mas a palavra “sempre” dentro da concha tinha um eco familiar, como uma melodia antiga que o coração reconhece antes da mente.

Resolvi enfrentar o dia. Um banho frio para acordar os sentidos, e logo o aroma do pão torrado com manteiga e café forte arrastou-me, quase como um feitiço, até à sala de pequenos-almoços. O ambiente era de um conforto que parecia conspirar contra qualquer tristeza: cortinas bege dançando preguiçosamente com a brisa, cadeiras de vime polidas pela rotina dos verões, e uma música suave - talvez um jazz melancólico, talvez a alma de alguém perdida num saxofone. As mesas estavam cobertas de pequenas tentações coloridas: frutas cortadas em geometrias perfeitas, bolos caseiros, sumos de cor duvidosa, mas sabor divino, e ovos que pareciam ter sido postos por galinhas zen.

Foi então que a vi. Sentada sozinha, uma mulher com olhos cor de azeitona madura, cabelo rebelde como se o vento a tivesse escolhido para musa, e um sorriso que oscilava entre o pecado e a timidez. Vestia um tecido colado ao corpo, que parecia sussurrar segredos a cada movimento, e ao peito, um colar de conchas - as mesmas conchas, talvez, do meu enigma matinal em Constança.

Fiquei atônito!  Quando ela ergueu a cabeça e sorriu, a minha pele reagiu antes do raciocínio. Fingi coragem metendo a mochila às costas e abandonando a sala, como quem foge do próprio destino.

Lá fora, Burgas aguardava-me - misteriosa e luminosa. As ruas de pedra guardavam histórias romanas, pois antigamente chamava-se Aquae Calidae, as Águas Quentes. Passeei pelas termas antigas, toquei nas paredes que tinham sentido o toque de imperadores e fantasmas, e deixei o sol escorregar-me pela pele.

No inicio da tarde, o apetite venceu o mistério. Sentei-me num restaurante panorâmico junto ao porto de pesca. Pedi peixe fresco - grelhado na perfeição - e um copo generoso de vinho branco, frio e insolente. O porto fervilhava de vida: barcos coloridos, redes penduradas a secar, risos de marinheiros e o vento, cúmplice, convidando os mais corajosos a desafiar as ondas com pranchas de surf.



Mas a minha mente estava longe, na sala de pequenos-almoços, na mulher do colar. Quando terminei a refeição, o mar chamou-me o olhar. Uma garrafa flutuava ao longe, rodando preguiçosa nas ondas. Por instantes, acreditei que fosse a minha carta - aquela que lancei em Constança. Mas quando o vento a trouxe para mais perto, percebi: era apenas uma entre milhares. Garrafas, plásticos, destroços de um planeta que morre lentamente. O mar gemia, ferido, e eu olhei para o céu e pensei: Meu Deus, quanto tempo temos para salvar o que ainda respira? Eu gostaria de escutar na voz de cada um de nós “Eu prometo”

A natureza deveria ser um espaço ecológico, mas nem sempre é! Afinal quanto tempo temos para salvar o planeta? Eu quero ouvir a tua voz.  “Eu prometo” Eu prometo manter viva a consciência de que estás sempre em mim e eu estou sempre contigo!

Este momento menos bom que a Humanidade enfrenta com tantos desastres ecológicos, pode ser uma oportunidade para repensar os nossos hábitos, escolhas e valores. Acredito profundamente que tudo isto que estamos a viver, é um retorno dos estragos que temos causado na natureza.

É urgente uma mudança de mentalidade e de hábitos que facilite e melhore a situação para as gerações futuras. Nós conhecemos os procedimentos para tornar mais sustentável e habitável o planeta, mas nem sempre os colocamos em prática. De fato, a melhor herança que podemos deixar às novas gerações é um planeta habitável, porque a Terra não nos pertence somos nós que pertencemos à Terra.

Sabias que anualmente são produzidas 500 bilhões de garrafas de plástico no mundo. Em 2024 gerarmos mais de 500 milhões de toneladas de plástico, 900% a mais do que em 1980. Já há mais de 150 milhões de toneladas de resíduos plásticos nos oceanos. Em 2050, os oceanos poderão conter mais plásticos do que peixes.

A questão do lixo está diretamente ligada ao modelo de desenvolvimento que vivemos, vinculada ao incentivo do consumo e tudo que consumimos produz impacto, por não soubermos gerir.

O planeta sofre cada vez mais com a degradação do meio ambiente pela nossa ambição desmedida. Lamentavelmente ainda não conseguimos perceber que o que está em causa é a nossa própria existência como espécie. Desprezamos tudo o que a ciência nos está a ensinar em prol do que a economia nos pode oferecer.

Ao invés de pensares que a tua única ação não pode salvar o mundo, promete que te recusas a contribuir para a sua degradação, porque não temos muito tempo para o salvar.

Finalmente continuei a caminhar pela cidade. Burgas tem o dom de ser turística sem ser cínica. Visitei o Sea Garden, onde esculturas e flores disputam a atenção dos visitantes; o Píer, que se lança sobre o mar como um pensamento ousado; e, mais tarde, sentei-me numa esplanada diante das ondas, tomando café e observando o horizonte dissolver-se em tons de azul e ouro.

Ao cair da noite, regressar ao hotel pareceu um convite ao reencontro. Tomei um banho, vesti algo leve, e desci ao restaurante do primeiro andar. O ambiente era acolhedor, iluminado por velas e com vista direta para o Mar Negro - agora mais negro do que nunca, como se escondesse os segredos do dia. Jantei algo simples, mas a sobremesa - uma mousse de mel e nozes - foi digna de adoração.

Quando a funcionária se aproximou com o vinho, o sorriso dela tinha algo de enigmático. Arrisquei uma pergunta, num tom quase conspirativo: “A mulher do colar de conchas, que estava na mesa ao lado de manhã… é hóspede do hotel?”

Ela arqueou as sobrancelhas. “Eu servi aquela mesa, senhor. Mas quem estava lá era um casal de idosos, que já partiu esta manhã.” Fiquei imóvel, com a expressão de um turista que acabou de perder o mapa e a sanidade. Tentei rir, mas o som morreu a meio caminho da garganta. E por um instante, juro, achei que o sorriso da empregada com o olhar de “calimero” se parecia com o da mulher das conchas. Coincidência? Ou brincadeira do universo, esse velho misterioso?

Antes de subir ao quarto, passei pelo bar e pedi algo que queimasse e curasse - um rakia búlgaro, forte o suficiente para me fazer serenar. Ao abrir a porta, o coração parou: sobre a mesa, o colar de conchas. O mesmo. Ao lado, um bilhete amarrotado, com uma data ilegível e uma nota breve: “Desculpa, esta noite não arrumei a tua roupa.” A janela estava aberta. O mar rugia, impaciente. Fechei-a, sentei-me na cama, sem fôlego, e deixei a luz acesa.

Lá fora, o vento murmurava como uma voz feminina. Talvez fosse apenas o vento. Talvez não. Sorri, meio embriagado, meio encantado e pensei: “Por onde andará a garrafa com a carta de amor que lancei ao mar em Constança?” Talvez num outro mar, ou talvez já num outro tempo.

Já não tinha muitas horas de sono porque ao romper o dia teria uma longa viagem até Tessalônica na Grécia.

 

Diário de uma viagem – 69 dia – 02/09/2025

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