Confesso que eu nunca mais consegui olhar para uma chávena de café da mesma forma!
Adormeci em Constança, embalada pelo som das ondas do Mar Negro - esse mar que tem nome de mistério e alma antiga. A respiração das águas batia nos rochedos como um coração que nunca se esquece de amar, e a minha mente, rebelde e curiosa, decidiu fugir para além do real.
Entre
o sono e o devaneio, vi as coincidências dançarem com o destino como dois
bêbados que fingem saber os passos de uma valsa cósmica. Há encontros que não
são acasos - são lembretes. E há pessoas que aparecem com uma familiaridade
desconcertante, como se já nos tivessem amado noutra vida, noutro corpo, noutro
tempo em que o relógio ainda não tinha aprendido a ser cruel.
Há
relações que irrompem com uma intensidade quase indecente - como se a alma
dissesse: “Ah, finalmente! Voltaste!” - e o corpo, obediente, apenas se rende.
Tudo acontece depressa demais, profundo demais, como se o universo tivesse um
botão de “repetição emocional”.
Será
que o passado, o presente e o futuro são apenas um mesmo tecido dobrado em
três, onde as linhas do amor se cruzam em diferentes encarnações? Seremos nós
eternos aprendizes, condenados a amar as mesmas almas até que nos tornemos
sábios o suficiente para o fazer sem medo?
Quando
despertei, pensei que tudo não passara de um sonho - desses que deixam um travo
a interdito e a revelação. Mas o desejo de mergulhar numa regressão, de
entender quem me tocava nas profundezas do ser, persistia como uma febre doce.
Tomei
um banho - desses que lavam o corpo, mas não o espírito - e entreabri as
cortinas. O mar sorria-me com ironia, como quem sabe segredos que eu ainda não
decifrei. Sobre a mesa, imóvel, mas estranhamente vivo, o livro “A Love from
Another World” esperava-me.
A
capa negra parecia ter respirado durante a noite. Havia nela um brilho quase
insolente, como se tivesse absorvido a luz do luar e decidido guardá-la para
mim. Olhei-o, mas o aroma de café forte e torradas quentes distraiu-me,
puxando-me para a sala de pequenos-almoços.
A
sala tinha janelas largas que se abriam para o infinito. O Mar Negro parecia
querer entrar, com as suas ondas prateadas e o seu hálito salgado. As toalhas
eram de brancas, as chávenas de porcelana azul, e o aroma - ah, o aroma - era
uma mistura perfeita de café torrado, pão acabado de sair do forno e fruta
fresca brilhando como jóias tropicais, croissants bronzeados com vaidade, e eu,
ali - mortal entre vitaminas.
Subi novamente ao quarto. O mar, lá fora, murmurava coisas que só os corações teimosos conseguem entender. Sentei-me na beira da cama e passei os dedos pela lombada do livro. A capa negra estava fria, mas… latejava. Juro. Mas interrompi o desejo de o abrir porque Constança esperava por mim.
Saí
do hotel com a mochila às costas e um ar de quem vai descobrir a alma escondida
de uma cidade antiga. O sol ainda tímido derramava-se sobre as ruas de
Constança, essa senhora de cabelos de sal e olhos marítimos - a cidade
continuamente habitada mais antiga da Roménia e o coração pulsante do seu
principal porto marítimo. O ar cheirava a maresia, a peixe fresco e a segredos
que o vento traz e leva de volta para o mar.
Primeira
paragem: a Mesquita Carol I, que se ergue num tom pálido de pedra e orgulho.
Subi à sua torre e, do alto, contemplei o porto - um mosaico de navios,
gaivotas e promessas. Dizem que daqui o próprio tempo se curva para ver o Mar
Negro.
Depois,
caminhei até ao Museu de Arqueologia e História Nacional, onde as estátuas de
mármore e os mosaicos romanos parecem suspirar histórias de amor e traição. O
imperador Ovídio, exilado aqui, ainda vigia a praça com o olhar triste de quem
sabe o preço de escrever demais sobre o amor.
Segui
para o Cassino de Constança, essa joia art nouveau que o tempo transformou em
ruína elegante. O vento entrava pelas janelas partidas como quem toca piano num
salão vazio - e juro que ouvi risadas antigas misturadas com o bater das ondas.
Com o estômago a dar sinais de impaciência (e a alma já inebriada de história e sal), desci até ao porto, onde o mar e o apetite se encontram. Escolhi o restaurante “Pescarușul Alb”, um lugar encantador, com mesas de madeira clara e janelas abertas para o infinito azul. Um cheiro irresistível de peixe grelhado dançava no ar. Pedi um robalo fresco acompanhado de legumes salteados e um copo - ou dois, não sejamos tímidos - de vinho branco “Grasa de Cotnari”, um néctar romeno que desliza pela garganta como um segredo bem guardado.
O
ambiente era uma sinfonia de humanidade: famílias risonhas, executivos
apressados que comiam de relógio na mão, e conversas que se entrecruzavam como
se o ar fosse um confidente generoso. Notei que quase todos começavam a
refeição com uma sopa fumegante, sempre acompanhada por um pedaço de pão - uma
liturgia nacional.
Pensei
nas peculiaridades romenas: dizem que numa família só um filho pode casar por
ano. Será superstição ou estratégia económica para evitar múltiplas sogras
simultâneas? Mistério ancestral que talvez nem o vinho consiga explicar.
Depois
do almoço, recomecei a aventura. O sol já alto dourava as fachadas antigas
enquanto segui até ao Aquário de Constança, onde as criaturas marinhas pareciam
sussurrar lendas de piratas e sereias.
Passei pelo Farol Genovês, erguido por navegadores italianos no século XIII, que ainda hoje parece guardar os segredos de quem partia e talvez nunca mais voltava. Mais adiante, o Parque da Esplanada oferecia um descanso à sombra das tílias, com vista para o mar e para as estátuas que olham o horizonte como quem espera alguém.
Ao
meio da tarde, fiz o que qualquer viajante sensato faria: procurei café. E
encontrei o mítico Café d’Ovidiu, o mais antigo da cidade. O chão de mosaico,
as cadeiras de ferro trabalhado e o aroma de café forte criavam um cenário que
parecia saído de outro século. Os romenos adoram o cafea la ibric, preparado
lentamente num pequeno bule de cobre - espesso, aromático, quase um feitiço
líquido. Bebi-o devagar, como quem lê um olhar misterioso.
Com
as baterias em modo “pouco mais e durmo num banco de jardim”, regressei ao
hotel. No quarto, o livro de capa preta continuava sobre a mesa. Jurava que
brilhava, talvez pela luz do entardecer… ou talvez por algo mais. Não o toquei.
Ainda.
Desci
para jantar no restaurante do primeiro piso, com janelas panorâmicas que
deixavam o Mar Negro espreitar cada garfada. O jantar foi sublime: misto de
grelhados de peixe — dourada, salmão e enguia — acompanhado por outro copo de
Tamâioasa Româneasca, vinho branco aromático, floral, quase provocante.
O
staff era de uma simpatia desarmante; as mulheres, de uma beleza tranquila, com
sorrisos que pareciam esconder poemas inteiros. Antes de subir, passei pelo bar
e aceitei a sugestão do barman: um copo de țuica, aguardente romena feita de
ameixas, capaz de aquecer a alma e pôr
qualquer viajante a repensar decisões
existenciais.
De
volta ao quarto, o livro parecia agora reluzir mais forte, como se respirasse.
Fiquei parado. Abro-o… e talvez desperte algo que não devia. Ignoro-o… e
viverei para sempre com a curiosidade a roer-me como o mar rói a pedra. A
decisão ficou suspensa - entre o desejo e o medo, o amor e o abismo. E talvez,
pensei, a verdadeira viagem comece quando finalmente o abrir.
Enchi-me
de coragem e abri-o. O livro começou a pulsar como se tivesse um coração
próprio. As letras - essas pequenas criaturas rebeldes - começaram a mover-se,
dançando devagar sob a luz do sol. De repente, o quarto parecia um teatro de
vibrações: cada partícula do ar sussurrava um nome. O dela.
Subitamente
o chão desapareceu. Vi-me noutro tempo. Séculos atrás, talvez. A praia era a
mesma - Constança, mas mais selvagem, sem hotéis nem turistas de chapéu
ridículo e selfie stick. O mar era o mesmo, porém mais rude, mais masculino,
como se ainda estivesse a aprender a domar as suas fúrias.
E
eu… vestido de linho cru, com areia nos pés e desejo na alma. Ela aproximava-se
- olhar insolente, um sorriso capaz de desarmar a própria lógica divina. Trazia
na mão um colar de conchas. Disse-me, com uma voz que parecia feita de fogo e
promessa: “Trouxe-te o som do mar, para que nunca te esqueças de onde viemos.”
Ah,
como rimos! Eu, cético até à medula, respondi com o sarcasmo de sempre: “Se me
amas mesmo, traz-me um café primeiro.” E ela, a atrevida, beijou-me como se o
café fosse ela. A partir desse momento, confesso que eu nunca mais conseguiu olhar para uma
chávena de café da mesma forma.
Mas
o tempo - esse burocrata cósmico - é impiedoso. Veio a guerra, veio o silêncio,
veio a morte. E o nosso amor ficou preso
numa dobra do universo, condenado a reencarnar até aprender a não se perder.
Diário
de uma viagem – 67 dia – 01/09/2025


Comentários
Enviar um comentário