É preciso chegar aqui!

 

Despertar em Chisinau foi uma experiência avassaladora - daquelas que te fazem duvidar se estás realmente acordado ou apenas sonhaste uma versão melhor de ti mesmo. Depois de um dia agitado, carregado de pensamentos místicos e cafés fortes demais, mergulhei num sono leve e, ainda assim, acordei mais cansado do que me deitei. Paradoxo humano - dormimos para descansar, mas acordamos em guerra com o despertador e com o universo.

Mas há uma força que me move todas as manhãs: o pequeno-almoço. Para mim, é quase um ato de devoção, um ritual sagrado entre o corpo e o espírito, entre o café fumegante e o pão acabado de sair do forno. Mesmo com os olhos semicerrados, sigo o aroma do café como um místico segue o som do mantra.

E que pequeno-almoço aquele! A sala parecia saída de um sonho colorido -paredes em tons quentes, cortinas translúcidas que deixavam o sol brincar com os reflexos da louça, mesas cobertas de frutas que pareciam ter sido polidas à mão por anjos moldavos. Havia sumos naturais em jarras de vidro, bolos que sorriam antes mesmo de os cortarmos, e um coro discreto de música serena que fazia dançar o ar. O povo da Moldávia tem essa rara virtude: sabem receber. Sorrisos genuínos, gestos simples, aquela gentileza que não se aprende - nasce com eles. Era como se cada “bom dia” viesse embrulhado em luz.

Mas o relógio, esse tirano sem compaixão, lembrava-me que tinha uma longa viagem até Constança. Não houve tempo para despedidas longas - Sophia estava de folga. Apenas uma chamada breve, com promessas soltas no ar: “vemo-nos por aí, neste universo que é tão vasto quanto o nosso desejo de o compreender.”

Malas no carro, música batida para espantar a sonolência, e aos poucos vi Chisinau a desaparecer pelo retrovisor - como um amor de verão que não se apaga, mas se transforma em lembrança. A estrada estendia-se diante de mim como uma fita de seda, serpenteando entre campos dourados e casas modestas pintadas com uma harmonia que só o acaso poderia compor. O sol, tímido, escondia-se por trás de nuvens rendadas, enquanto flores silvestres nas bermas pareciam acenar-me despedidas silenciosas.

No coração, levava a imagem de um jovem que vi na Catedral da Divina Providência - ajoelhado, carregado de fé, tão absorto na oração que parecia conversar com o próprio cosmos. A cena transportou-me anos atrás, para um tempo em que eu também buscava respostas nas paredes frias de uma igreja. Talvez todos sejamos esse jovem, à procura de um sinal de que a vida tem um propósito maior do que o simples acaso de existir. Para isso é preciso chegar aqui… transportando-me no tempo para uma sala de espera no IPO do Porto.

Aqui somos todos iguais e todos diferentes, sem carros de luxo, sem relógio nem roupas de marca, sem silhuetas “sex symbol”, sem a importância de ser importante. Aqui o conceito de vida é viver e só somos importantes na medida em que nos tornamos importantes para alguém, o que implica estar conectado e contribuir para a importância do outro.

Tudo começa rapidamente, o tempo de ler o resultado até chegar naquele lugar zen onde as pessoas, com um aspeto intimidado, olhavam-se com se estivessem a comunicar com o olhar carregado de incertezas. O meu ritmo cardíaco acelerava sempre que alguém me fixava; afinal era tudo novo para mim.  Olhávamos uns para os outros com uma vontade de querer ajudar, porque eramos todos simplesmente humanos, sem mais títulos para além desse.

Neste silêncio caustico carregado de solidão, corria na minha mente os cenários mais marcantes do filme da minha vida, da impermanência de cada momento no transito entre o nascimento e a morte. É preciso chegar aqui para entendermos que somos uma ínfima parte da natureza, não controlamos nem a nossa mente, quanto mais o nosso futuro.

Vivemos numa sociedade estruturada no material, no consumismo, nas mais valias e rodeado de embustes; é preciso chegar aqui para percebemos que a nossa vocação é articular energia, ensinamentos e emoções. A nossa importância é avaliada pela mensagem que carregamos; somos tão importantes quanto a importância da nossa missão.

Lá fora somos seres insaciáveis, vivemos uma vida em busca do nada, envolvidos num profundo vazio. Ricos ou pobres somos especialistas em sofrer, temos pós-doutorado em chorar com o travesseiro no rosto para abafar os soluços. Disfarçamos a nossa infelicidade na capacidade de nos tornarmos seletivos.

Mas apesar de tudo isso nós não somos o problema, porém, temos alguns problemas. Temos dificuldade em aceitar que somos seres humanos iguais, seres sociais criados para o relacionamento e que todos estamos aqui com um único propósito. Cada um de nós descende de duas pessoas e essas duas pessoas descendem de mais quatro, e no meio disso há mais pessoas; afinal somos uma grande família.

Depois de atravessar a fronteira de volta à Roménia, fiz uma pausa em Braila - cidade à beira do majestoso Danúbio, com o seu centro histórico que respira elegância desbotada e histórias sussurradas pelas fachadas antigas. Encontrei um restaurante modesto num largo ajardinado, daqueles que não precisam de publicidade porque a alma do lugar fala por si. Toalhas de pano, guardanapos vincados com amor, o cheiro do peixe grelhado a invadir o ar, e uma cerveja sem álcool que parecia ter sido feita especialmente para reconciliar corpo e espírito. O staff - simpático, prestativo - fazia-nos sentir parte da família.

Depois do almoço, caminhei por algumas ruas da cidade. Passei pelo Teatro Maria Filotti, admirei os edifícios de arquitetura neoclássica e o velho porto banhado pela luz dourada da tarde. Só tive tempo de visitar o essencial - aquilo que o coração escolhe como importante, e não o guia turístico.



E então, retomei o caminho até Constança - uma das cidades mais antigas da Roménia, porto marítimo do Mar Negro e guardiã de histórias que o tempo insiste em não apagar. A viagem foi serena: o sol agora mais corajoso, o vento a embalar pensamentos, e a música no carro a servir de trilha sonora para um filme que só eu via.

Foi nesse silêncio entre notas musicais que me deixei adormecer (mentalmente, claro) sobre o mistério da nossa existência - esse enigma que todos sentimos, mas poucos ousam decifrar. A vida, afinal, é uma sucessão de encontros e desencontros, de coincidências que nos moldam, de instantes que parecem obra do acaso, mas talvez sejam sinais de um plano que apenas o universo conhece.

Pergunto-me se há vida antes de nascermos - e se, ao morrermos, apenas mudamos de roupa cósmica para continuar a jornada. Talvez o propósito de tudo seja exatamente este: viajar, amar, rir, perder, reencontrar, e, acima de tudo, despertar.

Despertar não apenas em Chisinau, mas dentro de nós mesmos - para o sabor do café, o sorriso de um estranho, a cor de uma flor à beira da estrada, o toque da brisa que nos recorda que existimos. Porque a vida, no fundo, é isso: uma longa viagem espiritual com paragens deliciosamente humanas. E quem sabe… talvez o universo seja apenas uma imensa mesa de pequeno-almoço, onde todos nós, almas famintas, voltamos sempre para nos servir mais um pouco de amor, mistério e luz.

À medida que me aproximava de Constância, a paisagem parecia lentamente mergulhar num tom de mistério - como se o próprio ar soubesse segredos que se recusava a partilhar. As montanhas iam-se diluindo em sombras e o céu, tingido de um azul profundo e melancólico, anunciava uma noite que prometia mais do que descanso: prometia revelações.

A minha curiosidade fervilhava. Estava decidido a fazer uma regressão espiritual - algo entre o místico e o insano, admito. Sentia uma ânsia quase infantil de aceder às minhas vidas passadas, de entender as experiências que me moldaram, talvez até de descobrir porque é que ainda hoje não consigo confiar em ninguém que tenha um gato preto.

Mas não vou mentir: aquela curiosidade vinha temperada com um pânico delicioso. E se tivesse sido um vilão numa existência anterior? Ou pior - um contabilista? A ideia de lidar com memórias misteriosamente desconhecidas, de abrir portas interiores que talvez devessem continuar trancadas, deixava-me com o coração a bater num ritmo que nem o melhor vinho romeno conseguiria acalmar.

E com esses pensamentos, cheguei finalmente a Constância. Confesso que tinha saudades de ver o mar - ironia, tendo eu nascido num país à beira-mar plantado. O Mar Negro esperava-me ali, imenso, sombrio, com aquele ar de quem sabe coisas que não devia. Fiz questão de reservar um hotel com vista direta para ele, claro; não queria perder a oportunidade de ser observado por algo mais antigo que o próprio tempo.

A cidade recebeu-me vestida de luz. As ruas cintilavam como se alguém tivesse espalhado estrelas pelo chão. O hotel era um colosso moderno, envidraçado de alto a baixo, como se quisesse engolir o mar inteiro dentro de si. Fui recebido com a habitual doçura romena - sorrisos fáceis, olhares sinceros e uma hospitalidade invejável.

Cansado, subi ao quarto. Mal abri a porta, reparei num detalhe que me arrepiou a espinha: sobre a mesa, repousava um livro. A capa preta, gasta nas bordas, tinha o título em letras prateadas — “A Love from another World”. Fiquei ali, imóvel, entre o espanto e a suspeita. Coincidência? Talvez. Mas o universo tem um humor peculiar — e eu já aprendera a não rir demasiado cedo.

Afastei o pensamento e decidi jantar ali mesmo, no restaurante do hotel. A sala era um espetáculo de luxo discreto: cortinas de veludo carmesim, candelabros pendendo como teias douradas, e o som de um piano que tocava uma melodia vagamente melancólica — como se alguém o tocasse com saudade de um amor que nunca existiu.

O jantar foi uma ode aos sentidos: peixe grelhado com ervas finas e limão, tão fresco que parecia ter sido pescado naquela mesma noite sob o olhar do mar sombrio. A acompanhar, um vinho branco tão leve e perfumado que deslizava pela garganta como o sussurro de um anjo — um anjo ligeiramente ébrio, diga-se, mas de bom gosto.

Enquanto saboreava cada gole, não consegui deixar de pensar no livro no meu quarto. A Love from another World. Um título assim não aparece por acaso. Seria um aviso? Um convite? Ou apenas uma dessas armadilhas do destino que começam com uma boa história e acabam com uma alma perdida?

Sorri com ironia. “Bem,” pensei, erguendo o copo ao reflexo do mar através do vidro, “se for um amor de outra vida, espero que ao menos me pague o jantar desta.”

 

Diário de uma viagem – 66 dia – 31/08/2025

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