Viajei por um passado vivido, num presente sentido!
O silêncio era profundo — um silêncio que não pesa, mas transporta. Levei-me a viajar não só no espaço, mas num passado vivido, num presente sentido e num futuro que talvez estivesse a desviar-se de mim.
O
sol ainda não tinha despertado em Nuremberga, e já eu deslizava pelas ruas
silenciosas, com o coração cheio, leve e grato, rumo a Munique. A cidade
dormia, envolta numa penumbra azulada, e eu acabara de abandonar um salão
medieval onde tomara um pequeno-almoço digno de uma despedida lenta.
As
mesas estavam cobertas com toalhas brancas impecáveis, contrastando com os
vitrais coloridos que começavam a ganhar vida com a luz tímida da madrugada.
Havia frutas frescas cortadas em formas delicadas, que pareciam ter sido
preparadas por mãos pacientes e apaixonadas; pães ainda mornos, de crosta
dourada, que libertavam um perfume quase hipnótico; queijos artesanais de
aromas intensos; compotas vermelhas e douradas, como pequenas joias
comestíveis. No centro, um balde prateado guardava uma garrafa de champanhe
gelada — cúmplice silenciosa do meu brinde à despedida. Ergui o copo sozinho,
em honra à cidade que ficava e à parte de mim que decidira permanecer com ela,
escondida entre as pedras antigas e os sorrisos sinceros do staff, cuja
simpatia substituía com facilidade o sol que ainda haveria de nascer.
A
viagem começou ao som de música italiana — melodias suaves, quase
cinematográficas — e uma paz invulgar tomou conta de mim, uma paz que não era
vazia, mas libertadora, como se os pensamentos que sempre temi pensar tivessem
finalmente encontrado espaço para respirar. A estrada era bela de um modo
contido: o sol espreitava envergonhado por entre nuvens finas, a paisagem
alternava entre campos cuidados e pequenas florestas em tons de verde e cobre,
e, aqui e ali, casas isoladas, cobertas por vegetação impecavelmente tratada,
surgiam como memórias suspensas no tempo. O silêncio era profundo — um silêncio
que não pesa, mas transporta. Levei-me a viajar não só no espaço, mas num
passado vivido, num presente sentido e num futuro que talvez estivesse a
desviar-se de mim.
Porque
havia silêncio entre nós, mas não era ausência, era presença muda, como se as
palavras soubessem que, ali, já não eram necessárias. Tu não dizias nada, mas o
teu silêncio falava comigo de uma forma que as palavras nunca souberam, mas eu
aos pouco a minha memória ia fotografando.
Sentia
uma dança silenciosa, parecia o início de um pensamento que ainda estava a
tentar entender. Havia sentimento, mas também distância, talvez cuidado, talvez
dor.
Fotografar
o teu silêncio é como capturar o peso de um suspiro, ou o eco de um pensamento.
É entrar num território íntimo, onde a imagem deixa de ser apenas um registro
visual e se torna um reflexo emocional - quase uma confissão muda.
Cada
clique tem que viajar dentro de ti e as imagens, umas vezes a preto e branco
outras coloridas, pode revelar muita coisa: paz, solidão, espera, resignação,
cura, perda, contemplação.
Umas
vezes a câmera pode fotografar um silêncio calmo, aquele que embala a alma: uma
tarde em que o sol toca as coisas com doçura, o olhar de alguém que não precisa
dizer nada, o momento em que o mundo desacelera e tudo parece finalmente em
paz.
Outras
vezes a câmera pode fotografar um silêncio pesado, cheio de ausência: um quarto
onde alguém já não está, uma cadeira vazia, a luz fria de um hospital, uma
estrada sem volta. Esses silêncios são cheios de sentimento, mas não gritam —
apenas ficam ali, parados, olhando de volta para ti.
Fotografar
o teu silêncio permite-me descobrir que a imagem vai para além da forma, porque
contem memória, melancolia, esperança, ou até aquilo que não conseguimos
definir. A imagem deixa de ser um espelho e passa a ser uma janela, por onde
alguém, em silêncio, talvez te reconheça. No teu silêncio eu aprendi a ouvir
tudo o que estava errado entre nós, mas mesmo em silêncio tu ficas, às vezes,
porque um dia irás partir.
No
fim da manhã, avistava Ingolstadt. A cidade, com a sua história entre muralhas
e o Danúbio a correr por perto, parecia observar-me em silêncio. As torres
góticas e as fachadas coloridas misturavam-se com a leveza de uma cidade
universitária moderna. No centro, encontrei um pequeno restaurante, quase
escondido numa ruela de pedra. Era modesto, de madeira escura e flores à
janela, mas tinha o encanto das coisas verdadeiras. A comida era simples e
deliciosa — salsichas grelhadas com um toque de mostarda caseira e pão
estaladiço — acompanhada de uma cerveja alemã clara, fresca e viva, servida por
um staff jovem e sorridente, que trabalhava com uma naturalidade encantadora.
Almocei
devagar, como quem deseja parar o relógio. A leveza da refeição e o calor suave
do interior fizeram-me estacionar no tempo por umas horas, recarregando energias
para a etapa final da viagem.
Quando
retomei o caminho para Munique, o céu já se tinha fechado num manto de nuvens
densas. O sol desaparecera completamente, e a paisagem ganhara um tom
nostálgico, quase cinzento, como se refletisse a saudade que crescia em mim a
cada quilómetro. A estrada parecia mais curta do que as recordações que me
atravessavam — Munique aproximava-se, e com ela a memória de dias em que fui
verdadeiramente feliz.
Cheguei
quando as primeiras luzes da cidade já se refletiam no rio Isar. O hotel onde
iria pernoitar erguia-se imponente, um edifício colossal de arquitetura
contemporânea, surpreendente e elegante, como só a Alemanha sabe ser quando
mistura passado e modernidade.
Por
dentro, caminhei longos corredores até à receção, onde uma equipa acolhedora me
recebeu como se fosse um velho amigo. O cansaço, porém, já se infiltrara nos
ossos. Perguntei, com voz calma, onde poderia jantar, e de entre os
computadores surgiu uma voz suave, filtrada, quase etérea: “Aqui”
Sorri.
Não poderia haver restaurante mais próximo. Subi ao quarto para deixar as
malas, e foi então que reparei numa fotografia antiga por trás da cama: uma
imagem a preto e branco da cidade no tempo de Hitler, onde, desbotada, ainda se
lia a palavra “Stundenhotel”. Respirei fundo. O passado, mesmo apagado, nunca
desaparece completamente — apenas espera que o olhemos com coragem.
Desci
para jantar. O restaurante era tranquilo, quase silencioso. Havia uma música de
fundo leve, tilintar de pratos e talheres, e as vozes doces do staff, que
trabalhavam com uma calma quase coreografada. Comi sozinho, mas não me senti
só; havia algo naquela solidão que era cúmplice e íntimo.
De
regresso ao quarto, olhei novamente para a imagem atrás da cama. Por um
instante, deixei-me levar por aquele passado enigmático, sombrio e
irresistivelmente intrigante.
Antes
de adormecer, abri as notícias de Portugal. Lá, o sol brilhava como sempre e os
turistas entulhavam praias e cidades do litoral. Uma pergunta silenciosa nasceu
em mim: quantas oportunidades estamos a desperdiçar? O interior do nosso país,
abandonado e esquecido, poderia ser a resposta para um turismo mais verdadeiro,
mais humano, mais português. Porque escondemos a nossa ruralidade? É lá, nesses
lugares quase secretos, que vive a nossa alma — gente genuína, gastronomia
única e uma sabedoria antiga que tece histórias sem precisar de luzes.
Apaguei
o ecrã. A noite alemã envolveu-me num manto denso e silencioso. E por um
momento, entre o ontem e o amanhã, senti-me suspenso — como quem vive um
pensamento premeditado… mas impensável.

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