Uma fragrância de sensualidade!
Parti
ainda antes do mundo acordar, quando as luzes de Copenhague piscavam sonolentas
nas ruas molhadas, como se me pedissem para ficar mais um pouco. A madrugada
dançava devagar sobre a cidade, e o céu — coberto por um véu de nuvens densas e
cinzentas — vestia a Dinamarca com uma melancolia silenciosa, quase cúmplice da
minha partida.
A
estrada até Gotemburgo era uma tapeçaria viva de verdes e castanhos, árvores
aveludadas por uma neblina que parecia suspirar por entre os ramos, como se
sussurrasse histórias esquecidas de viajantes apaixonados. O tempo, encoberto,
mas sem pressa de chover, dava à paisagem uma beleza crua e íntima, como um
corpo despido sob lençóis de linho.
Cheguei
a Helsingborg um pouco depois do meio-dia, com o mar à esquerda a respirar
lentamente, em tons de chumbo e prata. Estacionei o carro junto a uma avenida
larga, onde o cheiro salgado do mar misturava-se com o perfume das árvores e o
leve aroma de pão quente vindo das esquinas.
Pelas
ruas interiores da cidade, encontrei um restaurante escondido, como um segredo
bem guardado. Charmoso, acolhedor, com cortinas leves e móveis de madeira
escura, tinha o calor exato de um abraço esperado. Pedi arroz de tamboril, como
o fazemos em Portugal, e para acompanhar, um vinho tinto do Alentejo — “Duas
Quintas” — que me aqueceu por dentro como só uma lembrança bem-vinda sabe
fazer.
Cada
garfada, fui-me levado para meados de fevereiro, numa praia do norte de
Portugal, onde um sol improvável aquecia não só a pele, mas também o desejo.
Lembrei-me daquele encontro à beira-mar, onde os olhares disseram mais do que
as palavras permitiram. A brisa salgada, os dedos que tocavam de leve na anca,
e os lábios que quase, quase…
Ela
apareceu, como por magia, do meio do nada, perdida na estrada, como uma
silhueta que esconde o corpo entre os raios de sol. O seu perfume, Yves Saint
Laurent, mexeu comigo. Linda, de olhos cor de mel, cabelo rebelde, corpo desenhado
e contornado por um vestido de toque aveludado. Uma fragrância de serenidade,
sensualidade, paixão e esperança, como um diamante iridescente que me envolve
num manto zen irresistível.
Um
olhar fixo no horizonte, um pensamento em constante oscilação, revela no
silêncio a saudade de voar e trazer para dentro de mim, a esperança de
reencontrar o que ficou perdido no tempo e me apaixonou. Ela dava-me a mão e eu
fixava seus olhos brilhantes com um poder único de evocar memórias, despertar
sentimentos, expressar emoções e até de refletir o sol de inverno.
Ficou
a sensação de um reencontro de uma vida passada, pela estranha coincidência de
um momento inusitado. Ela surgiu por um acaso disfarçado na engrenagem do
destino. A vida é um constante encontro e desencontro de experiências entre
pessoas. Algumas representam apenas saudade; passam por nós e deixam a
lembrança da amizade e dos bons momentos que guardamos para vida inteira; são
personagens cíclicas da nossa vida, que não podem permanecer para sempre,
porque somos mutáveis, mas, outras… outras ficam para sempre porque são
especiais. É isto que torna a nossa passagem incrível!
Terminado
o almoço, deixei-me levar de novo pela estrada. O caminho até Gotemburgo foi
uma travessia quase cinematográfica. As sombras já se alongavam quando vi as primeiras
luzes da cidade, e as estrelas, que finalmente se mostravam, pareciam sorrir
para mim como cúmplices de algo por acontecer.
O
hotel era uma surpresa dentro da surpresa: elegante sem esforço, com uma
arquitetura que misturava o clássico com o moderno em gestos de pura sedução.
No lobby, um perfume discreto de jasmim pairava no ar. A rececionista — uma
mulher de olhos verdes e sorriso morno — recebeu-me com uma simpatia que me
deixou sem fôlego por um instante. Ela indicou-me um restaurante a poucos
minutos dali, dizendo, com um piscar de olhos, que ali se comia bem e se bebia
ainda melhor.
O
restaurante tinha paredes em pedra e luz baixa, música em francês ao fundo e
uma mesa à minha espera como se já soubesse de mim. A comida era deliciosa, mas
foi a cerveja, densa, dourada e de sabor redondo, que me fez fechar os olhos
por um segundo e sorrir como quem guarda um segredo. Era como um beijo
inesperado: fresco, intenso, e impossível de esquecer.
A
noite não pediu mais. O corpo queria descanso, mas a alma… essa já planeava os
passos do dia seguinte. Deitei-me com o murmúrio da cidade a embalar-me,
sentindo que cada momento daquele dia — da estrada à praia da memória, do vinho
ao olhar da rececionista — era mais do que uma viagem. Era um capítulo sussurrado
de uma história que ainda se escreve… entre o desejo e o destino.
Diário
de uma viagem – 26 dia – 22/07/2025

Maravilhoso
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