Um sonho que doía pela sua verosimilhança!

 


Despertei em Cracóvia, cidade onde cada pedra carrega memórias de séculos, num quarto que se abria em janelas para o Castelo de Wawel, erguido imponente como um guardião silencioso de histórias de reis e amores que o tempo já levou. Acordei de um sono castigado por um sonho tenebroso – daqueles que se confundem entre realidade e fantasia, entre o desejo e a cruel consciência de que certos sentimentos são apenas miragens. Senti-me feliz por me desprender daquele pesadelo improvável de se realizar, mas que ainda assim doía pela sua verosimilhança.

O banho matinal devolveu-me frescura, e o pequeno-almoço colorido e nutritivo ofereceu-me a energia para a descoberta desta cidade que pulsa vida. Cracóvia recebeu-me com sua atmosfera vibrante: a Praça do Mercado, uma das maiores da Europa, com suas flores, músicos de rua e o aroma a pão fresco que se espalhava; a Basílica de Santa Maria, onde os vitrais filtravam a luz em tons de esperança; as ruas medievais, ladeadas de cafés e livrarias, onde cada passo parecia um mergulho em outra época. Porém, a sombra do sonho perseguia-me — em cada esquina eu parava, tentando decifrar-lhe o enigma, como quem tenta entender um amor que nunca foi inteiro.

Foi uma longa noite a escutar a minha história! A escuridão esconde as formas e não há forma de tu veres o que vai acontecer, mas, não existe noites longas que não alcancem a luz do dia. Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma misteriosa explicação, porque existem apenas duas maneiras de influenciar o comportamento humano: manipular ou inspirar.

A manipulação ou chantagem emocional, pode estar presente de maneira sutil ou explícita em qualquer relacionamento, interpessoal ou profissional, com uma enorme criatividade artística de engessar opiniões, minimizar ideias, assassinar argumentações.

Escrava de sua própria arrogância, a manipulação ou chantagem emocional, são discretas violências que segregam vidas, criam escravos do seu pensamento, enterram talentos e destroem sentimentos com o objetivo de influenciar de forma consciente, para satisfazer desejos e vontades incabíveis.

São notórias a inteligência e a envolvência que pessoas chantagistas possuem. Elas, geralmente, são treinadas na arte de esconder suas verdadeiras intenções, criando nos outros a falsa sensação de estarem permanentemente em débito. Possuidoras de um défice de afetividade, estão sempre ausentes na dor e na vulnerabilidade, como vampiros energéticos, transportando para os demais a sensação de esgotamento emocional e submetendo-os a situações degradantes em busca dos seus próprios benefícios.

Se há pessoas manipuladoras que passam na nossa vida causando devastações, outras chegam e encaixam silenciosas no nosso coração, numa harmonia perfeita entre a nossa respiração e a fonte da inspiração, porque amar é uma daquelas coisas que só aprendemos a sentir sentindo quando estamos inteiros e em liberdade.

Libertando-me do meu sonho nessa noite mal dormida, deixei-me conquistar pela cidade. Subi as colinas do Wawel, caminhei pelos claustros, admirei os dragões lendários e respirei o ar carregado de memória. Segui até Kazimierz, o bairro judeu, um lugar onde a melancolia se mistura com a arte. Ruas estreitas, fachadas antigas que guardam cicatrizes do passado e cafés com velas acesas mesmo em plena tarde. Entrei num restaurante modesto, mas cheio de alma: sopa quente, pão estaladiço, pratos simples, mas preparados com carinho. O sabor, ainda que singelo, encheu-me mais do que a comida: foi o acolhimento de uma cidade que me abraçava.

Depois do almoço, deixei-me guiar. As suas águas refletiam a cidade como um espelho quebrado de memórias: o castelo, as torres góticas, a ponte que levava a outras margens, a promessa de novos caminhos. A brisa fresca acariciava-me o rosto como uma despedida suave do que ficou para trás. No centro histórico, a Cidade Velha, com as suas ruelas cheias de artistas e vendedores, parecia sussurrar-me: “a vida é feita de encontros, mas também de despedidas”.

Quando a noite caiu, aceitei a sugestão do jovem rececionista do hotel. Um restaurante polaco acolhedor, com madeira escura, velas na mesa e música suave de violino ao fundo. O jantar foi um festim de tradições: pierogi recheados de sabores, pato assado com maçãs, e um vinho local que aquecia o coração. Mas, mesmo no meio do prazer dos sentidos, a lembrança do sonho insistia, como uma carta não escrita que repousa na alma.

Antes de regressar ao quarto, sentei-me no bar do hotel. O ambiente era íntimo, luzes baixas refletidas em cristais. Pedi um whiskey que me queimou a garganta e me embalou os pensamentos. Sorvi-o lentamente, como quem saboreia o último gesto antes de partir. Era o fim de um dia intenso, belo e contraditório: a cidade dera-me beleza, mas o coração ainda carregava a dor de uma expectativa falsa, de um amor que não existia senão no imaginário.

E, ainda assim, compreendi algo essencial: os sonhos, mesmo os que nos ferem, são mestres. Ensinam-nos a não nos perdermos em ilusões, a reconhecer que cada despedida é também um convite a recomeçar. Deitei-me sabendo que ao nascer do sol partiria em viagem — não apenas pelas estradas da Polónia, mas pela estrada maior da vida, onde a coragem não é esquecer, mas continuar.

 

Diário de uma viagem – 47 dia – 12/08/2025

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