Tudo que o tempo trouxe, o tempo levou!
Era
madrugada em Oslo. O relógio mal tinha tocado as cinco quando deixei a cidade
ainda envolta no manto silencioso da noite. O ar frio da Noruega parecia
sussurrar segredos ao ouvido, e a estrada, que me guiaria até Estocolmo,
estendia-se diante de mim como um convite ao desconhecido.
O
meu carro, lavado no dia anterior, brilhava como um espelho sob a luz tímida
dos primeiros raios de sol. Já não se via a poeira da viagem — reencontrei a
sua verdadeira cor, viva e orgulhosa. Dentro, uma música romântica enchia o
espaço, quase como se o motor e a melodia respirassem juntos. Conduzir assim,
devagar, sem pressa, é abrir espaço para pensar no nosso tempo:
Tudo
que o tempo trouxe, o tempo levou! Levou a nossa infância para trazer a nossa
adolescência, levou a nossa resistência para trazer a nossa sabedoria, o tempo
levou o passado, mas trouxe a nossa memória, o tempo levou a paixão, mas trouxe
o amor.
Mas
o tempo é como o vento, muda a sua direção para o bem ou para o mal. Também
leva o amor e traz o ódio, leva a abundancia e traz a miséria, leva a paz e
traz a guerra, leva a saúde e traz a doença, leva a vida e traz a morte, mas,
neste vai e vem, o tempo carrega sempre com ele a “esperança”.
Porém,
se alguém apaga o tempo que apostamos na felicidade, perdemos o norte do tempo,
se o tempo já não tiver tempo para nos repor esse tempo. Por isso, eu aceito as
minhas lágrimas ao longo da minha vida, porque os meus olhos são o meu
percurso; o amor começa sempre com um olhar, continua com um beijo e morre com
uma lágrima. Verdade?!
A
“esperança” é a força que nos abandona em último lugar, embora seja uma força
difícil de controlar, não é ignorável o impacto positivo que tem dentro de nós,
porque fortalece a nossa determinação. Esta é a razão que nos ajuda permanecer
comprometidos com a vida, apesar da natureza imprevisível da existência humana.
Eu
sei que não é fácil ser surpreendido por falsas expectativas. Nascemos e
morremos na imprevisibilidade dos acontecimentos no tempo. Este estado de
incertezas, transforma a nossa vida numa grande usina de energia interior, que
nos programa constantemente na busca de meios para superar os imprevistos
circunstâncias.
A
estrada era uma pintura viva, como pano de fundo dos meus pensamentos — tons de
cobre e dourado, vestígios do verão misturados com o frescor nórdico. A luz
incidia sobre lagos imóveis, e os pinheiros altos formavam paredes verdes que
me acompanhavam como guardiões.
Por
volta do meio-dia, cheguei a Karlstad. Uma cidade tipicamente sueca, de beleza
simples e desarmante. Tudo nela parecia em harmonia: ruas limpas, casas
perfeitamente alinhadas, jardins que mais pareciam ter sido penteados com
cuidado.
Escolhi
um pequeno restaurante junto ao rio Klar, um refúgio com uma decoração discreta.
Pedi salmão grelhado, acompanhado de batatas assadas com ervas frescas e
legumes ao vapor, tudo regado com um molho de endro delicado. Para acompanhar,
uma cerveja local, dourada e fresca, com espuma cremosa que se desfazia devagar
no copo.
Depois,
caminhei pela cidade. Quis gravar na memória o reflexo do sol sobre o rio, o
som dos passos ecoando nas ruas tranquilas, e o aroma de café que escapava das
pequenas padarias, antes de seguir a minha viagem.
Quando
cheguei a Estocolmo, já as estrelas brilhavam no céu, cintilando como se me
recebessem com um sorriso silencioso. Hospedei-me num hotel elegante à beira do
rio Norrström, um edifício de fachada imponente e interior acolhedor. O staff
recebeu-me com simpatia genuína, oferecendo-me a sensação de ter regressado a
um lugar que já conhecia.
No
restaurante do hotel, o jantar foi um presente inesperado: um magret de pato
suculento com puré de batata trufado, acompanhado por legumes salteados em
manteiga. Para beber, um vinho tinto espanhol de Rioja, encorpado e aveludado,
que acariciava o paladar com notas de frutos maduros e um leve toque de
baunilha.
Mais
tarde, no bar, pedi um whisky escocês de 18 anos, suave e intenso ao mesmo
tempo, perfeito para alongar a noite. Conversava com um casal espanhol em férias
— rimos, trocámos histórias, partilhámos o gosto pela estrada e pela vida.
Quando
finalmente subi ao quarto, sentia o corpo cansado, mas o coração estava pleno.
Fechei os olhos com a certeza de que aquela viagem não era apenas um
deslocar-se no mapa… mas um movimento profundo dentro de mim.
Diário
de uma viagem – 30 dia – 26/07/2025

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