Talvez a felicidade seja só isto!
O
dia começou antes que o sol pudesse abraçar Estocolmo. Ainda havia um resquício
de noite quando deixei o hotel e conduzi pelas ruas silenciosas, onde as luzes
amareladas refletiam no espelho calmo das águas. A cidade dormia e, de alguma
forma, senti-me cúmplice desse silêncio.
O
porto aguardava-me com o imponente Baltic Serenade, o navio que levaria o meu
carro e a mim pelas águas frias do Báltico até Turku. Partimos às 07h30,
cortando o nevoeiro suave que dançava sobre a superfície do mar.
À
minha volta, havia um murmúrio constante — famílias rindo, casais trocando
olhares cúmplices, crianças explorando os corredores como se fossem
descobridores de um mundo novo. Havia algo de hipnótico na maneira como todos
pareciam felizes, como se a travessia fosse, por si só, uma promessa de vida
boa. Olhei em volta e pensei que talvez a felicidade seja só isto: estar
presente, inteiro, que não precisa de mais nada.
Na
verdade, se o teu trabalho te leva à exaustão, pára e relaxa para pensar.
Esquece a ideia de que a liderança te torna especial e ninguém faz melhor do
que tu. Todos são peças importantes e indispensáveis no trabalho em equipe,
cada um representa uma pequena parcela do resultado final e, como tal, todos
merecem o reconhecimento.
Isola-te
por uns minutos e ouve o silêncio. Entrega-te a esta força da paz, acalma o teu
stress e observa a importância de estares contigo. Grande parte dos erros que
cometi foi a sequência de não entender que o segredo da nossa felicidade está no
nosso equilíbrio.
Se
tens dificuldade em encontrar o silêncio, então cria um diálogo dentro de ti,
fala contigo. Permite-te chorar ou rir se essa for a tua vontade. Deixa que tudo seja espontâneo e genuíno.
Desliga o relógio emocional, reprograma-te e ouve a voz da tua consciência
porque há emoções que as palavras não sabem traduzir.
Temos,
mais que nunca, a necessidade de nos silenciar, embora esta realidade esteja
cada dia mais distante de nós. Para além do barulho sonoro, somos agredidos
também com o barulho do próprio silêncio tecnológico a todo o momento. Um
silêncio poluído e tumultuado que aos poucos nos arrasta para uma vida fingida.
Do
convés aberto, a paisagem parecia uma pintura viva com estivesse a aplaudir os
meus pensamentos. Pequenas ilhas recortavam-se contra o azul-acinzentado do
mar, ladeadas por pinheiros e casas vermelhas solitárias. As gaivotas seguiam o
navio, como se quisessem acompanhar-nos até a próxima costa.
No
restaurante panorâmico do convés principal, a luz filtrava-se por enormes
janelas. Pedi um almoço cedo, porque o corpo já pedia aconchego. Um prato de
salmão grelhado, delicadamente temperado com endro fresco, repousava sobre um
leito de batatas assadas e legumes salteados em manteiga. Ao lado, uma fatia de
pão escuro, levemente adocicado. Acompanhei com uma cerveja finlandesa dourada,
de espuma cremosa, cujo frescor trazia à boca uma lembrança distante de
florestas e rios limpos.
Chegámos
a Turku às 13h15. O desembarque foi rápido, e logo segui estrada adentro em
direção a Helsínquia. A viagem foi um espetáculo silencioso: florestas
infinitas de verde profundo, clareiras douradas pelo sol baixo, lagos que
espelhavam um céu quase sem nuvens. A luz tinha um tom dourado suave, e a
paisagem parecia respirar devagar, como se soubesse guardar segredos.
Entrei
em Helsínquia já sob o manto da noite. As ruas estavam limpas e tranquilas, e o
meu hotel surgiu como um refúgio de luz quente. Lá dentro, o luxo era discreto,
quase tímido — poltronas de veludo, madeira polida e uma receção onde os
sorrisos pareciam sinceros.
Decidi
comer algo leve no bar, pois a hora já se aproximava da meia-noite. Foi então
que a vi — a cozinheira, jovem, pele clara como marfim, e olhos azul-turquesa
que lembravam o mar em dias claros. Aproximou-se da minha mesa com um sorriso
que parecia carregar histórias não ditas, e numa voz doce e levemente rouca,
recomendou-me uma sopa cremosa de cogumelos silvestres, acompanhada por um
pequeno prato de queijos locais. Disse que, assim, eu descansaria melhor. E
tinha razão.
Quando
subi ao quarto, a surpresa esperava-me: uma garrafa de champagne francês, um
pequeno bolo delicadamente decorado, e um bilhete manuscrito em inglês: “On
behalf of myself and my country, I wish you a sweet and peaceful night.”
Sorri.
Naquele instante, senti que a viagem não era apenas sobre lugares, mas sobre
gestos que ficariam para sempre gravados em mim.
Diário
de uma viagem – 32 dia – 28/07/2025

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