Só o amor que se preocupa permanece!
Aos
poucos, recuperei alguma energia. Afinal, estava em Praga — a cidade que
respira história e romance, um palco medieval que parece um filme de encantar. Não
podia perder a oportunidade de me deixar levar por aquele conto de fadas de
pedra e luz. Mochila às costas, ténis nos pés, pus-me a caminho, sentindo a
cada passo a brisa fria misturar-se com o calor que ainda me queimava por
dentro.
De
manhã, deixei-me perder pelas ruas empedradas da Cidade Velha. A Praça da
Cidade, com o seu relógio astronómico, parecia pulsar como um coração antigo
que dita o tempo em séculos, não em minutos. Cada torre, cada fachada colorida
era uma pintura viva, como se tivesse sido erguida para seduzir os olhos e o
espírito. Cruzei a Ponte Carlos, majestosa, ladeada de estátuas que vigiam a
cidade como guardiãs silenciosas. Os músicos de rua enchiam o ar de violinos e
acordeões, e por momentos esqueci-me do corpo dorido. Praga é assim: seduz e
embala, mesmo quando a alma está cansada.
À
hora de almoço, cedi ao apelo de um restaurante de luxo no coração do centro
histórico. Era como entrar num templo medieval, onde cada detalhe da decoração
respirava história: tapeçarias pesadas, lustres trabalhados, mesas em madeira
escura que guardavam memórias de gerações. O espaço, frequentado sobretudo por
homens de negócios, exalava poder e sofisticação. Eu, sozinho, debilitado,
tornava-me quase uma nota dissonante naquela sinfonia. Talvez por isso mesmo a
minha presença foi notada e a atenção foi redobrada, por aquela empregada com
um olhar tímido.
Ela
era um charme particular com um estilo próprio que provoca interesse desperta
sentidos; uma ação constantemente provocativa! Aqui, nesta cidade misteriosa, Lily
era uma lenda; não passei imune à sua sensualidade instigante.
Naquele
restaurante tudo era elegância, mas Lily brilhava em toda aquela envolvência,
pelo o modo afável como acompanhava o serviço às mesas. Não foi fácil
observa-la sem que ela não desse por isso, porque sempre que o fazia, o seu
olhar focava na minha mesa com um sorriso, como quem está a proteger-me, pelo
facto de estar ali como uma carta fora do baralho.
Analisando
bem, eu era o único naquela sala que lhe prestava atenção. Esta era a grande
diferencia na semântica. A sua sensualidade seria condição ou caraterística, o
mesmo é dizer que a Lily é ou está?
Tal
como a Lily, as mulheres Checas vestem-se e comportam-se de um modo
ligeiramente revelador; isso para mim foi notório após conquistar a sua
amizade. Afinal, a sua sensualidade é uma caraterística que complementa o seu
lado carinhoso em todas as situações.
Com o tempo a nossa amizade mostrou-me todos os lados da sua
personalidade, graças ao seu estilo de vida divertido, mas também desbloqueou
seu caráter humano que eu nunca descobri que estavam lá.
Em
qualquer parte do mundo, um bom amigo (a) não é fácil de encontrar, muito menos
conquistar em pouco tempo, mas quando isso aconteceu, senti-me cercado de
carinho como um ato natural sem esperar nada em troca. Fez-me sentir uma
estrela num país que parece extraído dum livro de histórias de encantar.
Com ela aprendi que a
amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da
felicidade um do outro.
Afinal,
aquele atributo que me levava até ela e me desafiava a olhar, não era uma
sensualidade comportamental, mas uma caraterística; tudo não passou de uma
perceção imagética.
Como
qualquer mulher checa, Lily adora sair, dançar, viajar, jantar em lugares
românticos, proporcionando-me, nesta cidade dourada, aqueles momentos que
tornam a nossa vida mais interessante e memorável.
De
resto, os checos, homens e mulheres, são de uma beleza distinta. Há neles um
aprumo natural, um equilíbrio entre a elegância fria e a força discreta.
Mulheres de olhos claros que parecem conter rios de mistério, homens de postura
firme e passos seguros. Caminham como se a cidade fosse extensão do seu corpo.
O
almoço foi uma experiência sensorial que quase me curou. Um goulash intenso,
acompanhado de knedliky macios, trouxe calor e conforto. O vinho tinto de
reserva, servido com uma solenidade quase cerimoniosa, foi como um elixir —
recuperou-me as forças, mas também abriu ainda mais a minha sensibilidade. O
sabor encorpado e o rubor do álcool no sangue tornaram cada pensamento mais
profundo, cada lembrança mais aguda. Talvez por estar sozinho naquela sala
cheia de vozes de negócios, o gesto de cada empregado parecia carregado de uma
espécie de carinho silencioso. Não era compaixão, era presença — e isso,
naquele momento, fez diferença.
Após
o almoço, continuei a minha descoberta. Praga revelava-se em camadas: o Castelo
no alto, imponente, como se guardasse segredos de reis e alquimistas; a
Catedral de São Vito, grandiosa, onde a luz atravessava vitrais coloridos como
se fossem janelas para outras dimensões; becos escondidos que cheiravam a pão
fresco e cerveja artesanal. A cidade é feita de contrastes, entre o misticismo
gótico e a delicadeza barroca, entre o peso da história e a leveza dos enamorados
que se perdem pelas suas ruas.
Mas,
enquanto caminhava, o pensamento desviava-se sempre para o mesmo lugar: a
amizade. Interrogava-me, quase com dor, porque razão alguns não responderam às
minhas mensagens, ao meu estado febril, à minha fragilidade partilhada. Que
abismo é este que separa a amizade verdadeira — aquela que se preocupa, que
sente o outro mesmo à distância — daquela que só se lembra de nós quando somos
peça útil no tabuleiro da sua vida?
O
amor, seja ele erótico, romântico ou fraterno, tem sempre como raiz o cuidado.
E a amizade, no seu sentido mais puro, é talvez a forma mais profunda de amor.
Mais até do que os corpos que se procuram com urgência, ou do que os lábios que
se devoram com desejo, a amizade é o abraço silencioso que chega sem ser
pedido, é a mensagem no momento certo, é o toque invisível que nos levanta
quando o corpo falha.
Praga,
com toda a sua beleza, foi o espelho desse dilema: uma cidade que me encantava
e curava com a sua presença, ao mesmo tempo que me fazia sentir a ausência de
alguns rostos que esperava comigo partilhar essa beleza. Caminhei até o sol
cair sobre o Vltava e percebi: há amizades que são como estas ruas eternas de
Praga — duram para sempre, mesmo que o tempo as desgaste. Outras, são apenas
fachadas, belas ao olhar, mas ocas por dentro.
Lily
ofereceu-me a companhia para me mostrar a noite em Praga que parecia ter sido
desenhada para nós. As luzes refletiam no rio, criando um cenário quase mágico,
enquanto caminhávamos lado a lado até o bar que ela tanto apreciava. O ambiente
acolheu-nos com a suavidade de uma melodia distante, e entre um gole e outro,
abríamos mais do que garrafas — abríamos nossas histórias.
Falávamos
dos nossos países e memórias, ríamos de pequenas diferenças e, em silêncio,
reconhecíamos a beleza de nos escutarmos. A amizade que nos unira parecia
ganhar novas cores, mais densas, mais intensas. Quando o tema se tornava o
amor, o ar ficava mais espesso, como se cada palavra pudesse ser sentida na
pele. Não era preciso concordar em tudo; o respeito e a liberdade de pensar
eram o que nos aproximavam ainda mais.
As
horas passaram como instantes. Lá fora, a madrugada se alongava, mas dentro de
mim o tempo parecia suspenso. Ao despedirmo-nos, trocámos um abraço que durou
um pouco mais do que o habitual. No calor discreto desse gesto, senti o pulsar
de algo que ia além da amizade, um desejo contido que pedia espaço para
existir.
Já
sozinho, no quarto, deixei-me cair sobre a cama. O pensamento era inevitável,
quase um sussurro preso nos lábios: Lily… gosto de ti. Não era apenas amizade,
nem apenas desejo. Era uma mistura de ternura e fogo, de respeito e atração.
Era a vontade de estar mais perto, de tocar-lhe a pele como quem descobre um
segredo, e ao mesmo tempo a necessidade de proteger aquilo que nos ligou.
E
foi nesse contraste que encontrei a verdadeira lição da viagem: só a amizade
que cuida resiste, só o amor que se preocupa permanece.

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