Só o amor que se preocupa permanece!




Acordei em Praga, República Checa, com o corpo pesado, dorido, febril, como se a noite tivesse sido um campo de batalha entre o cansaço e a insónia. O calor no peito não era apenas físico — havia nele um traço de preocupação pelos antecedentes, de ansiedade, de solidão. Era daqueles dias em que o corpo pede cama, repouso, silêncio. Ainda assim, obriguei-me a levantar, a enfrentar o pequeno-almoço farto em cores e vitaminas, café fumegante e torradas douradas. O apetite, porém, teimava em não acompanhar o ritual. A mente estava mais ocupada em escrever pequenas mensagens a amigos na procura de aconchego — alguns dos quais sei que se preocupam genuinamente, outros que, apesar de esperanças antigas, se revelam ausentes quando mais precisamos. A amizade, percebo cada vez mais, é medida na entrelinha: não pelo que se diz, mas pelo cuidado que se sente.

Aos poucos, recuperei alguma energia. Afinal, estava em Praga — a cidade que respira história e romance, um palco medieval que parece um filme de encantar. Não podia perder a oportunidade de me deixar levar por aquele conto de fadas de pedra e luz. Mochila às costas, ténis nos pés, pus-me a caminho, sentindo a cada passo a brisa fria misturar-se com o calor que ainda me queimava por dentro.

De manhã, deixei-me perder pelas ruas empedradas da Cidade Velha. A Praça da Cidade, com o seu relógio astronómico, parecia pulsar como um coração antigo que dita o tempo em séculos, não em minutos. Cada torre, cada fachada colorida era uma pintura viva, como se tivesse sido erguida para seduzir os olhos e o espírito. Cruzei a Ponte Carlos, majestosa, ladeada de estátuas que vigiam a cidade como guardiãs silenciosas. Os músicos de rua enchiam o ar de violinos e acordeões, e por momentos esqueci-me do corpo dorido. Praga é assim: seduz e embala, mesmo quando a alma está cansada.

À hora de almoço, cedi ao apelo de um restaurante de luxo no coração do centro histórico. Era como entrar num templo medieval, onde cada detalhe da decoração respirava história: tapeçarias pesadas, lustres trabalhados, mesas em madeira escura que guardavam memórias de gerações. O espaço, frequentado sobretudo por homens de negócios, exalava poder e sofisticação. Eu, sozinho, debilitado, tornava-me quase uma nota dissonante naquela sinfonia. Talvez por isso mesmo a minha presença foi notada e a atenção foi redobrada, por aquela empregada com um olhar tímido.

Ela era um charme particular com um estilo próprio que provoca interesse desperta sentidos; uma ação constantemente provocativa! Aqui, nesta cidade misteriosa, Lily era uma lenda; não passei imune à sua sensualidade instigante.

Naquele restaurante tudo era elegância, mas Lily brilhava em toda aquela envolvência, pelo o modo afável como acompanhava o serviço às mesas. Não foi fácil observa-la sem que ela não desse por isso, porque sempre que o fazia, o seu olhar focava na minha mesa com um sorriso, como quem está a proteger-me, pelo facto de estar ali como uma carta fora do baralho.

Analisando bem, eu era o único naquela sala que lhe prestava atenção. Esta era a grande diferencia na semântica. A sua sensualidade seria condição ou caraterística, o mesmo é dizer que a Lily é ou está?

Tal como a Lily, as mulheres Checas vestem-se e comportam-se de um modo ligeiramente revelador; isso para mim foi notório após conquistar a sua amizade. Afinal, a sua sensualidade é uma caraterística que complementa o seu lado carinhoso em todas as situações.  Com o tempo a nossa amizade mostrou-me todos os lados da sua personalidade, graças ao seu estilo de vida divertido, mas também desbloqueou seu caráter humano que eu nunca descobri que estavam lá.

Em qualquer parte do mundo, um bom amigo (a) não é fácil de encontrar, muito menos conquistar em pouco tempo, mas quando isso aconteceu, senti-me cercado de carinho como um ato natural sem esperar nada em troca. Fez-me sentir uma estrela num país que parece extraído dum livro de histórias de encantar. Com ela aprendi que a amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.

Afinal, aquele atributo que me levava até ela e me desafiava a olhar, não era uma sensualidade comportamental, mas uma caraterística; tudo não passou de uma perceção imagética.

Como qualquer mulher checa, Lily adora sair, dançar, viajar, jantar em lugares românticos, proporcionando-me, nesta cidade dourada, aqueles momentos que tornam a nossa vida mais interessante e memorável.

De resto, os checos, homens e mulheres, são de uma beleza distinta. Há neles um aprumo natural, um equilíbrio entre a elegância fria e a força discreta. Mulheres de olhos claros que parecem conter rios de mistério, homens de postura firme e passos seguros. Caminham como se a cidade fosse extensão do seu corpo.

O almoço foi uma experiência sensorial que quase me curou. Um goulash intenso, acompanhado de knedliky macios, trouxe calor e conforto. O vinho tinto de reserva, servido com uma solenidade quase cerimoniosa, foi como um elixir — recuperou-me as forças, mas também abriu ainda mais a minha sensibilidade. O sabor encorpado e o rubor do álcool no sangue tornaram cada pensamento mais profundo, cada lembrança mais aguda. Talvez por estar sozinho naquela sala cheia de vozes de negócios, o gesto de cada empregado parecia carregado de uma espécie de carinho silencioso. Não era compaixão, era presença — e isso, naquele momento, fez diferença.

Após o almoço, continuei a minha descoberta. Praga revelava-se em camadas: o Castelo no alto, imponente, como se guardasse segredos de reis e alquimistas; a Catedral de São Vito, grandiosa, onde a luz atravessava vitrais coloridos como se fossem janelas para outras dimensões; becos escondidos que cheiravam a pão fresco e cerveja artesanal. A cidade é feita de contrastes, entre o misticismo gótico e a delicadeza barroca, entre o peso da história e a leveza dos enamorados que se perdem pelas suas ruas.

Mas, enquanto caminhava, o pensamento desviava-se sempre para o mesmo lugar: a amizade. Interrogava-me, quase com dor, porque razão alguns não responderam às minhas mensagens, ao meu estado febril, à minha fragilidade partilhada. Que abismo é este que separa a amizade verdadeira — aquela que se preocupa, que sente o outro mesmo à distância — daquela que só se lembra de nós quando somos peça útil no tabuleiro da sua vida?

O amor, seja ele erótico, romântico ou fraterno, tem sempre como raiz o cuidado. E a amizade, no seu sentido mais puro, é talvez a forma mais profunda de amor. Mais até do que os corpos que se procuram com urgência, ou do que os lábios que se devoram com desejo, a amizade é o abraço silencioso que chega sem ser pedido, é a mensagem no momento certo, é o toque invisível que nos levanta quando o corpo falha.

Praga, com toda a sua beleza, foi o espelho desse dilema: uma cidade que me encantava e curava com a sua presença, ao mesmo tempo que me fazia sentir a ausência de alguns rostos que esperava comigo partilhar essa beleza. Caminhei até o sol cair sobre o Vltava e percebi: há amizades que são como estas ruas eternas de Praga — duram para sempre, mesmo que o tempo as desgaste. Outras, são apenas fachadas, belas ao olhar, mas ocas por dentro.

Lily ofereceu-me a companhia para me mostrar a noite em Praga que parecia ter sido desenhada para nós. As luzes refletiam no rio, criando um cenário quase mágico, enquanto caminhávamos lado a lado até o bar que ela tanto apreciava. O ambiente acolheu-nos com a suavidade de uma melodia distante, e entre um gole e outro, abríamos mais do que garrafas — abríamos nossas histórias.

Falávamos dos nossos países e memórias, ríamos de pequenas diferenças e, em silêncio, reconhecíamos a beleza de nos escutarmos. A amizade que nos unira parecia ganhar novas cores, mais densas, mais intensas. Quando o tema se tornava o amor, o ar ficava mais espesso, como se cada palavra pudesse ser sentida na pele. Não era preciso concordar em tudo; o respeito e a liberdade de pensar eram o que nos aproximavam ainda mais.

As horas passaram como instantes. Lá fora, a madrugada se alongava, mas dentro de mim o tempo parecia suspenso. Ao despedirmo-nos, trocámos um abraço que durou um pouco mais do que o habitual. No calor discreto desse gesto, senti o pulsar de algo que ia além da amizade, um desejo contido que pedia espaço para existir.

Já sozinho, no quarto, deixei-me cair sobre a cama. O pensamento era inevitável, quase um sussurro preso nos lábios: Lily… gosto de ti. Não era apenas amizade, nem apenas desejo. Era uma mistura de ternura e fogo, de respeito e atração. Era a vontade de estar mais perto, de tocar-lhe a pele como quem descobre um segredo, e ao mesmo tempo a necessidade de proteger aquilo que nos ligou.

E foi nesse contraste que encontrei a verdadeira lição da viagem: só a amizade que cuida resiste, só o amor que se preocupa permanece.

Diário de uma viagem – 49 dia – 14/08/2025 

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