Senti no seu abraço uma doçura indomável!
Despertei
em Olsztyn ainda meio encantado, como se tivesse dormido numa cama feita de
nuvens e música. A melodia da noite anterior ainda ressoava nos meus ouvidos,
misturada com o riso cristalino da Carolina e o calor do seu corpo que,
confesso, fez mais pela minha circulação sanguínea do que qualquer ginásio
alguma vez faria. Era como se tivesse passado a noite nos braços de uma fada
traquina, dessas que, em vez de varinha mágica, tinham lábios de fogo e um
sorriso capaz de incendiar cidades inteiras.
Um
banho refrescante devolveu-me ao reino dos mortais. A água fria foi como um
exército de cavaleiros gelados a combater a preguiça que ainda me prendia à
cama.
Desci
para o pequeno-almoço e lá estava ela, ao fundo da sala, acenando como uma
princesa moderna perdida entre um banquete de reis: mesas abarrotadas de
queijos, doces, frutas, sumos de todas as cores, café e aquele cheiro de
torradas acabadas de nascer do paraíso. Ela esperara por mim, gesto delicado
que me fez sentir desejado. Despedindo-nos com promessas de um reencontro — Ficou
lá um pouco de mim quando senti no seu abraço uma doçura indomável.
A
viagem para Cracóvia chamava. Parti embalado por uma música suave, daquelas que
sabem transformar saudade em estrada. Olsztyn ficou para trás, mas a Carolina
continuava comigo: no cheiro da sua pele, no eco da sua voz doce, no sorriso
que me roubou qualquer hipótese de voltar a ser cético na empatia à primeira
vista.
As
viagens proporcionam-nos a oportunidade de nos desconectarmos das telas e da
constante avalanche de informações que recebemos diariamente. O tempo ausente
das redes sociais é uma “desintoxicação digital”, que nos liberta do excesso de
informações fútil da vida dos outros. Vivemos uma amizade de “faz de conta”
onde deixamos para depois, fazer uma chamada ou enviar uma mensagem - só que esse depois nunca acontece.
Estar
presente no momento e interagir com o ambiente ao redor sem distrações
tecnológicas melhora a clareza mental, empatia e a sensação de tranquilidade.
Descobrimos a importância dos verdadeiros amigos ao longo da nossa vida. Na
infância são parte da nossa socialização, na adolescência são importantes na
construção da nossa identidade, em adultos são uma fonte de inspiração e na
reta final da vida são fundamentais para combater a nossa solidão.
Viajar
para lugares com culturas, costumes e estilos de vida diferentes, amplia a
nossa compreensão do mundo. Ao viver o “aqui e agora” durante as viagens, tu
reduzes os pensamentos repetitivos ou ansiosos sobre o passado e até o futuro.
A
estrada parecia um tapete vermelho estendido só para mim. As casas, coloridas,
bordavam o caminho com telhados vermelhos e paredes amarelas; os campos, verdes
e dourados, inclinavam-se à minha passagem; e o céu, azul infinito salpicado de
nuvens brancas, parecia pintar-se apenas para emoldurar a minha aventura. Eu
era uma celebridade anónima, um astro de cinema que conduzia pela Polónia.
Varsóvia
chegou como quem entra num palco: barulhenta, caótica, cheia de energia. E
mesmo assim, a cidade conspirou a meu favor: encontrei um lugar para estacionar
como se tivesse sido reservado por anjos de trânsito. No restaurante,
serviram-me um almoço divinal: carne de caça, tenra e suculenta, acompanhada
por uma cerveja sem álcool — porque heróis prudentes também têm estrada pela
frente. O sabor era tão bom que, por um instante, pensei que os deuses da
culinária tinham descido à Terra só para cozinhar para mim.
Antes
de partir, não resisti a visitar dois lugares imperdíveis: o Castelo Real, com
as suas torres imponentes e salas cheias de ecos históricos, onde parecia ouvir
o sussurro de reis e rainhas de outrora; e o Parque Łazienki, um verdadeiro
jardim de fadas, com pavões que desfilavam como se fossem guardiões do paraíso.
Ali, no silêncio entre as árvores e esculturas, senti-me personagem de um conto
escrito pelos deuses gregos, mas passado em solo polaco.
A
viagem prosseguiu tranquila. Uma paragem para abastecer, um café que me piscou
o olho como cúmplice da aventura, e logo a ansiedade crescia: Cracóvia
aproximava-se.
Quando
avistei as luzes brilhantes da cidade, senti que entrava num universo paralelo.
O rio Vístula abraçava a Cidade Velha, iluminada como um colar de pérolas
antigas. O hotel onde fiquei parecia mais um museu vivo do que apenas um lugar
para dormir: paredes que contavam histórias, decoração que misturava o velho e
o novo numa dança perfeita. O check-in foi uma celebração, com direito a licor
refrescante.
Um
jantar leve, de vegetais salteados e ovos, encerrou o meu dia. Mas o grande
espetáculo estava reservado para o quarto: ao abrir a janela, lá estava ele, o
Castelo de Wawel, iluminado, majestoso, um cenário de mil e uma noites.
Já
pronto para adormecer, o meu telemóvel vibrou: mensagem da Carolina: “Maurício,
chegaste bem? Já tenho saudades… quero dizer-te o que não tive coragem: gosto
muito de ti, para que saibas. Um dia destes vamos juntar-nos outra vez. Ah, e
gosto do teu perfume e do toque do teu cabelo… e mais não digo”, rindo-se ao
final.
Adormeci
sorrindo, embalado pelas luzes de Cracóvia, pela lembrança do seu riso e pela
promessa de um conto de fadas ainda em construção.
Diário
de uma viagem – 46 dia – 11/08/2025

Lindo
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