Se eu pudesse voltar no tempo!

 


Despertei em Estocolmo, a joia serena da Suécia, num quarto encantador cujas janelas se abriam para o imponente rio Mälaren, espelho de luz e de calma que parecia guardar segredos antigos da cidade. A brisa fresca da manhã entrou pelas cortinas leves, trazendo-me um arrepio doce, como se fosse um convite silencioso para um dia de descobertas.

Depois de um banho refrescante, desci ao salão do pequeno-almoço. O ambiente era acolhedor, envolto no aroma reconfortante de pão acabado de cozer, café intenso, ovos quentes e fruta colorida que parecia capturar o sol nórdico. Entre as mesas, movendo-se com a graça de quem conhece cada canto, estava Catarine — cabelos ruivos que pareciam arder à luz do dia e olhos verdes como azeitonas maduras. Com um sorriso que parecia atravessar o frio de qualquer inverno sueco, aproximou-se e perguntou se estava ali a negócios ou para conhecer a cidade.

Com uma delicadeza quase cúmplice, regressava de vez em quando à minha mesa para me indicar lugares imperdíveis: as ruas comerciais de Drottninggatan e Biblioteksgatan, os jardins de Kungsträdgården, o Museu Vasa, o Museu de Arte Moderna, e, sobretudo, a imponente Storkyrkan, a Catedral Luterana, onde gostaria de visitar para meditar sobre as voltas da vida. As suas palavras eram tão vivas que quase dispensei o mapa que me tinham oferecido na receção.

Sai do hotel com energia e uma alegria quase infantil, pronto para explorar. Caminhei pelas ruas vibrantes, senti o pulsar do comércio, detive-me nos museus, respirei o perfume suave dos parques e jardins. Na Storkyrkan, sentei-me em silêncio, deixando que o eco da sua grandeza dialogasse com a minha própria história. Ali, entre vitrais e pedra antiga, agradeci pelo caminho percorrido e pedi coragem para os passos que ainda não dei.

Na verdade, perdi tanto tempo com o “ulular” no meu passado…  Deixo aqui a memória que vai perdurar no tempo, até que a letra mal se enxergue e a data se apague. Sim, o jogo arrasa uma vida, destrói um sonho e injeta-nos o veneno que nos vai destruindo lentamente. Para trás ficaram as peças de xadrez do jogo de uma relação perigosamente materializada, sobre um tabuleiro destruído e um pouco de mim golpeado.

Senti-me adicto de uma relação periculosa, transformada numa “Bolsa de Valores”, onde tudo se vendia, onde tudo se comprava.   Foi um “basta “numa noite do tudo e do nada. Tudo o que existia ficou ali, desfeito num pó lamacento. Tornou-se um silêncio avassalador! Tudo ficou destruído por aquela tormenta arrasadora; empatia, os risos, o choro, o medo, o desabafo, os nós desatados e os que atamos também, os abraços que foram se tornando cada vez mais apertados, um sentimento crescido, olhares de cumplicidade e intimidade nos momentos que foram nossos.

Oiço apenas o som das palavras, as expressões maltratadas, a música que não ouvimos, o medo de continuar e as recordações; as recordações do toque que cada dia foi tomando forma mais sincronizada, das longas conversas sobre tudo e nada, sobre o eu, sobre o tu, sobre os outros, menos sobre o “nós”!

Perdi tanto tempo com o “ulular” no meu passado; não choro a sucata que lá ficou, mas a âncora que não soltei e o tempo que não vivi. Somos testados num percurso cheio de armadilhas e trechos sem saída; todas as nossas atitudes são observadas, só temos que ter consciência limpa, arrumar a nossa cabeça, colocar o passado apenas como um lugar de referência e seguir em frente, porque o resto o tempo diminui a dopamina e transforma o tabuleiro de xadrez num jogo pedagógico.

Quando sai do templo ainda pensei: pois é! Se eu pudesse voltar no tempo para corrigir os erros do meu passado, estaria a apagar o autoconhecimento e fortalecimento emocional que me auxilia a elucidar questões e ressignificar medos.

Quando o apetite chegou, procurei o barco-restaurante que Catarine me sugeriu. Subi a bordo e deixei-me embalar pelo deslizar suave sobre o Mälaren. O almoço foi um festim de sabores nórdicos: salmão grelhado com ervas frescas, batatas novas temperadas com endro, e um creme leve de amoras que me fez sorrir. As águas refletiam as fachadas coloridas da cidade, enquanto o barco passava por ilhas e pontes, cada curva revelando mais um pedaço do encanto sueco.

De regresso a terra firme, continuei a minha caminhada sem pressa. O dia foi terminando com luz dourada, até que encontrei um pequeno restaurante numa esquina de Gamla Stan, a zona mais típica e histórica. A comida era simples, mas feita com alma, e ali, entre velas e madeira antiga, senti-me plenamente presente.

Antes de voltar ao hotel, passei por uma florista e comprei um ramo generoso de flores vermelhas, tão vivas quanto o cabelo de Catarina. Pedi na receção que lhas entregassem. Senti que um simples gesto podia dizer muito mais do que palavras.

No bar do hotel, encontrei-me com o barman — um homem maduro, de riso fácil e voz grave. Perguntei-lhe por uma bebida tipicamente sueca, e ele preparou-me um Glögg, um vinho quente aromatizado com especiarias, servido com amêndoas e passas. O calor da bebida espalhou-se pelo corpo como um abraço amigo.

Já no quarto, antes de dormir, abri a internet para ver notícias de Portugal. Lá estava, de novo, o peso das imagens: os incêndios que, ano após ano, devoram florestas, casas e sonhos, enquanto pouco se faz para travar esta tragédia repetida. Fechei o computador com um suspiro. Olhei pela última vez para o rio, agora iluminado pela lua, e prometi a mim mesmo continuar a viajar, mas sem nunca esquecer de onde venho.

Diário de uma viagem – 31 dia – 27/07/2025

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