Quando estamos sozinhos, só nos resta decidir: solidão ou solitude!
Despertei
no meio da noite em Munique, com o coração inquieto e o corpo ainda quente de
um sonho que já não recordava. Abri a janela do hotel e deixei que o ar fresco
da madrugada me tocasse o rosto — um arrepio percorreu-me a pele, lento, como
um sussurro que não se quer calar.
O
quarto mergulhava num silêncio elegante, interrompido apenas pelo murmúrio
distante da cidade que dormia. A luz do candeeiro, suave e amarelada, desenhava
sombras sobre a parede. Foi então que o vi — o grande espelho ao lado da cama.
Aproximei-me.
Olhei-me, depois olhei para dentro. Talvez falasse comigo, ou com o outro eu —
aquele que nunca dorme, o que observa todos os meus gestos, o que sabe o que
escondo até de mim.
Sorri-lhe.
Ele devolveu-me o sorriso. Este sou eu, sozinho, olhando para o nada no meio de
tudo, numa cidade onde as antigas cervejarias se encontram ao lado de museus de
vanguarda e os parques verdejantes são o pano de fundo das indústrias de alta
tecnologia.
Mas
viajar sozinho é uma aventura e nem sempre é um sentimento aprazível, até pode
ser o maior vilão se não abandonarmos as mágoas no ponto da partida e desatar
os nós do passado.
Se
queres viajar sozinho não tem outro jeito! Para percorrer outros destinos, tens
que abraçar a tua própria companhia, teu lugar de acolhimento, companheiro de
viagem. Tem horas que a solidão bate, até pode doer; há quem lhe chame saudade,
mas dói, em qualquer parte do corpo ou da mente; agrava quando estamos horas
sozinhos sem interagir com ninguém, mesmo num cenário maravilhoso como um pôr
do sol. Só nos resta decidir entre solidão ou solitude.
Na
primeira tu sentes o vazio de alguém que deixaste para trás, na segunda tu precisas
de desatar os dois tempos em alguns momentos, mesmo carregando contigo todo o
tempo que recebeste os mais lindos momentos de amor. Tudo isto vai acontecer e
provocar em ti a emoção da aventura!
Caminhei
pelo quarto como se pisasse um palco privado. A cama, ampla, convidava. Sobre a
mesa, uma garrafa de champanhe aberta, duas taças, um prato de frutas frescas,
uvas ainda com orvalho — ou seria apenas o reflexo da minha imaginação?
O
som de uma música ambiente, jazz suave, misturava-se ao perfume do lençol. O
espaço era perfeito — luxuoso sem arrogância, íntimo sem esforço. As horas
passaram, e o primeiro raio de sol começou a cobrir a cidade com um véu
dourado.
Enquanto
arrumava a mala para seguir rumo a Salzburgo, senti um leve ciúme do dia — ele
ia tocar tudo o que eu deixava para trás. Desci para o pequeno-almoço. A sala
era um cenário de elegância meticulosa: mesas alinhadas como notas numa
partitura, porcelana branca, flores frescas, café com aroma de promessa.
Sentei-me
sem pressa, despedindo-me em silêncio daquele refúgio de sonho. Do outro lado,
dois casais idosos trocavam sorrisos cúmplices. E mais além, uma mulher.
Sozinha. Vestido preto, justo, discreto, mas cruelmente sensual. Os olhos dela
cruzaram os meus por um segundo que pareceu uma eternidade. O mundo inteiro se
calou, e só o som distante de um violino imaginário preencheu o espaço entre
nós. Não trocámos palavras, mas houve ali um pacto silencioso — o tipo de
mistério que não se explica, apenas se sente.
Parti
em direção a Salzburgo. A estrada serpenteava pela paisagem, cinzenta e húmida,
mas dentro do carro tocava uma canção romântica — dessas que transformam o
nevoeiro em poesia e fazem o dia parecer iluminado por dentro.
As
montanhas surgiam como velhas guardiãs, e cada curva me lembrava que viajar
também é uma forma de sedução. De repente, o trânsito parou. Silêncio. Nenhuma
buzina, nenhum gesto brusco. Um polícia aproximou-se, sorridente, pedindo desculpa
por um acidente adiante. Fiquei atónito — Meu Deus, isto é outro mundo — murmurei,
quase rindo.
Pensei
em Portugal, no caos sonoro que seria a mesma cena. E senti uma pontada de
saudade e ironia: talvez a civilidade também fosse uma forma de erotismo
coletivo — o prazer de não precisar gritar.
Logo
continuei viagem até Bernau am Chiemsee. O lago, vasto e silencioso, parecia
respirar com o céu. A cidade repousava à sua margem como uma pintura viva:
barcos imóveis, árvores alinhadas, o reflexo das montanhas dissolvendo-se na
água.
Almocei
num pequeno restaurante junto ao lago, acolhedor e perfumado com ervas frescas.
A dona — uma mulher eslovena de sorriso luminoso — cozinhava com uma sensualidade
natural, quase involuntária. Serviu-me um prato típico, ligeiramente picante,
que incendiava o paladar e deixava um sabor persistente, como um beijo que se
prolonga.
Enquanto
falava, os olhos dela brilhavam com uma curiosidade brincalhona. E eu, sem
saber porquê, desejei que o almoço nunca terminasse. Depois de um passeio lento
pela cidade, voltei à estrada rumo
a Salzburgo.
Uma
estrada cheia de vegetação, onde se perdia de vista florestas alinhadas como
soldados preparados para atacar qualquer vestígio de incêndio, exatamente o que
não acontece em Portugal, onde todos anos se repetem gigantescos fogos que consomem
toda a vegetação, casas para além ceifarem muitas vidas.
Todos
os anos quando assistimos aos repetidos desastres ecológicos em Portugal,
apregoam-se as mais variadas soluções, mas os dossiês são guardados nas
gavetas, ficando apenas as boas intenções de as realizar.
Todos
os anos se falam o mesmo discurso: prevenção individual, gestão e limpeza das
florestas abandonada, uma pelos privados e outras pelo estado, tornando-se
autênticos barris de pólvora quando o clima reúne as condições ideais
Já
há 22 anos o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles dizia que a limpezas das florestas é
um mito. Então como vamos cuidar das nossas florestas?
Talvez mudar as políticas agrícolas, torná-las rentáveis para aliciar os jovens
a regressar à terra numa oportunidade de negócio.
A
noite caiu quando cheguei a Salzburgo. A cidade brilhava à beira do rio
Salzach, misteriosa e silenciosa. O hotel era de charme, um refúgio de
elegância discreta. Ao entrar, fui recebido com um sorriso e uma taça de
champanhe gelado. Mozart soava em surdina, e a melodia parecia percorrer o meu
corpo como uma carícia invisível.
Subi
ao quarto. A fadiga pedia repouso, mas a alma pedia mais um instante de beleza.
Pedi para o quarto um jantar leve, e o hotel enviou uma “surpresa de
boas-vindas”, minutos depois.
Uma
bandeja impecável: salmão fumado com mel e limão, pão quente, queijo fresco com
ervas e uma garrafa de vinho branco austríaco. Sentei-me diante da janela, o
rio lá em baixo cintilando sob as luzes da cidade. A cada gole, sentia o corpo
relaxar, o pensamento dissolver-se. Era como fazer amor com o silêncio.
E
foi ali, sozinho, entre o som de Mozart e o sabor do vinho, que compreendi: a
verdadeira viagem não é entre cidades, é entre os instantes em que nos deixamos
tocar — por um olhar, um aroma, uma nota, um reflexo no espelho.

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