Quando a cidadania não é uma palavra, é uma prática!

 


Ainda o sol não ousara nascer e já o meu carro me levava pela estrada que se estendia entre Praga e Nuremberga. A madrugada trazia consigo um silêncio de eternidade: o céu, ainda azul-escuro, abria-se lentamente em pinceladas cor-de-rosa e laranja, e o ar fresco parecia respirar comigo. As colinas que ladeavam a estrada iam ganhando corpo à medida que a claridade se insinuava, revelando casas de telhados vermelhos, pintadas em tons pastel que pareciam sussurrar histórias antigas. Entre campos verdes e bosques cerrados, a luz dourada do nascente ia desenhando uma tapeçaria de cores que só a natureza sabe bordar.

Deixei Praga com o coração pleno de memórias. A cidade, com o seu encanto de pontes e torres, ofereceu-me muito mais do que beleza arquitetónica: revelou-me a grandeza do espírito cívico do seu povo. Lá, vi ruas impecavelmente limpas, sem papéis nem cinzas esquecidas no chão; vi condutores pacientes que não precisavam da buzina nem de manifestar com gestos histéricos para impor a pressa e a sua autoridade, vi sobretudo uma sociedade que educa os filhos para a responsabilidade e a consciência coletiva. É um povo que entende que cidadania não é uma palavra, é uma prática — respeito pelo espaço comum, pela lei e, acima de tudo, pelo outro. E, ao pensar neles, veio-me à alma um desejo profundo de ver Portugal mergulhar nessa mesma cultura de civismo, onde a liberdade se reconhece no equilíbrio, onde o lixo encontra o contentor certo, onde não se banaliza cuspir ou atirar uma ponta de cigarro ao chão, onde o barulho — químico, visual ou sonoro — não rouba a paz ao vizinho.

Enquanto a música de um violino me embalava na viagem, imaginei como seria belo ver a minha terra dar um passo firme em direção a esse novo conceito de vida: uma vida em que cada flor da natureza fosse respeitada, cada rua se mantivesse limpa e cada jovem crescesse com a noção de que o bem comum é a mais nobre das liberdades.

Foi nesse pensamento que cheguei a Ebermannsdorf, já em solo alemão. A pequena cidade acolheu-me com um verde intenso que se confundia com o azul do céu. O rio Vils atravessava-a sereno, refletindo as fachadas coloridas das casas que se alinhavam graciosas à sua margem. Telhados inclinados, janelas floridas e uma harmonia discreta tornavam a paisagem um quadro vivo.

Junto ao rio, encontrei um restaurante típico alemão, construído em madeira escura e pedra clara, com varandas decoradas por gerânios vermelhos que caíam como cascatas de fogo. No interior, mesas de madeira polida, toalhas simples e a hospitalidade genuína convidavam ao descanso. O almoço foi leve, mas memorável: uma salada fresca, um prato de peixe delicado e uma cerveja alemã dourada, encorpada, que parecia conter o espírito da terra.

Ainda com o paladar satisfeito, caminhei pelas ruas tranquilas da cidade. A principal via comercial exibia pequenas lojas de artesanato, vitrinas cheias de porcelanas pintadas à mão, padarias que exalavam o cheiro doce do pão fresco e livrarias que respiravam cultura em cada lombada exposta.

De volta à estrada, parti em direção a Nuremberga. A viagem foi um deleite: campos dourados pelo outono, árvores alinhadas como guardiãs da paisagem e vilas que surgiam discretas, com a sua simplicidade ordenada. Era como se a estrada fosse uma sinfonia, cada curva trazendo uma nova melodia de cor e harmonia.

Cheguei a Nuremberga já o sol se despedia no horizonte. A cidade recebeu-me com a sua alma medieval: ruas iluminadas por luzes cintilantes, muralhas antigas que pareciam proteger séculos de histórias, pontes e torres que se erguiam orgulhosas no coração da Baviera. O hotel que escolhi, junto ao rio Pegnitz, foi um suspiro de encanto. Uma verdadeira obra de arte arquitetónica, de atmosfera medieval, onde cada pedra parecia guardar memórias. No grande salão, recebi sorrisos calorosos dos rececionistas, como quem acolhe um amigo de longa data.

Após deixar a bagagem, desci para jantar. Munido de um mapa da cidade, sentei-me num sofá confortável e senti o privilégio raro de, em terras estrangeiras, encontrar sempre uma voz amiga, uma orientação que me devolve rumo.

Do you need help? Senti um perfume agradável. Levantei a cabeça e vi o olhar sorridente da rececionista numa comunicação afável de boas-vindas. Na verdade, quando o nosso olhar sorri, estamos a criar conexões, transmitimos paz, acolhemos e suscitamos os mais belos sentimentos.

Ela chegou mais perto de mim, vagarosamente mais perto, como se cruzasse o meu destino, para me explicar a cidade. Hello! I´m Erika. Senti um Déjà vu!  Não foi coincidência, parecia mais uma inconsciente telepatia da minha réplica, que viaja numa outra dimensão. E ali fiquei eu à minha procura. À minha volta tudo me parecia familiar.

Perdemos o passado a cada segundo e construímos o futuro em cada momento, provavelmente com vidas paralelas e em tempos diferentes. Existe uma linha invisível que une aqueles destinados a se reencontrar, neste eterno ciclo, onde vamos ao abismo da tristeza e ao ápice da felicidade. Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão.

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas que não perdemos no tempo.

Somos uma mistura de rostos e bocas, sorrisos e olhares, atitudes e palavras, estilos e comportamentos. Eu fico enamorado pelo olhar que sorri de felicidade da mulher que busca a inocência e sonha alto com esperança. Eu não sei explicar se é o sorriso que me encanta e me fascina ou se é o olhar que me domina e me prende.

No restaurante indicado por Erika, o jantar foi requintado, pleno de sabores inesperados e texturas que despertavam os sentidos — uma verdadeira experiência sensorial.

Regressei ao hotel embalado pela serenidade da noite. No bar, aceitei a bebida gentilmente oferecida, e o sabor suave, quase poético, foi o último acorde de um dia inesquecível. Subi ao quarto com a alma tranquila, certo de que, no dia seguinte, estaria pronto para descobrir ainda mais da cidade que já me conquistara.

 

Diário de uma viagem – 50 dia – 15/08/2025

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