Quando as nuvens tapam o sol!

 


O amanhecer em Gotemburgo tinha um silêncio quase sagrado. O céu, tingido por tons suaves de rosa e dourado, parecia um quadro pintado apenas para mim. A cidade ainda dormia, e o som mais presente era o das minhas próprias respirações enquanto guardava as últimas malas no carro. Liguei o motor e, num gesto quase automático, pus a tocar uma música romântica — daquelas que parecem falar com a alma. E, de fato, falavam… ou talvez fosse o meu outro eu, aquele que carrega histórias, dores e lições, a começar um diálogo comigo.

A estrada era um convite à leveza. O asfalto desenhava-se suavemente entre campos verdejantes e florestas que, mesmo no frescor da manhã, exalavam vida. Havia um silêncio tão profundo que até o som das rodas no asfalto parecia música. Entre reflexões e melodias, fui deixando que o passado viesse, que falasse… e que, pouco a pouco, fosse silenciado pelo presente que eu vivia.

Há histórias da minha vida que eu gostava de escrever, mas nem sei por onde começar. Eu sei - responde o meu outro “eu”: chega a ser angustiante essa sensação de não conseguires contar o que estás a sentir. Então, ele pára um pouquinho, olha para o lado, olha para ele, e pensa no que poderia ter sido feito diferente.

Abriu a boca e quase falou, quase... O resto da tua vida poderia ter sido diferente se tivesses decidido na hora, mas não… Muitas vezes remoemos mentalmente algo do passado que fizemos ou deixamos de fazer, dizendo para nós mesmos que poderíamos ter feito melhor ou que deveríamos ter feito diferente. Na verdade, cada vez que tomamos alguma decisão, ela é sempre a melhor no momento, por pior que ela possa ter sido.

Ah, mas se eu tivesse naquela época a experiência que eu tenho hoje…. Mas, na verdade, não tinhas. O diálogo mental de autoacusação e lamentação serve apenas para causar sofrimento e desdenhar a autoestima. Nunca esperamos possíveis consequências no futuro. Nunca estamos totalmente preparados para lidar com problemas irreversíveis, acumulados com a ingratidão daqueles que são pedaços de nós. Tu sabes o quanto isso te afeta, mas também sabes que todos nós iremos passar por um processo de autojulgamento.

Quando as nuvens tapam o sol, se quiseres fazer diferente, este é o momento certo. A vida não é uma escalada rumo ao bem-estar, felicidade e prosperidade. Ah, se fosse assim, nossa existência não seria de todo gratificante. Talvez seja por isso que, de vez em quando, a natureza nos põe à prova e, de certa forma, mede a nossa capacidade de superar dificuldades.

Quando as nuvens tampam o sol, pode chover, mas a chuva fecunda a terra, faz florescer e dar frutos. Ninguém fica mais frágil depois de superar uma crise. Tu sais sempre mais corajoso.

Pois é! e agora o que faço? Talvez vivendo como quando eramos crianças. A maturidade é uma tremenda estraga-prazeres. Quando ela chega, varre para longe a nossa porção poética. Mostra que não existe uma só história de vida, mas várias histórias em uma só vida.

Quando cheguei a Svinesund, a ponte que une a Suécia à Noruega surgiu diante de mim como um portal. Parei para almoçar, e fui imediatamente conquistado pela beleza serena daquele lugar. A água calma refletia o céu como um espelho líquido, e pequenas embarcações cortavam a superfície com elegância preguiçosa. As casas, com fachadas de madeira em tons delicados, pareciam tiradas de um postal antigo. Caminhei pelas ruas estreitas, onde o cheiro de pão fresco e café recém-passado se misturava ao ar salgado vindo do fiorde. Sentei-me num restaurante com vista para a água e deixei-me ficar ali, algum tempo, saboreando não só a comida, mas a paz.

Retomei a viagem com o coração mais leve. A paisagem norueguesa desdobrava-se em colinas suaves, lagos que refletiam nuvens preguiçosas e florestas que pareciam sussurrar histórias antigas. Cada curva revelava um novo quadro, e eu me sentia parte dele. Ao final do dia, Oslo surgiu diante de mim, iluminada pela luz suave da noite que caía, como se me recebesse com um abraço silencioso.

O hotel onde me hospedei era um deslumbre. A fachada elegante, o átrio iluminado por lustres que lembravam constelações e o aroma discreto de flores frescas no ar criavam uma atmosfera acolhedora. Os funcionários, com sorrisos genuínos e gestos cordiais, faziam-me sentir mais convidado que hóspede. Um deles, sugeriu-me um restaurante tranquilo para jantar e ofereceu-me um mapa da cidade.

O local era íntimo, com velas tremeluzindo sobre mesas de madeira escura. Pedi um prato de carne no ponto perfeito — macia, suculenta, perfumada com ervas frescas — acompanhada por um vinho tinto francês encorpado, que aquecia o corpo e, de certa forma, também a alma. A refeição era simples na aparência, mas envolvia todos os sentidos, deixando-me saciado e feliz.

De regresso ao hotel, o cansaço pesava, mas a vontade de prolongar a sensação de bem-estar levou-me ao spa. A decoração era um poema visual: luzes suaves, pedras polidas, aromas de lavanda e música etérea. Uma massagem delicada, conduzida por mãos experientes, dissolveu as últimas tensões, preparando-me para uma noite serena. Ao fechar os olhos, entre toques suaves e fragrâncias, senti que aquela viagem não era apenas geográfica, mas também uma travessia íntima — um caminho para dentro de mim.

 

Diário de uma viagem – 28 dia – 24/07/2025

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