Poder, dinheiro e fama — Três deuses modernos.
Saí
de Viena com o coração cheio — cheio de beleza, de cultura, e de uma estranha
melancolia. Havia em mim o desejo íntimo de um dia ver a minha cidade respirar
com a mesma harmonia e disciplina, com a mesma educação cívica que em Viena se
sente até no silêncio das ruas.
Enquanto
o motor do carro despertava, senti o peso das ambições humanas a dançar nos
meus pensamentos. O poder, o dinheiro, a fama — três deuses modernos que
comandam os gestos, moldam os sonhos e corroem a alma. O ser humano, em sua
ânsia de ser eterno, esquece-se tantas vezes de simplesmente ser.
O
pequeno-almoço, tomado horas antes, permanecia na memória como uma pintura
viva. A sala, mais museu que refeitório, exalava o perfume discreto do luxo:
luz filtrada por cortinas de linho, porcelanas finas, frutas que brilhavam como
joias. Carreguei as malas, respirei fundo e segui em direção à Eslováquia.
A
estrada desenrolava-se como uma fita de seda entre colinas verdes e bosques
silenciosos. O céu, coberto de nuvens espessas e cinzentas, parecia esconder
segredos. A música suave que tocava dentro do carro era um bálsamo — notas que
deslizavam no ar como dedos sobre a pele. Conduzia em silêncio, entre pensamentos
e suspiros, deixando que o asfalto e o tempo me levassem ao mesmo tema: O
poder, o dinheiro, a fama — três deuses modernos que comandam os gestos, moldam
os sonhos e corroem a alma. Parece que nos comportamos como marionetes.
Será
que podemos discernir se vivemos uma vida real ou simulada ou mesmo calcular a
probabilidade de sermos entidades virtuais? Vivemos numa era em que a
personagem que assumimos publicamente tem mais destaque do que nossa verdadeira
identidade.
O
problema nessa dialética surge quando paramos de dissociar o nosso verdadeiro
“ser” do personagem criado e deixamos de ter controle sobre o nosso próprio
“eu”. Este comportamento é muito comum no transtorno de personalidade
narcisista que, depois de instalado na mente humana, tem pleno espaço para
proliferar na sociedade.
Mas
será que a nossa vida é real? Será que estamos a viver em uma simulação
dirigida por uma entidade fora de nossa compreensão, onde toda a nossa vivencia
faz parte de um programa computacional extremamente complexo e poderoso, como
no filme da Matrix? Será que podemos discernir se vivemos uma vida real ou
simulada ou mesmo calcular a probabilidade de sermos entidades virtuais?
Por
tudo isto, pode ser um pouco difícil de entender quem somos, de onde viemos,
para onde vamos e, aparentemente, onde estamos neste exato momento. Se uma simulação tem poder computacional
infinito, não há como provar se tu estás ou não a viver em uma realidade
virtual, porque ela poderia computorizar o que quiser com qualquer grau de
realismo.
Sendo
assim, a tua casa pode não existir de verdade, aliás, nem as tuas coisas, a tua
família, nem tu. O que a gente chama de realidade pode não ser real de fato.
Mas
acreditando que não seja assim, não deixamos de vivermos numa época onde se
esperam grandes transformações que vão influenciar o nosso dia-a-dia. A
tecnologia, a natureza e a longevidade, são fatores, que, quando combinados,
vão gerar alterações profundas no nosso modo de estar, na forma como nos
relacionamos e principalmente como vamos viver.
Mas se nós vivermos numa simulação, poderemos correr o risco de ver a humanidade evaporar-se, caso os nossos simuladores puxassem o cabo da tomada, colocando um ponto final na nossa existência.
Aproximando-me de Koshice, já perto da fronteira Ucraniana — esse país ferido, resistente há quatro longos anos —, com a mesma linha de pensamento, comecei a tecer reflexões sobre o comportamento humano. Sobre o porquê de tanta sede de domínio, de conquista, de brilho. Talvez o poder não seja mais do que o medo disfarçado. Talvez o dinheiro apenas uma tentativa desesperada de comprar amor. E a fama… uma sombra que cresce até engolir quem a persegue.
Perto
de Nitra, o corpo pediu pausa. A fome era também curiosidade. Desconhecia tudo
sobre a Eslováquia, mas os meus sentidos estavam despertos. Nitra — a quinta
cidade do país, antiga, carregada de história e tempo — recebeu-me com um
charme discreto.
Estacionei
o carro e caminhei alguns minutos até encontrar um pequeno restaurante diante de
um jardim florido. O interior era acolhedor: mesas de madeira, luz amarelada,
aromas de carne grelhada e pão fresco. Pedi um prato robusto — carne tenra
acompanhada por legumes temperados e uma cerveja fria que parecia ouro líquido.
Os
funcionários moviam-se com uma simpatia calma, mas foi ela quem captou a minha
atenção: uma mulher de olhos verdes, cabelo ruivo e corpo desenhado pelo
capricho da natureza. Sorridente, faladora, mas dona de um inglês tão
imperfeito que o nosso diálogo era uma dança de gestos e olhares. Quando paguei
a conta, deixei uma gorjeta e ela, com um sorriso aberto e um sotaque curioso,
murmurou: “Obrigado.”
Ri,
surpreso. Ela ficou confusa até que lhe falei em português. “Meu nome é Sónia”,
disse, “sou de Belo Horizonte. Estou aqui há dois meses.” Conversámos sobre os
nossos países, sobre o acaso que faz as línguas se cruzarem tarde demais. Havia
uma doçura triste nesse encontro breve. Quando me despedi, os olhos dela ainda
brilhavam — convidaram-me a ficar, mas o destino chamava-me mais longe.
Antes
de partir, ainda caminhei um pouco por Nitra. As ruas respiravam serenidade, o
povo sorria com uma gentileza simples, e as casas — modestas, mas belas —
pareciam guardar histórias antigas.
A
estrada até Koshice foi um poema em movimento. O entardecer tingia o céu de violeta,
as colinas ondulavam em silêncio, e o ar fresco trazia o perfume da terra
molhada. A cada quilómetro, sentia-me mais leve, mais desperto, como se a
viagem me purificasse.
Quando
a noite caiu, vi ao longe as luzes de Koshice — uma constelação tranquila que
me dava as boas-vindas. Cruzei a ponte sobre o rio Hornád e senti o brilho da
água acompanhar-me. O hotel, elegante e silencioso, erguia-se à margem do rio,
com grandes janelas que refletiam a luz da cidade.
Ao
entrar, fui recebido por duas rececionistas sorridentes que me ofereceram uma
bebida colorida — vermelha como romã, doce e fria, com um toque de hortelã. O
sabor era exótico, quase misterioso, e deixou-me a boca tingida de curiosidade.
Antes
de subir ao quarto, convidaram-me a jantar no restaurante recém-inaugurado.
Aceitei. O jantar foi simples, mas perfeito — uma celebração tranquila depois
de uma longa viagem.
Quando,
por fim, entrei no quarto, encontrei sobre a cama dois pequenos corações de
chocolate e um bilhete manuscrito: “Bem-vindo. Que a paz te encontre aqui,
mesmo que o mundo lá fora te esqueça.”
Sorri.
O cansaço dissolveu-se, e a paz tomou conta de mim. Adormeci lentamente,
embalado pelo som distante do rio e pela certeza de que o dia seguinte me
guardava novas surpresas — e talvez, mais respostas para os mistérios da alma
humana.
Diário
de uma viagem – 58 dia – 23/08/2025


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