O silêncio também grita!

 


Despertei em Oslo com a serenidade de quem guardou na pele o repouso de uma noite macia. O quarto ainda estava impregnado de um perfume doce e distante, misto de lençóis mornos e silêncio. Caminhei até a janela e, ao afastar a cortina, vi a cidade a meus pés — um manto cinzento a cobrir ruas e telhados, como se o céu, caprichoso, tivesse decidido vestir-se de melancolia. Oslo parecia suspensa entre o sonho e o dia.

Depois de um banho longo, em que a água acariciava cada parte de mim como se quisesse prolongar o prazer de me sentir vivo, desci à sala de pequenos-almoços. Ah, maravilha! Os noruegueses têm esse dom raro de unir simplicidade e requinte. Mesas impecavelmente postas, pão fresco que ainda parecia exalar o calor do forno, salmão defumado em fatias translúcidas, queijos aromáticos e um café forte que acordava até os pensamentos mais preguiçosos. Sorrisos discretos e gentis vinham de todos os lados, como se a simpatia fosse um idioma oficial da cidade.

Peguei na minha mochila e saí para explorar. As ruas de Oslo têm uma paleta própria — o cinza das pedras mesclado com o vermelho discreto das fachadas históricas, o verde escuro dos parques, e um ocasional amarelo tímido das bicicletas encostadas às paredes. Passei pelo Palácio Real, majestoso e silencioso, e segui até a Ópera de Oslo, cuja arquitetura é uma dança de linhas e ângulos, como um navio ancorado eternamente. Caminhei pelo Parque Vigeland, onde esculturas de corpos nus contam histórias que vão do êxtase ao desespero humano. Cruzei-me com o Museu Munch, onde os gritos das telas pareciam ecoar também dentro de mim.

Nos outdoors espalhados pela cidade, além de perfumes e marcas de roupas, havia algo que me tocou profundamente: anúncios sóbrios, mas intensos, alertando sobre feridas do mundo — o álcool, as drogas e, de forma particularmente pungente, a violência doméstica. Um deles, da Agência Nacional pela Dignidade Humana, mostrava apenas uma cadeira caída num canto vazio, e a frase: “O silêncio também grita”. Fiquei parado por um instante, sentindo o peso daquela verdade e deixei voar a minha revolta: Quantas vezes o grito não te passou da garganta! "Quantas vezes me agrediu sem nunca falar o que eu fiz… afinal eu só queria ser feliz, mas ele nunca me desprendeu".

Vítimas silenciosas, testemunhas silenciadas, pesadelos envergonhados, paralisantes e tão aterradores. A violência no relacionamento é um fenómeno complexo e multidimensional, que atravessa classes sociais, idades e religiões, perante a passividade de uma sociedade relutante em colocar um ponto final neste tipo de crimes. 

Pois é… e por detrás das paredes sufocam vitimas queimadas na alma, castradas no corpo, sem voz, sem liberdade, acorrentadas em dor, vitimas que vão perdendo lentamente a sua esperança antes de serem consumidas, morrendo antes da morte, porque este silêncio de pânico é o maior aliado do seu agressor.

Quantas mulheres, muitas vezes preocupadas com sua capacidade de sustentar financeiramente a si mesmas e aos seus filhos, passam a ser escravas sentimentais, com o medo de terminar um relacionamento, tornando-se vitimas de um dos métodos mais poderosos de violência,

Quando o apetite me chamou de volta, procurei um restaurante junto ao rio, com vista para o Fiorde de Oslo. A água, salpicada por reflexos de luz, era um espelho líquido que parecia guardar segredos antigos. Sentei-me na esplanada, saboreando um prato de bacalhau fresco com batatas douradas, enquanto navios cortavam o horizonte. O ar tinha o cheiro salgado do mar e a promessa de viagens.

De novo nas ruas, continuei minha descoberta. O que mais me fascinava não eram apenas os prédios, mas a forma como tudo parecia respirar harmonia: o trânsito ordenado, o respeito quase sagrado pelos pedestres, e uma música suave que surgia aqui e ali — violinos, saxofones, vozes. Foi então que a vi: uma bailarina de rua. Movia-se como se dançasse para um universo secreto, com um talento tão puro que doía. Pensei nos milhares de artistas espalhados pelo mundo que nunca encontram a porta de entrada para o sucesso, fechada por lobbies e círculos restritos.

Ao cair da tarde, passei pelo bar do hotel. O diretor, um homem elegante e de voz grave, ofereceu-me uma bebida que descreveu como sua especialidade: um coquetel de aquavit norueguês, licor de framboesa e um leve toque de casca de laranja. No copo, parecia pôr-do-sol engarrafado. No paladar, era calor e frescor ao mesmo tempo.

Regressei ao quarto com a sensação de ter vivido um dia inteiro em várias vidas. O corpo pedia descanso, mas a alma ainda vagueava pelas ruas. Amanhã, bem cedo, partiria para Estocolmo, cruzando de volta à Suécia, por 523 quilômetros de estrada. Mas, naquele instante, Oslo ainda me pertencia — ou talvez eu é que tivesse pertencido a ela.

 

Diário de uma viagem – 29 dia – 25/07/2025

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