O medo de voar!
Despertei
em Talin, capital da Estônia, ainda com a alma embriagada pela noite anterior.
O vinho tinto, aveludado e intenso, talvez tivesse despertado memórias
guardadas em silêncio. Sonhos e lágrimas confundiram-se no meu rosto ao
acordar, como se o coração tivesse falado numa língua que eu ainda não sabia
decifrar. Havia em mim uma melancolia doce, misteriosa, quase sensual — o meu
sonho transportou-me nessa noite para os momentos mágicos que o amor me tem
presenteado.
Senti
lágrimas ao acordar e pensei: porque choramos? Já despertaste alguma vez a
chorar num sonho que nunca descodificaste? Todos nós queremos saber a mão que
nos toca e que nos indica o caminho que devemos seguir. Por isso quando
deixamos correr uma lagrima frágil o nosso rosto, sentimos escorregar a nossa
sensibilidade.
Todos
nós procuramos, de uma forma ou de outra confiar no poder do oculto para nos
orientar. Ainda que os caminhos e conceitos de felicidade variem de pessoa para
pessoa, há algo que nos une: o desejo de viver uma vida com sentido, preenchida
por emoções positivas e relações significativas.
Chorar
é um processo natural de restabelecer a sobrecarga emocional, de organizar
sentimentos desalinhados ou desorganiza-los de tal modo que nos pareçam
alinhados. Lágrimas contidas tornam-se toxicas no nosso organismo, tornando-nos
insensíveis e apáticos.
No
entanto, o medo, sobretudo o medo de sofrer, pode tornar-se um obstáculo silencioso
que nos impede de voar. Muitas vezes, a tentativa de evitar a dor conduz-nos à
estagnação emocional. E é aqui que surge a pergunta: estaremos realmente a
viver uma vida com significado?
Pois
é! Este medo que arrastamos do passado, vivemos no presente e transportamos
para o futuro, é um mecanismo de defesa pontual que nos torna prisioneiros
emocionais e nos impede de crescer, de nos conectar com os outros e de nos
abrir a novas possibilidades.
Resta-nos
deixar escorrer as lágrimas como uma resposta emocional complexa que altera a
nossa respiração e envolve a tristeza, a alegria, a frustração, alívio, dor ou
até compaixão, porque viver implica riscos, implica a possibilidade de falhar,
de sofrer e de ser rejeitado, mas também implica a oportunidade de sentir
alegria, amor, realização e pertença. São essas emoções intensas que dão
profundidade à nossa experiência humana. Por isso, quando deixamos correr uma
lagrima frágil o nosso rosto, sentimos escorregar a nossa sensibilidade.
Um
banho fresco devolveu-me a leveza, e o pequeno-almoço colorido, repleto de
vitaminas e sabores locais, encheu-me de energia para a jornada. Parti então em
direção a Tartu, atravessando estradas que pareciam desenhadas pela mão de um
pintor impressionista. Os campos eram de um verde vibrante, pontilhados por
flores silvestres, e as casas de madeira, pintadas em tons pastel, contavam
histórias de simplicidade e calor humano.
No
caminho, Rakvere abriu-se diante de mim como uma joia discreta. Uma cidade de
aura medieval, onde o castelo imponente vigia em silêncio, como guardião do
tempo. Almocei num restaurante típico, de paredes em pedra e madeira rústica. O
aroma de carnes fumadas e pão fresco dançava no ar. Após a refeição, caminhei
pelas ruas tranquilas, visitei o castelo e deixei-me encantar pela mistura
entre o antigo e o contemporâneo — uma cidade que respira história, mas acolhe
o presente com delicadeza.
Segui
viagem até Tartu. Já era noite quando cheguei, e o meu olhar foi imediatamente
arrebatado pela beleza luminosa da cidade. As praças iluminadas, os edifícios
coloridos e a vibração jovem faziam-na pulsar como se fosse um coração que
nunca adormece. O hotel que havia reservado revelou-se um verdadeiro refúgio:
decoração elegante, detalhes pensados com ternura e um acolhimento que me
envolveu de imediato.
Na
receção, um jovem ruivo, de sorriso gentil e olhar vivo, guiou-me com
entusiasmo. Indicou-me um restaurante onde poderia saborear a autenticidade da
cozinha local. Segui o seu conselho: o jantar foi uma sinfonia de sabores —
peixes frescos, temperos suaves e um vinho branco que parecia capturar a luz da
lua. Depois, deixei-me levar até um bar noturno, discreto, mas vibrante, onde
as paredes respiravam música. Um saxofone, quase melancólico, misturava-se com
o riso suave dos que ali estavam. Bebi lentamente um cocktail aromático,
deixando que cada nota musical acariciasse a noite, como um segredo partilhado
apenas entre mim e a cidade.
Quando
regressei ao hotel, o corpo pedia descanso, mas a alma estava leve, feliz,
tocada por um mistério doce e envolvente. A noite anterior tinha sido
turbulenta, mas esta trazia paz — ainda que eu soubesse, no fundo, que nunca
estivera tão perto de um país em guerra. E talvez fosse exatamente essa
proximidade com a fragilidade do mundo que fazia cada momento parecer ainda
mais precioso, sensual e vivo.
Diário
de uma viagem – 36 dia – 01/08/2025

Comentários
Enviar um comentário