O cheiro invisível da pólvora!
A
noite em Tartu não trouxe descanso. Pelo contrário, foi uma travessia
turbulenta, feita de sobressaltos e presságios. O silêncio da cidade parecia
apenas uma máscara frágil, porque, no fundo, o ar trazia um cheiro quase invisível
de pólvora. No meu ouvido, ainda ecoava o som distante dos mísseis, como se o
céu estivesse a rasgar-se em lamento.
Senti-me
cercado pelas vozes de um povo que até ontem vivia em paz, sorrindo nas ruas, e
que de repente conheceu a morte. O cheiro do sangue misturava-se ao da poeira
levantada por passos em fuga. Crianças gritavam pelos pais caídos, os olhos
arregalados pedindo uma resposta que não viria. Havia uma urgência de estender
a mão, como se o simples gesto pudesse deter a catástrofe.
Falta
empatia para não deixar ninguém para trás. Afinal, queremos ser uma geração que
deixa morrer ou que salva! Fugir para sobreviver, mesmo que os caminhos sejam
incertos e não haja garantia de que a jornada chegue ao fim, é a realidade de
milhões de pessoas que abandonam as suas casas arrastadas pelas guerras,
tragédias humanitárias e violação dos Direitos Humanos.
Deixam
tudo o que tem, carregando consigo apenas a esperança de sobreviver. Arriscam a
sua vida diariamente em busca de abrigo numa porta aberta, com o sonho de
unicamente de trabalhar.
Empatia!
Sim, falta empatia para estender a mão e não deixar ninguém para trás. Fechar
os olhos é fácil, difícil é lidar com o preconceito de os ajudar da forma como
for possível. Eles vivem uma vida magoada e escura; qualquer gesto de amor é
muito poderoso, qualquer luz ilumina e aquece imenso, porque às vezes faz frio
até no coração.
Eles
perderam tudo e apenas procuram uma oportunidade para recomeçar; eles procuram
um abrigo e uma comunidade que os receba como seres humanos iguais a nós; eles
procuram a Europa e os EUA, terras da solidariedade, dos Direitos Humanos e do
convívio pacífico entre a diversidade; e nós precisamos da coragem de quem não
se deixa manipular por campanhas xenófobas.
Em
pleno século XXI, a situação dos fugitivos que atravessam o mediterrâneo em
embarcações precárias não é muito diferente da mortandade que ocorria no
transporte dos escravos africanos em épocas atrás. Os poucos que conseguem
chegar deparam com a xenofobia, que impede a receção desses seres humanos,
mesmo em áreas onde a mão de obra é escassa.
Estamos
a viver a maior crise humanitária no mundo desde a IIª Guerra Mundial. É um
momento fundamental para nos definir quem somos, o que queremos, para onde
vamos enquanto civilização. Afinal, queremos ser uma geração que deixa morrer
ou que salva?
Na
manhã seguinte, ao atravessar a sala do pequeno-almoço, pedi um café forte.
Precisava dele como quem pede um fio de vida. Queria reunir energia suficiente
para visitar a beleza da cidade — a dignidade silenciosa da Universidade de
Tartu, a serenidade das margens do rio Emajõgi, a imponência da Catedral em
ruínas sobre a Colina de Toome, a melancolia guardada no Museu Nacional da
Estônia. Lugares que guardavam histórias antigas, mas que agora estavam
cobertos pela sombra de um presente incerto.
O
almoço foi simples, num restaurante modesto. O pão tinha o sabor amargo da
inquietação. As pessoas falavam baixo, como se a própria voz pudesse atrair a
desgraça. O medo estava ali, sentado à mesa, mastigando devagar, e o dia
seguinte parecia uma incógnita impossível de resolver.
Ao
cair da noite, regressei ao hotel. As pessoas da receção foram simpáticas,
calorosas até, como quem tenta, em pequenos gestos, adiar o peso da tragédia.
Mas ao olhar pela janela, do outro lado da escuridão, vi rasgos de uma luz
incandescente no céu — estilhaços de fogo seguindo em direção à Ucrânia. Era
impossível dormir. Cada clarão era um aviso, cada ruído distante, um prenúncio.
A
noite arrastou-se interminável. Quando finalmente o sol nasceu, não trouxe
alívio: surgiu vermelho, espesso, como se tivesse sido tingido pela própria cor
do sangue.
Diário
de uma viagem – 37 dia – 02/08/2025

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