No Silêncio da ausência!
Despertei em Salzburgo, com Mozart a sussurrar-me ao ouvido. A sua música parecia deslizar pelas paredes do quarto, como se o próprio espírito do compositor me desse as boas-vindas à terra onde nasceu. O sol, tímido, filtrava-se pelas cortinas pesadas, e o ar fresco da manhã trazia um perfume leve de pão acabado de cozer e flores húmidas.
Depois
de um banho refrescante, desci para tomar o pequeno-almoço — e ali, no salão do
hotel, o tempo pareceu abrandar. As colunas de mármore refletiam a luz suave
dos candelabros, e o silêncio era tão denso que até o som da manteiga a
espalhar-se sobre o pão parecia música. Um pequeno-almoço à moda austríaca:
pães dourados e crocantes, manteiga fresca, compotas doces como promessas,
fruta cortada em pedaços perfeitos e um café forte, quase divino, que
despertava não apenas o corpo, mas também a alma.
Pela
frente esperava-me uma viagem até Viena de Áustria. O céu estava cinzento, mas
sereno, como se anunciasse chuva e depois mudasse de ideia. A estrada
serpenteava entre montes verdes e vilas que pareciam tiradas de um quadro
romântico. No carro, a tocar baixinho, uma música de amor antiga, dessas que
nos fazem sorrir sem saber porquê, e suspirar sem querer.
Normalmente
não reparo nos outdoors — eles passam como sombras, ruído visual. Mas um deles
apanhou-me desprevenido: mostrava um casal de costas voltadas, uma criança no
meio com lágrimas no olhar. Por cima, lia-se: “In the silence of observe!” No
Silêncio da ausência!
Fiquei
a pensar na força silenciosa daquela mensagem, tantas vezes ignorada, perdida
no fluxo de carros e pressa. Quantas famílias vivem assim, lado a lado,
separadas por um muro de silêncio?
O
silêncio pode esconder muito mais do que a ausência de palavras — pode estar
encobrindo o fim do amor. Há um tipo de intimidade que só os corações mais
entrelaçados compreendem; aquela que permite que o insulto vire carícia, que o
palavrão soe como um beijo travesso, e que o sarcasmo seja uma dança entre o
riso e o desejo. É estranho para quem vê de fora, mas dentro daquele universo a
dois, onde a paixão se veste de ironia, há uma cumplicidade quase erótica no
ato de provocar.
Ele
a chama de teimosa, e ela sorri de canto, sabendo que ele adora esse fogo que
ela carrega. Ela o chama de idiota, com os olhos brilhando, porque conhece cada
traço da sua sensibilidade escondida. E entre uma troca de farpas e outra, há
um calor que se acumula — não de raiva, mas de uma tensão carregada de desejo.
Insultos
mais agressivos ferem, mas antes, tocam lugares profundos, como dedos
deslizando por partes sensíveis da alma. São uma forma de dizer “eu te
conheço”, “sei onde apertar”, “sei como te tirar do sério… e depois te trazer
de volta nos meus braços”.
No
fundo, é um jogo. Um jogo de poder e entrega. Eles se provocam porque confiam,
porque sabem que há amor suficiente para suportar o impacto das palavras
afiadas. Porque há esperança que isso melhore a relação, é como desafiar, na
chama que arde entre os risos debochados e os olhares que prometem mais.
Quando
se amam desse jeito, o insulto é prelúdio. É prelúdio do toque, do beijo quente
depois da discussão, do sexo que acontece não apesar das brigas, mas quase por
causa delas. É nesse contraste que mora a beleza e o jeito de ser melhor; o
equilíbrio delicado entre a guerra de palavras e a paz dos corpos entrelaçados,
é amor com gosto de provocação; é paixão vestida de ironia; é o insulto que
termina em gemido.
Mas
existe o reverso da medalha quando o silêncio grita mais alto que o amor, não o
silêncio do conforto, mas o da ausência - algo essencial já se perdeu. Quando
os desejos deixam de ser trocados, os olhares deixam de se buscar e o outro
passa a ser apenas uma presença neutra, o relacionamento está no fim.
Sobrevive,
muitas vezes o motivo que os juntou - liberdade financeira. Talvez essa relação nunca fosse uma parceria,
mas um negócio embrulhado numa fuga disfarçada. Aquele que ainda acredita que
ama em silêncio, vai ser usado como um degrau construído sobre um abandono emocional.
Relacionamentos sem desejo, sem diálogo e com interesses ocultos tornam-se
campos minados. Uma hora, alguém pisa no lugar errado… e explode.
Ao
chegar a Enns, senti fome e curiosidade. A cidade é pequena e encantadora, com
casas coloridas e ruas de pedra que parecem guardar segredos antigos. O rio
Enns, largo e tranquilo, espelha o céu cinzento e os barcos que o cruzam em
lentidão poética. Encontrei facilmente um restaurante típico, com madeira
escura, toalhas brancas e um cheiro quente de carne e especiarias. Pedi um
prato de carne tenra, cozinhada lentamente num molho encorpado, acompanhado de
cerveja fresca, dourada como o entardecer.
O
hotel que reservei ficava junto ao Danúbio, o mais antigo e elegante de Viena.
A entrada era majestosa: portas altas, lustres de cristal e um perfume discreto
de flores frescas. O staff recebeu-me com uma simpatia calorosa, como se eu
fosse um velho amigo que regressa depois de muitos anos.
Deixei
as malas no quarto e pedi uma recomendação para jantar. Indicaram-me um pequeno
restaurante na mesma rua, pertencente a um português chamado António. Sorri — o
destino tem dessas ironias doces.
O
restaurante era modesto, mas acolhedor. As paredes tinham azulejos e uma
guitarra pendurada. O António recebeu-me como se me conhecesse de infância. A
comida — bacalhau, claro — trazia lembranças do meu país, embora o sabor
tivesse uma nota estrangeira, talvez o tempero da distância. Mas o vinho do
Douro, tinto, frutado, reconciliou-me com o momento.
De
regresso ao hotel, o garçom do bar insistiu que eu provasse uma bebida
austríaca — “Marillenschnaps”, disse ele com orgulho. Um licor de damasco, doce
e ardente, que me aqueceu o peito e a alma.
Subi
ao quarto, abri as janelas — e lá estava ele: O Danúbio, sereno, imenso,
misterioso. A lua refletia-se na água como um beijo suspenso. Fiquei ali, em
silêncio, a olhar o rio que parecia respirar comigo. E, por um instante, não
soube se era o mundo que me abraçava, ou se era eu que, finalmente, me deixava
abraçar por ele.
Diário
de uma viagem – 56 dia – 21/08/2025


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