No fim… colamos os nossos corpos!
Despertei
em Olsztyn, na Polónia, com o som vibrante do meu telemóvel a interromper o
silêncio do quarto. Do outro lado, uma voz doce, quase cantada: “Acorda,
dorminhoco… estou à tua espera para o pequeno-almoço. Hoje, serás guiado por
mim. Vamos descobrir esta cidade verde.”
Sorri
ainda meio perdido no sono, mas não havia tempo a perder. Um duche fresco
devolveu-me a energia e vesti roupa desportiva, pronto para caminhar. Na sala
de pequenos-almoços, o ambiente era uma festa: frutas coloridas, sumos
vibrantes, o cheiro reconfortante de café acabado de sair e o crocante das
torradas a fazer-se ouvir. Carolina, já sentada, brindou-me com aquele sorriso
travesso que misturava humor e ternura.
Terminada
a refeição, partimos para a descoberta. Olsztyn respirava frescura: lagos como
espelhos a refletir o céu, florestas que abraçavam a cidade e, no centro, o
imponente Castelo Gótico do século XIII, guardião de histórias e de Nicolau
Copérnico, que ali viveu e estudou as estrelas.
Carolina,
entusiasmada, contou-me que debaixo do castelo se escondiam túneis e cavernas
misteriosas, com achados arqueológicos e recantos secretos onde, dizia a lenda,
os namorados se declaravam em sussurros eternos. Ela piscou-me o olho e riu-se:
“Não te preocupes, hoje não te vou prender lá em baixo… ainda!”
Seguimos
pela rua mais movimentada da cidade, mas sem a pressa caótica das grandes
metrópoles. Lojas, cafés e uma vida tranquila que parecia dançar ao nosso
redor. De repente, Carolina aproximou-se, com voz sedutora, mas humor leve: “Vou
pegar na tua mão para não te perderes.”
O
toque da sua mão, suave e quente, era-me familiar e, o jeito como ela
entrelaçava os dedos transmitia-me segurança, ternura e uma sensação
indiscritível de bem-estar. Caminhávamos não apenas pela cidade, mas também por
uma cumplicidade que ia crescendo em cada passo.
A
distância entre o tempo depende da intensidade com que o vivemos. O valor das
coisas não está no tempo que elas duram, mas na felicidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis, pessoas
incomparáveis, momentos iluminados de lua cheia e outras vezes mais apagados.
Há
pessoas que passam pelas nossas vidas e que deixam um sentimento interminável.
As que permanecem é porque simplesmente ofereceram seu coração para entrar em
sintonia com a nossa alma. Mas não importa que tipo de atitude tiveram. Com
elas aprendemos muito!
Aprendemos
a perdoar, aprendemos amar, aprendemos a respeitar a liberdade de cada um,
aprendemos o verdadeiro sentido da palavra amizade, mas nunca ninguém nos vai
ensinar como reagir diante da "saudade" que algumas pessoas deixam em
nós.
O
que vivemos foi só um acaso e nada mais, só uma vírgula numa história que nem
começou. Por baixo do brilho da Lua, teu jeito sem jeito encantou a minha vida,
e semeou a amizade misteriosa e sublime que nos juntou.
Para
chegar até aqui, tivemos disposição de criança e um sonho de adolescência. Quanto
mais aprendemos mais descobrimos que não sabemos nem metade e isso é a prova
que o tempo não tem nada a ver com a idade.
Já
tarde, entrámos num restaurante acolhedor que ela conhecia. O ambiente era
íntimo: luz baixa, velas a tremeluzir, música suave ao fundo. Pedimos um bife
suculento acompanhado de um vinho tinto polaco que surpreendeu pela riqueza. O
vinho soltava gargalhadas e confidências, e a sobremesa — um sernik, o
cheesecake polaco, leve e doce — parecia feita para prolongar o momento.
Depois
do almoço, passeámos junto aos lagos que cercam Olsztyn. O pôr do sol dourava a
água, e entre conversas sobre Portugal, sobre nós, sobre guerras e esperanças
para a humanidade, sentia que aquele instante era mais do que turismo: era
partilha de alma.
À
noite, Carolina parou, olhou-me com ar provocador e perguntou: “E agora? O que
vais fazer de mim?” Propus irmos ao restaurante do castelo, perfeito para fechar
o dia em beleza. Ela arregalou os olhos e disse, com graça: “Ah, Maurício… mas
é uma fortuna!” Convenci-a de que aquele dia merecia ser coroado de forma
especial. Ela sorriu maliciosa, aproximou-se do meu ouvido e murmurou só para
mim: “Então, no fim… colamos os nossos corpos. Conheço uma discoteca aqui perto
onde só toca música romântica.”
A
discoteca parecia saída de um sonho: luzes suaves em tons de azul e dourado,
música lenta que embalava corações. Dançámos colados, os nossos corpos
movendo-se ao ritmo das melodias. Os passos eram lentos, mas os sussurros eram
rápidos, cheios de promessas. Cada canção parecia escrita para nós, e cada
abraço prolongava-se como se o tempo não tivesse pressa.
Naquela
pista, descobrimos que a amizade também pode ser sensual, que o riso pode
caminhar de mãos dadas com o desejo, e que a ternura é o mais sólido dos
pilares.
Já
era madrugada quando voltei ao hotel. Mal reparei no quarto: deitei-me e senti
apenas que aquela noite tinha sido um berço de suavidade.
Em
Olsztyn, tinha ganho uma cidade… e uma amiga para a eternidade.
Diário
de uma viagem – 45 dia – 10/08/2025

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