Não te ausentes, não te feches, nunca desistas de ti!

 


Acordar no centro de Munique, numa suíte digna de reis, foi como emergir de um sonho das “Mil e Uma Noites” — desses que misturam mistério, perfume e fantasia. A seda dos lençóis ainda guardava o calor do meu corpo quando o toque do telefone me arrancou do devaneio. Era a minha melhor amiga. A sua voz vinha embargada, cheia de dor e solidão. Senti as lágrimas escondidas entre as palavras, e tentei, à distância, abraçá-la com a calma que não tinha.

Quando estamos tristes levantamos os olhos para o céu como quem busca respostas... ou só um pouco de paz. E, neste silêncio entre o mundo e o infinito, uma lágrima escorre no nosso rosto, leve solitária, como se fosse um pedaço de dor querendo voar.

Não te ausentes, não te feches, nunca desistas de ti. Há momentos em que Deus parece ser o único que nos entende. Olhamos para o céu em silêncio e deixamos escorregar uma lagrima, como um acordo secreto entre o que estamos a sentir e o que não conseguimos explicar.

Não ser amada dói, mas não ter a capacidade de amar é carregar um vazio que nem a dor consegue preencher. Não ser amada dói, quando os olhos buscam abrigo e encontra apenas o reflexo do nada. Mas haverá dor mais muda, mais fria, mais funda do que não ter a capacidade de amar?

É como andar entre as flores sem nunca sentir o perfume, é como tocar a pele macia sem sentir o calor. O coração bate apenas para viver, o olhar vê, mas não se encanta, o corpo vive, mas não pulsa. É uma solidão sem lágrimas, é uma ausência de luto.

O amor não é um sentimento de soluções rápidas, de respostas em poucos toques. No amor não há atalhos, só caminhos e quem ama aprende a caminhar devagar sem GPS, contemplado a beleza de ir descobrindo na caminhada um ao outro. Não falo de estradas lisas, com sinaléticas indicando certezas, falo de trilhas tortas, calçadas rachadas, pontes sustentadas por pilares de confiança,

Vivemos numa cultura imediatista, em que tudo precisa dar certo logo. Muitas vezes falta paciência para lidar com os pormenores naturais de um relacionamento. Quando a vida nos torna competitivos, sentimos a necessidade de soluções rápidas e recompensas imediatas, diminuímos a intimidade e encurtamos o espaço entre a tolerância e a frustração.

Afinal, nós entramos num relacionamento com a melhor das intenções. Só queremos amar e ser amados; até fantasiamos como seria passar o resto da vida ao lado um do outro. Criamos mil planos e procuramos fazer todo o possível para agradar e cativar a pessoa amada, mas, de repente, tudo desaba como num castelo de cartas.

A pessoa vai embora, por algum motivo fútil, ou mesmo sem motivo algum. Simplesmente vai porque aquele não é o seu lugar. Afinal, todos temos um tempo onde vamos encontrar a felicidade; não te esforces, segue serenamente o teu caminho que um dia ela vai chegar. Às vezes ficamos impacientes, mas a vida tem o seu próprio ritmo, e esperar faz parte do nosso crescimento.

Cada coração tem o seu relógio secreto; às vezes, os ponteiros parecem parados, como se a felicidade estivesse atrasada para o encontro, mas não está, ela vem no passo certo, no compasso da alma que aprende, no silêncio que ensina, na esperança que resiste.

A felicidade não é uma estação de trem onde esperamos sentados, é um caminho que se faz andando, mesmo com o peito ferido. Por isso amiga, confia. O teu tempo está a chegar!

Depois do silêncio partilhado, levantei-me. Um banho fresco devolveu-me a vida — a água escorria pelo corpo como se quisesse despertar não só a pele, mas também os pensamentos adormecidos. Munique esperava-me, essa cidade que já me conhece os passos e os caprichos.

Quando entrei na sala de pequenos-almoços, por um instante, esqueci-me de respirar. O aroma do café misturava-se com o cheiro quente do pão estaladiço e o brilho dourado dos queijos artesanais. As mesas eram um banquete de cor e tentação: cestos de frutas maduras, travessas de mel, charcutarias impecavelmente dispostas. O salão — amplo, elegante, com cadeiras de veludo azul e luz dourada filtrada por cortinas translúcidas — parecia mais uma pintura impressionista do que uma simples sala de hotel.

O staff movia-se com graça quase coreografada. Jovens de sorriso fácil e olhar curioso serviam cada mesa com uma sensualidade discreta, sem exageros, mas suficiente para fazer o sangue circular mais depressa. A manhã ganhava ritmo, e eu também.

Depois do café, carreguei a mochila, um caderno e o inevitável desejo de me perder pelas ruas da cidade. Munique, capital da Baviera, é uma mistura de tradição e audácia: os prédios centenários erguidos como guardiões do tempo, os museus que respiram arte e história, as praças que vivem entre o passado e o futuro.

Caminhei até à Marienplatz, onde o relógio do Neues Rathaus, com as suas figuras dançantes, me lembrou que a vida também é um teatro. Passei pelos jardins do Englischer Garten, onde o verde parecia respirar, e o murmúrio do rio Isar trazia consigo promessas de tranquilidade.

Quando a fome começou a reclamar presença, encontrei um restaurante elegante junto ao rio — o tipo de lugar onde o tempo abranda e o apetite desperta. As mesas de madeira polida refletiam a luz suave do entardecer, e o aroma que vinha da cozinha era puro convite à perdição.

Ela — a mulher que servia — destacou-se de imediato. Alta, de passos felinos, olhar brincalhão e lábios desenhados com precisão perigosa. O toque das suas mãos ao pousar o prato tinha algo de ritual. Senti que, de repente, qualquer refeição se tornava mais saborosa só pela forma como ela a apresentava. Pedi uma cerveja bávara, daquelas que fazem jus à fama: encorpada, fria, com espuma densa e o poder suficiente para libertar sorrisos e dissolver pensamentos.

Enquanto saboreava o prato e a paisagem, escrevi algumas linhas no meu blog — talvez sobre a ironia da solidão nas cidades que nos acolhem com tanto afeto.

A tarde escorreu lenta. Deambulei pelo Viktualienmarkt, o mercado vibrante onde o perfume das especiarias se mistura ao som de vozes animadas e copos que se tocam em brindes espontâneos. Provei queijos locais, pedaços de pretzel e salsichas suculentas, cada sabor uma pequena celebração bávara.

Notei o espírito leve das pessoas, o riso fácil, os olhares diretos — especialmente das mulheres, tão seguras, tão livres. Munique tinha algo de provocante, uma energia que se insinua sem pedir licença.

À noite, guiado pela promessa de boa cerveja e música, entrei num dos bares mais badalados da cidade. O ambiente era elétrico: gargalhadas, cheiros, corpos em movimento. Entre goles e conversas, o tempo dissolveu-se.

Cansado, mas com o coração cheio, regressei ao hotel. O quarto esperava-me em silêncio e penumbra, mas antes de adormecer abri o computador num gesto quase automático — essa mania moderna de querer saber o mundo antes de o deixar em paz. A página que surgiu era a do desporto, e o que encontrei foi o mesmo cenário de sempre: palavras alinhadas em torno dos três grandes templos do futebol português — Benfica, Porto e Sporting.

Mas bastou esse instante para o desconforto se instalar. Onde estavam as outras histórias? Onde estavam os clubes pequenos, os atletas anónimos, as modalidades esquecidas? Onde se escondem aqueles que carregam o nome de Portugal além das fronteiras, não por fama ou dinheiro, mas por amor, esforço e sacrifício?

Percebi, então, que não é apenas a Google que escolhe o que vale a pena ler. Também nós, como sociedade, escolhemos o que queremos ver — e quase sempre é aquilo que dá mais likes, mais lucro, mais ruído. Vivemos subjugados ao império da visibilidade, onde o valor se mede em cliques e não em mérito.

A comunicação social, que deveria ser o espelho da verdade, transformou-se num palco de interesses. Quando um pequeno clube enfrenta um dos “grandes”, a parcialidade torna-se quase palpável. Os comentários deixam de ser análise e passam a ser idolatria. Parece que estamos a assistir a um duelo desigual entre o poderoso e o invisível — e nós, sem percebermos, tornamo-nos cúmplices desse desequilíbrio.

Mas a questão vai além do futebol. É um espelho do que somos e do que fazemos nas nossas próprias vidas. Quantas vezes escolhemos o que “rende mais” em vez do que é justo? Quantas vezes fazemos o que “beneficia” apenas a nós, e esquecemos o que beneficia todos?

A justiça humana — essa palavra tantas vezes usada e tão raramente praticada — nasce exatamente dessa escolha: agir pelo bem comum, mesmo quando isso não traz glória, nem riqueza, nem manchetes.

E perguntei-me, entre o cansaço e o pensamento: afinal, a que classe de português pertenço eu? À dos que aplaudem o poder, ou à dos que ainda acreditam que a dignidade não se mede em euros nem em audiências?

Talvez a verdadeira grandeza esteja justamente naqueles que jogam em campos pequenos, com balizas tortas e bolas gastas, mas que continuam a correr com o coração cheio — porque sabem que a vitória não é vencer os outros, mas vencer-se a si mesmo.

Fechei o computador. A cidade dormia. E eu, entre a justiça e a distância que me liga à realidade, percebi que há batalhas maiores do que qualquer campeonato: a de manter a consciência limpa e o coração justo num mundo que insiste em premiar os interesses.

Finalmente deitei-me e deixei que o cansaço me cobrisse como um lençol morno. Antes de adormecer, pensei — talvez Munique fosse mesmo uma mulher: sedutora, imprevisível, um pouco melancólica… e impossível de esquecer.

 

Diário de uma viagem – 53 dia – 18/08/2025

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