Mulheres desenhadas com vestidos colados!

 


Quando abri as janelas, ainda a madrugada se espreguiçava em silêncio. O dia, tímido, espreitava detrás de um véu de nevoeiro que beijava a cidade e namorava o rio — um namoro antigo, daqueles que nunca se assumem, mas que toda a gente sente. O frio entrou pela janela como um amante tardio, atrevido, e arrepiou-me a pele.

Coloquei música alegre enquanto o vapor do duche transformava o espelho num palco de fantasmas e recordações. A água quente escorria-me pelo corpo com uma ternura quase erótica, lavando o sono e reacendendo o desejo de viver - ou, talvez, de reviver.

Na sala de pequenos-almoços, o mundo parecia dançar. O jardim em frente cintilava com as primeiras luzes da manhã, e dentro da sala havia flores humanas — mulheres desenhadas com vestidos colados, sorrindo com um ar provocador. Moviam-se com a suavidade de quem faz amor ao som de uma melodia secreta. As mesas eram altares de cor e aroma: frutas, pães dourados, café forte a perfumar o ar. O cheiro das torradas lembrou-me a casa da minha avó - aquele fogo de lenha a estalar, o riso dela a encher o espaço. Por momentos, viajei no tempo.

Teria ficado ali o dia inteiro, ancorado na nostalgia, se não fosse a estrada que me chamava. Budapeste esperava-me - nome de mulher e promessa de aventura.

Malas feitas, carro limpo e perfumado, música boa a embalar o coração. Parti. Atrás de mim ficou parte da alma - naquela sala viva, colorida, quase carnal na sua beleza. As janelas deixavam entrar a luz em sussurros dourados, as cortinas dançavam como véus em cerimónia secreta, e o som das gargalhadas femininas era uma ode à vida.

A estrada desenrolava-se como uma fita de seda. As árvores, vestidas de verde escuro, trocavam confidências com o vento. O céu, encoberto, tinha a cor dos domingos preguiçosos, e a paisagem fazia-me lembrar noites à lareira em Portugal - vinho tinto, mãos quentes, histórias murmuradas entre beijos e silêncios. A música tocava-me fundo, e em cada acorde eu oscilava entre a felicidade e a melancolia, entre o que fui e o que ainda quero ser.

Ao lembrar-me da mensagem do dia anterior, foi tecendo os meus pensamentos, embalados pelas recordações. Ninguém cruza no nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão!

Eu acredito nos momentos supremos em que a alma recorda com a emoção, ou com parte da memória, um momento, um aspeto ou uma sombra de uma encarnação anterior. Eu queria muito regressar para tirar nódoas da alma, clarear pensamentos, instigar os ímpetos, fertilizar as ideias e procurar-te em forma de liberdade.

Passamos a vida em busca da felicidade como baratas tontas. Pelo meio acreditamos em falsas promessas, num passado que já se apagou, num futuro que ainda nem existe e no agora esquecemo-nos de “ser!

Mas, a verdade é que é preciso ter coragem para se ser feliz assumindo a vulnerabilidade. Todos tentamos encontrar a felicidade à nossa maneira, mas, muitas vezes, somos sugados e acabamos por, inconscientemente, seguirmos o caminho desenhado por falsas promessa.

Não consegui ainda vasculhar suficientemente bem o meu cérebro, para entender qual é o motivo que me leva a suporta-las durante tanto tempo. Na verdade, a fé move montanhas, e segura a nossa paciência, assumir uma derrota calculada à dúvida da vitória, desperdiçando a oportunidade do tempo que nos resta para ser feliz.

À nossa volta há muitas experiências que não compreendemos. Experiências extraordinárias ou sobrenaturais que nos coloca numa zona de fronteira do espírito humano, onde é fácil perder as coordenadas.

Ele fica sussurrando ao meu ouvido o que vai acontecer, mas eu duvido dos sinais. Rejeito antecipar o futuro e até fico serenado em pensar que o outro “Eu” está errado, mas, por diversas vezes, a vida já me ensinou que quem está errado não é o “outro”, sou eu!

Claro que os sentimentos nunca são lógicos, nem é fácil racionalizar as nossas emoções, mas se não queres cair na escuridão da tua ignorância, não abandones a matemática de um é pouco, mas dois é demais. Permite-te escutar o teu outro “Eu”, descodificar a clarividência e tomar comportamentos mais desapegados.

Nem sempre temos a sabedoria para lidar com os acontecimentos e o poder de separar o certo do errado, mas como seres intuitivos não podemos abandonar a ideia de nos segurar na ancora da razão.

Ao chegar a Miskolc, já em solo húngaro, o estômago decidiu votar pela democracia: era hora de comer. Estacionei junto a um castelo medieval, altivo, como quem guarda segredos de séculos. A poucos passos, uma rua pedonal fervilhava de vida — cheiros, vozes, risos. Um aroma de carne grelhada puxou-me como uma promessa. Entrei.



O restaurante era um tesouro antigo habitado por gente nova. As paredes contavam histórias em fotografias amareladas; o chão rangia com memórias de gerações. Os jovens que serviam guardavam, com um respeito quase sagrado, as receitas que lhes foram confiadas. O vinho era robusto, o pão crocante, a carne derretia-se como uma lembrança boa na boca.

O povo húngaro é de uma frontalidade desarmante — olham-te nos olhos, falam pouco mas sentes que te dizem tudo. A vida ali parece mais honesta, mais sólida. Há segurança nas ruas e nos gestos. Mesmo os silêncios são acolhedores.

Depois do almoço, caminhei pela cidade uma hora apenas - tempo suficiente para me apaixonar. Igrejas que pareciam suspensas no tempo, praças com esculturas que respiravam arte, e aquele ar de cultura viva, pulsante, que se sente mais do que se vê. Mas Budapeste chamava, e o dia corria.

A viagem seguiu leve. A paisagem da Hungria é de uma beleza silenciosa - campos largos, colinas suaves, estradas impecáveis que se perdem no horizonte. O céu, mesmo encoberto, parecia cúmplice do meu humor.

E então, finalmente… Budapeste. A cidade apareceu diante de mim, iluminada, colorida, dividida pelo Danúbio como dois corpos que se amam à distância — ligados apenas pelas pontes, que tremeluzem como joias à luz da noite.

O hotel era grandioso, um colosso erguido à beira do rio. A entrada cheirava a luxo discreto e hospitalidade verdadeira. A rececionista, de olhos verdes como azeitonas maduras, recebeu-me com um sorriso que prometia mais do que simples boas-vindas. Ofereceu-me um cálice de vinho doce, com sabor a amêndoas, e perguntou: “Solo?” Respondi que sim. Ela sorriu, pegou noutro copo e disse: “quando recebemos clientes sozinhos, brindamos juntos.”

Pensei: esta deve ser a cidade com mais almas solitárias por metro quadrado. Espero que neste hotel não apareçam muitos clientes sozinhos, porque senti álcool na bebida. “Sou Lorena” - disse ela, num espanhol perfeito, voz de veludo e riso discreto.  “Estou aqui para te ajudar”.

Indicou-me o que ver, onde jantar, e sugeriu um bar elegante para terminar a noite. Antes de se despedir, piscou-me o olho e disse: “Talvez nos encontremos por lá. Gosto de ir quando acabo o trabalho.”

O jantar foi uma bênção. Um vinho branco delicado, fresco, que me embalou o cansaço. Olhava as pessoas, os casais, a vida húngara a girar à minha volta, e senti-me leve, como quem viaja por dentro de si mesmo.

No fim, o corpo pediu descanso. Já não tinha pedalada para ir ao bar. Subi ao quarto, abri a janela, e deixei o vento do Danúbio entrar.

Budapeste dormia, e eu sonhava -  senti que a cidade era uma aventura que estava apenas a começar.

 

Diário de uma viagem – 60 dia – 25/08/2025

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