Eu quero partir como quem chega!

 


Sai de Vílnius já o dia estava crescido, arrastando comigo a leveza da noite passada e o peso de uma desilusão. A festa havia sido alegre, envolta em gargalhadas e promessas fugazes, mas a madrugada que deveria terminar em sonho terminou em cicatriz: bastou a luz fria do ecrã do telefone, bastaram as mensagens que li, para que a alma se partisse em silêncio. Como pode a ingratidão apagar tudo o que um dia foi doçura? É como uma lâmina afiada: corta a memória do que foi bom, para deixar ecoar apenas o amargo. Quem vive do próprio “eu” faz da vida um cárcere, e eu senti-me prisioneiro por instantes.

Mas a água fresca do banho trouxe-me um renascimento. As gotas, como dedos suaves, devolveram-me o corpo. Os aromas cítricos e a espuma perfumada purificaram a dor, enquanto o café forte e escuro, aliado às cores vivas das frutas, despertava-me para um novo dia. Havia ainda tanto por viver, e a estrada para Olsztyn prometia segredos.

A paisagem lituana despedia-se de mim com campos largos, salpicados de verdes intensos e flores miúdas que se inclinavam ao vento, como mãos em aceno. A música que tocava no carro—melodias suaves, quase etéreas—misturava-se ao palpitar do meu peito, e uma saudade precoce nasceu: saudade da Lituânia, das ruas de Vílnius, das histórias que ficaram por contar.

Ao aproximar-me da fronteira com a Polónia, o céu começou a pintar-se de cinza com traços rosados, como se anunciasse que os sentimentos que levava comigo também teriam as suas sombras e auroras. Parei em Suwałki para almoçar. A cidade recebeu-me em silêncio, com ruas discretas, como se guardasse segredos. Encontrei um pequeno restaurante numa viela tranquila: as mesas de madeira gastas, as toalhas brancas e um garçom que me serviu com simplicidade e graça. Pedi uma refeição leve—carne bem temperada, legumes frescos—acompanhada por uma cerveja dourada que deslizou pela garganta como um bálsamo. Mas foi a sobremesa, um bolo húmido, doce e perfumado, que me marcou: o sabor prolongou-se na boca como um beijo roubado, desses que permanecem até na pele da memória.

Suwałki parecia suspensa no tempo. Caminhei depois pelas ruas da cidade, e a sensação de paz era tão densa que parecia quase irreal. Contudo, era uma paz contraditória: ali, no chamado corredor de Suwałki, a geografia recorda constantemente a fragilidade humana. Uma faixa de terra estratégica com aproximadamente 70km, uma região que liga o enclave russo de Kaliningrado à Bielorrússia, representando também uma importante ligação terrestre para os países bálticos. Um ponto estratégico e vulnerável, considerado por muitos o lugar mais perigoso do mundo. Mas não senti medo. A cada passo, percebia que a vida é sempre risco – e se a morte me encontrar, eu quero que me encontre vivo e não escondido.

Quando a morte me encontrar, quero que me encontre com os pés sujos de terra, o coração acelerado por ter amado demais, e os olhos cansados de tanto contemplar o mundo. Quero que ela me veja inteiro, gasto pelo tempo, mas não desperdiçado por ele.

Quero que me encontre rindo, mesmo que entre lágrimas. Que veja em mim os sinais de quem chorou pelas dores que importavam, mas também se curou com a beleza de um pôr do sol, o cheiro do café recém-moído, o toque de uma mão querida.

Quero que me encontre rodeado de histórias, não apenas contadas, mas vividas. Histórias com rugas, com erros, com perdões, com abraços longos, silêncios sinceros e palavras que ficaram quando o resto passou.

Não quero que me encontre intacto, como quem nunca ousou. Quero que ela veja em mim as marcas das batalhas que enfrentei por amor, por sonhos, por pessoas que talvez nem saibam o quanto foram importantes. Que me veja com cicatrizes que contam sobre recomeços, não sobre finais.

Que a morte me encontre vivo. Intensamente, profundamente, humanamente vivo. Porque morrer não é o pior, o pior é nunca ter vivido. E eu… eu quero partir como quem chega: de peito aberto, com alma leve, e um sorriso que diga, sem precisar de palavras, “valeu a pena.”

Sim, valeu a pena o amor que não vivi. Valeu a pena, sim; mesmo que o tempo tenha passado sem nós, mesmo que os olhares tenham se cruzado com toques leves e seguido caminhos diferentes,

Valeu a pena o amor que eu sinto por ti, sim valeu; porque sonhei, e no sonho, éramos tudo o que a realidade não teve tempo de permitir. Houve beleza até na ausência, houve ternura até no silêncio. Valeu a pena o que ficou por dizer, porque mesmo caladas, as palavras moram em mim com a delicadeza de uma esperança tímida.

E o que não tocamos com as mãos, tocamos com o coração. Esse sonho que não foi, ensinou-me o que poderia ter sido; e de um modo estranho, também me ensinou que quando o amor se esvazia, faz-nos crescer e aceitar os caminhos que a vida nos deu.

Mas vale a pena sentir a dor da tua falta e guardar em mim o espaço que é teu, porque às vezes o que não acontece também nos molda, também nos marca; por isso, mesmo sem começo, meio ou fim, eu digo com a alma leve: valeu a pena o pouco tempo de amor que vivi em ti.

Quando a morte me encontrar, eu quero que me encontre vivo! Quero que me encontre rodeado de histórias, não apenas contadas, mas vividas. Histórias com rugas, com erros, com perdões, com abraços longos, silêncios sinceros e palavras que ficaram quando o resto passou.

Visitei a Praça Konopnicka, com a estátua da poetisa que deu nome à cidade, admirei a Igreja de São Alexandre com sua imponência discreta, e caminhei até o Parque Konstytucji 3 Maja, onde o verde me oferecia repouso. Descobri também o Museu Regional, repleto de relíquias da história local, e percebi como Suwałki era pequena, mas carregada de histórias grandes.

Segui viagem no meio da tarde. A estrada para Olsztyn parecia uma pintura em movimento: campos dourados, florestas densas que guardavam mistérios, lagos que refletiam a luz como espelhos mágicos. As casas dispersas, com telhados vermelhos e hortas bem cuidadas, mostravam uma vida simples, em harmonia com a natureza. O trânsito rareava e o silêncio da estrada tornou-se cúmplice do meu pensamento.

Cheguei a Olsztyn já cansado. Sem forças para procurar um restaurante, aceitei o refúgio do hotel. Mal sabia que ali me esperava a surpresa que transformaria aquele dia cinzento em algo luminoso. Na receção estava uma mulher elegante: sorriso luminoso, casaco azul, saia travada com uma racha insinuante, cabelo castanho preso. No peito, um crachá: “Carolina”. O coração deu um salto - um nome português, uma ponte inesperada com a minha terra. Hesitei, e depois perguntei em voz baixa: “do you speak Portuguese?” O sorriso dela abriu-se ainda mais: “sim, sou do Norte de Portugal, da Beira Interior.”

Naquele instante, a saudade bateu forte. Ouvir o português era como ouvir a voz da infância, o eco da pátria distante. Conversámos, e percebi que a vida também guarda presentes nas esquinas mais improváveis. Carolina contou-me da sua partida, das razões que a levaram a emigrar, e ouviu com atenção o meu percurso até ali. Os olhos dela brilhavam com a mesma saudade que eu sentia.

O restaurante do hotel já estava encerrado e, que naquela hora, já não haveria restaurantes abertos na cidade, mas, ela mesma, com uma delicadeza que me desarmou, ofereceu-se para preparar uma refeição leve no bar do hotel para ambos.  Aceitei, e o jantar tornou-se pretexto para uma longa conversa. A cada palavra, nascia não só uma amizade, mas também uma chama suave, feita de ternura e cumplicidade.

Quando enfim regressei ao quarto, cansado, mas sereno, encontrei em cima da mesa um frapé com gelo, uma garrafa de vinho rosé e dois copos. Sorri. Pensei no fantasma que me acompanha para podemos brindar - ou talvez, apenas talvez, fosse um sinal de que a vida, mesmo depois da dor, ainda sabe surpreender.

Diário de uma viagem – 44 dia – 09/08/2025

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