Este é o enigma intemporal!
O
pequeno-almoço foi servido numa sala ampla e luminosa, repleta de turistas e
visitantes que, como eu, estavam na cidade para assistir a um importante evento
na University of Helsinki sobre a teoria do Big Bang. O encontro, para além de
explorar a origem do universo, dedicava-se também a refletir sobre a jornada
humana — de onde viemos e para onde vamos. Essa proposta intelectual deixou-me
ainda mais curioso e ansioso pela palestra.
Após
saborear um pequeno-almoço farto — pão fresco, queijos locais, salmão fumado e
café aromático — parti para descobrir os encantos da cidade. Comecei pela
Catedral de Helsínquia (Helsingin tuomiokirkko), imponente no alto da Praça do
Senado, com a sua arquitetura neoclássica a brilhar sob o céu limpo. Segui para
a Praça do Mercado (Kauppatori), um ponto vibrante à beira-mar, repleto de
bancas com artesanato, frutas silvestres e especialidades finlandesas. Caminhei
até à Fortaleza de Suomenlinna, Património Mundial da UNESCO, acessível por
ferry, onde muralhas, túneis e vistas abertas para o mar Báltico contam histórias
de defesa e comércio.
Passeei
ainda pelo Parque Esplanadi, um jardim elegante no coração da cidade, perfeito
para sentir a vida local, e visitei a intrigante Igreja de Temppeliaukio,
escavada diretamente na rocha, cuja acústica e atmosfera são de uma serenidade
única. Mais adiante, subi à Torre de Observação do Parque Olímpico para admirar
Helsínquia a partir das alturas.
Já
tarde, almocei num restaurante com vista para o Rio Vantaa. As águas tranquilas
refletiam as cores do céu e das árvores, criando um cenário quase pictórico. O
prato escolhido foi um filé de lúcio-perca fresco, grelhado no ponto certo,
acompanhado por batatas novas salteadas em manteiga e ervas, e um molho
delicado de endro. Uma verdadeira celebração do sabor nórdico.
Depois,
dirigi-me para a University of Helsinki, onde assisti ao evento sobre o Big
Bang. As palestras e imagens trouxeram uma perspetiva fascinante sobre a origem
do cosmos, a formação das galáxias e, inevitavelmente, a nossa posição nesse
imenso enredo cósmico. Saí com a mente a fervilhar de novas ideias, uma
curiosidade renovada e muitas dúvidas.
Afinal
quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Qual é o sentido da vida? Este
é o enigma intemporal que todos queremos descobrir. Embora possamos nunca
descodificar o maior de todos os mistérios, o que acontece depois da morte,
temos a perceção de podemos fazer parte de algo que ultrapassa a nossa
compreensão.
Os
avanços científicos permitem-nos perlongar a nossa existência física, mas será
que este progresso trouxe mais conhecimento para obtermos respostas? Tudo
indica que não! O mundo moderno parece ter trazido desorientação, solidão e
vazio. Passamos mais acreditar na morte durante a vida do que na vida depois da
morte. Fintamos a morte e vivemos como se fôssemos eternos até sairmos de cena
sem aviso prévio.
Será
que esta ausência física não é mais do que uma mudança de forma e de condição
das energias e atividades que nos determina? Será que o nosso belo corpo não é
uma entidade, mas sim um mero agregado de células, e estas células são simples
veículos materiais para determinada forma de energia que as anima e vitaliza?
Então
voltamos ao mesmo mistério, o que acontece imediatamente após a morte física?
Se despertamos para um plano astral, quais as nossas tarefas na evolução
cósmica. Pois é!... nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos
sozinhos. Só através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão,
durante um momento, de que não estamos sozinhos.
Sendo
assim, a vida humana é um fragmento da realidade e se estende ao infinito no
tempo e em diferentes estados de manifestação. Viemos da dimensão extrafísica e
para lá retornaremos. Cá ou lá, somos seres vivos autoconscientes com
capacidade de pensar, sentir e atuar com deliberação própria. Somos princípios
inteligentes que sobrevivem à morte física e responsáveis por gerir a nossa
consciência.
De
um modo geral, vivemos a vida como se nada disso acontecesse. Cultivamos
esperanças e muitas delas são fortalecidas por ilusões. Até acredito que
tenhamos fé numa outra vida após a morte, mas na hora de atravessar a rua nós
olhamos para os dois lados. Afinal quem somos nós? De onde viemos? Para onde
vamos? Qual é o sentido da vida? Este é o enigma intemporal que todos queremos
descobrir.
Ainda
com tempo e energia, retomei a descoberta da cidade até ao pôr do sol,
explorando pequenas ruas, cafés acolhedores e lojas de design finlandês. Já ao
anoitecer, regressei ao hotel, onde jantei de forma simples, mas reconfortante.
No restaurante, encontrei a jovem cozinheira que, com um sorriso cúmplice,
parecia perguntar-me se tinha gostado do bolo que na noite anterior deixara no
meu quarto.
A
noite prolongou-se no bar do hotel, numa conversa atenta com um simpático casal
que também participara no evento do Big Bang. Entre risos e reflexões sobre
ciência, arte e viagens, senti que o dia tinha sido totalmente preenchido — com
beleza, conhecimento e bons encontros. Helsínquia já tinha conquistado um lugar
especial na minha memória.
Diário
de uma viagem – 33 dia – 29/07/2025

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