Então! Convidas-me para almoçar?
Ainda o sol se espreguiçava preguiçosamente no horizonte quando abri a janela do meu quarto, virada para o rio Pegnitz. O ar fresco da manhã acariciou-me o rosto com a delicadeza de um primeiro beijo, e a paisagem diante de mim parecia saída de um sonho antigo: a ponte de pedra, elegante e silenciosa, ligava a pequena ilha ao coração de Nuremberga. As águas do rio, douradas pelos primeiros raios, corriam tranquilas, refletindo as fachadas enxaimel e as torres medievais que se erguiam, altivas, como guardiãs do tempo.
Um
banho fresco despertou-me por completo, avivando cada sentido, como se
preparasse o meu corpo e alma para um dia de descobertas. A fome chegou leve,
convidativa. No salão do hotel, um pequeno-almoço tipicamente alemão
aguardava-me: pães estaladiços ainda quentes, queijos aromáticos, enchidos
fumados, fruta fresca de cores vivas e um café intenso que perfumava o
ambiente. Cada sabor parecia dar-me energia nova, como se a cidade me acolhesse,
sorrindo, para um dia inesquecível.
Nuremberga
tem tudo para me seduzir. É charmosa, rica em história, culturalmente vibrante
e gastronomicamente única. Verde, moderna e fácil de percorrer a pé, mas ao
mesmo tempo envolta numa atmosfera medieval encantadora, preserva com orgulho o
seu castelo e uma muralha de quatro quilómetros que abraça o centro histórico
como um colar antigo cheio de memórias.
Caminhar
pelas suas pontes e ruelas estreitas é como entrar num romance vivido há
séculos. As fachadas em madeira entrelaçada, os sinos das igrejas, o murmúrio
do Pegnitz e a luz suave que dança entre os telhados criam um cenário quase
irreal.
Ao
final da manhã, o meu coração bateu mais forte: tinha encontro marcado com a Leni,
uma amiga muito querida que conheci em Portugal, e que o destino agora voltava
a colocar no meu caminho. Recebeu-me com um sorriso cheio de ternura e
abraçou-me como se o tempo não tivesse passado, mas senti no seu olhar que algo
não estava bem.
Sem
contar nada começou a falar com uma voz quase inaudível. “Como tu consegues
exprimir relacionamentos rompidos com ternura, num contexto sem vencidos nem
vencedores, culpados ou inocentes, onde as memórias são vertidas em histórias
de encantar?”.
Sentia-a
desarrumada, tensa, inquieta emocionalmente desequilibrada. Suas mãos tremiam,
parecia preste a explodir. Aprender a controlar os impulsos nervosos é
fundamental para clarificar as ideias.
Por
instantes sentimos silêncio! Como explicar isto? As palavras já não são suficientes
para acalmar a mente da Leni. Com a voz rouca, os olhos vermelhos de quem já
gritou, de quem já chorou, interrompe a história que estava a contar e fica a
pensar nas imensas soluções para apagar as imagens, abafar a memória, travar o
sofrer. Na verdade, caba por entrar num beco sem saída e a mente transforma-a
numa prisioneira das suas recordações.
Eu
rejeito acreditar que as pessoas sejam felizes carregando sentimentos de ódio
de ralações encerradas. O passado é a nossa aprendizagem para futuro. É
impensável imaginar que, o que eu vivi em ti desconheço agora.
Por
trás deste sentimento hospedamos a baixa autoestima, a insegurança, a
imaturidade emocional, o egoísmo, a impaciência, a falta de tolerância, a
frustração. Encontramos tudo isto menos a liberdade de recordar, de justificar,
de respeitar e interiorizar que os momentos maus e bons não deixam de fazer
parte da nossa existência.
A
raiva é a armadura protetora da impotência de realizares os teus desejos. Somos
muito propensos a julgar alguém sem saber, em detalhes, as causas, porque já
não existe capacidade de ouvir, de aceitar e sobretudo de respeitar a liberdade
individual de cada um de nós.
Um
sentimento tão poderoso como o ódio, num dado momento, acaba provocar ações. E
ações movidas pelo ódio nunca poderão resultar em boa coisa, e tu estás a viver
um momento que assusta, exatamente porque tens orgulho do teu próprio ódio,
cultivando-o ao invés de procurares ferramentas para o combater. Vives uma
relação entre o amor e o ódio só explicada pela ambivalência emocional
O
ódio nunca nasce da amizade nem da indiferença. Esse sentimento assustador é
muitas vezes causado por falsas expectativas, mesmo em relacionamentos
românticos, por mais contraditório que isso pareça.
Por
tudo isto e muito mais, liberta-te do teu próprio medo, da indignação, da fúria
da violência destrutiva; ninguém é dono da razão e toda a responsabilidade
concentra-se na incapacidade de comunicar e escutar.
Recordar
também é viver, também faz parte da construção da tua felicidade! Vai… percorre
as mesmas ruas, visita os mesmos lugares, escuta a mesma musica, deixa as
imagens passarem livremente em frente aos teus olhos e sente-te livre; analisa
os comportamentos, as causas e as boas e más decisões.
Excluir
a ideia de o bloquear ou silenciar, porque ele pode precisar de ti. Segue em
frente, mas pelo caminho semeia amizade, porque a falta de habilidade para
entender e refletir sobre as próprias emoções é um fator que impede muitas
pessoas de se relacionarem de um modo saudável.
Separou-nos
um silencio por uns instantes que parecia uma eternidade, quando ela, mais
calma, pegou-me na mão e falou: “Então! Convidas-me para almoçar? E lá fomos
nós para um dos seus restaurantes favoritos, uma típica “Brauhaus” alemã.
Sentados
numa mesa de madeira rústica, entre risos e memórias partilhadas, saboreámos
salsichas grelhadas perfeitas, batatas temperadas com ervas, saladas frescas e
um pretzel ainda morno. Tudo acompanhado por uma cerveja artesanal dourada,
cremosa e generosa, que parecia celebrar connosco a alegria do reencontro.
Depois
do almoço, Leni ofereceu-se para ser a minha guia — e quem melhor que ela,
conhecedora profunda da história da cidade? Contou-me que Nuremberga floresceu
entre os séculos XV e XVI, tornando-se refúgio de artistas, inventores e
intelectuais. Era um centro cultural efervescente, uma cidade que respirava
criatividade e saber.
Percorremos
ruelas cheias de encanto e, numa delas, detivemo-nos diante da curiosa
escultura de um coelho, homenagem irreverente à obra mais famosa de Albrecht
Dürer, o génio local. Visitámos museus onde a história se conta sem disfarces:
Nuremberga foi palco de capítulos sombrios no século XX, sede do partido nazi e
de alguns dos comícios mais marcantes de Hitler. No entanto, foi também aqui
que os Julgamentos de Nuremberga colocaram um ponto final judicial no capítulo
mais negro da Alemanha, marcando a esperança de um novo começo.
Entre
passado e presente, a cidade revela-se moderna e vibrante, com lojas elegantes,
galerias contemporâneas e cafés acolhedores que se misturam com a arquitetura
antiga como se sempre tivessem coexistido.
À
noite, Leni surpreendeu-me com um convite especial: jantar num restaurante à
beira-rio. O ar começava a arrefecer, e um cobertor leve sobre os ombros
trouxe-me um conforto doce. À nossa volta, velas tremeluziam sobre as mesas,
lançando uma luz quente e íntima que se refletia no olhar cúmplice da minha
amiga. A refeição foi um poema: pratos bem servidos, aromas delicados e
conversas cheias de riso, recordações e carinho.
Cansados,
mas felizes, decidimos terminar a noite com uma bebida no bar do meu hotel. Ao
entrarmos, uma surpresa encantadora: um violinista tocava ao vivo, e as notas
suaves enchiam o ambiente de magia. Olhámos um para o outro com os olhos
brilhantes — era o final perfeito para um dia inesquecível.
Abraçámo-nos
com força, sentindo que as verdadeiras amizades sobrevivem ao tempo e à
distância. Uma lágrima teimosa brilhou nos olhos ao prometermos que nos
voltaríamos a encontrar.
Já
no quarto, olhei uma última vez para o rio, agora silencioso sob a lua. Tinha
poucas horas para dormir antes da viagem até Munique, mas o coração… esse
estava desperto, cheio, leve e grato.
Diário
de uma viagem – 51 dia – 16/08/2025
