Então? Como correu a tua noite?

 


Despertar em Budapeste foi como acordar dentro de um sonho que te puxa pelo pulso e te sussurra “fica mais um pouco”. Principalmente quando abri as grandes janelas daquele hotel que flertava descaradamente com o Danúbio - sim, ele piscava, eu tenho a certeza.

Ainda com os olhos meio cerrados, o telefone vibra. Do outro lado, uma voz envolta num filtro de mistério matinal: “Então? Como correu a tua noite? Ainda esperei por ti no bar, mas não te vi…” Era Lorena. A surpresa deslizou no meu peito como manteiga quente. Um misto de: que maravilha ter bons amigos e wow… ela estava à minha espera?

Prometeu encontrar-me no pequeno-almoço. Eu, claro, fiz o que qualquer mortal faria: agradeci, fingi naturalidade, e depois sorri feito idiota para o teto. A sala do pequeno-almoço… meu Deus. Uma cascata interior sussurrava poesia líquida, cheiro de café forte, fruta fresca brilhando como jóias tropicais, croissants bronzeados com vaidade, e eu, ali -  mortal entre vitaminas.

E então… ela. Lorena. Sentada numa mesa com vista para o mundo. Cabelos que pareciam ter feito pacto com a luz. Sorriso de “prepara-te para o imprevisto”. “Então? Surpreso? Hoje estou off. E pronta para te guiar pela cidade… se tu quiseres, claro.”

Se eu queria? Eu queria ser guiado até o fim do mundo por aquele sorriso. Entre goles de café e a gula de quem não dormiu o suficiente, falámos de tudo: de política a gulosarias, de futuros brilhantes a países que tentam ser felizes.

Depois? Partimos. Budapeste abriu-se para nós como um livro que já sabe o final, mas se diverte a ver a tua cara página após página. Primeiro, o Parlamento - imponente, majestoso, tão lindo que até o Danúbio desacelera ali só para olhar melhor. Depois a Basílica de Santo Estevão, onde cada pedra parecia recém-polida por anjos com excesso de zelo.

Passeámos pelo bairro do Castelo, onde o Bastião dos Pescadores parecia saído de um conto - arcos brancos, torres que cutucam nuvens, e aquela vista… aquela vista que dá ciúmes até ao paraíso. O Buda e o Peste lançando olhares cúmplices um ao outro, separados e unidos pelo mesmo rio como dois amantes teimosos.

O tempo escorria macio. Lorena falava da vida, dos custos, dos transportes impecáveis, das vantagens simples de viver na Hungria, e de um amor que a tinha despedaçado. Duas lágrimas tímidas, brilhantes como pequenas pérolas de dor - quase caíram quando ela murmurou: “ Doeu dois anos. Mas sobrevivi. E hoje… hoje sinto paz”.

Eu quis segurar a dor dela na palma da mão e soprá-la para longe. Mas apenas caminhei ao seu lado. Às vezes, estar é o suficiente, mas pensei no que lhe podia dizer quando o amor nos desencanta!

E, com voz serena, comecei a falar: hoje é sexta, amanhã sábado e depois domingo e dias melhor virão! Há um momento silencioso, quase impercetível, em que o amor deixa de brilhar. Não acontece de repente, nem sempre com lágrimas ou gritos; às vezes é apenas um olhar vazio onde antes havia ternura, uma ausência que se instala no toque, um cansaço que toma o lugar da esperança.

O desencanto não significa necessariamente o fim do sentimento, mas a morte da ilusão. É quando percebemos que o que idealizávamos no outro é mais reflexo dos nossos sonhos do que a realidade. Tu até podes dizer: o que vi em ti foi uma “ilusão de ótica", onde a minha mente interpretou visualmente de forma incorreta os sentimentos que me transmitiste; as promessas, os gestos de ternura, a sensualidade no olhar, o querer estar e projetar, lentamente se acumula como poeira sobre um quadro que já não reconhecemos.

E dói, dói o peito falta o ar! Dói como perder algo que nunca foi completamente nosso. Dói porque o amor, mesmo em sua versão mais realista, carrega sempre um pouco de magia, e quando essa magia lentamente se vai evaporando, o nosso coração recolhe e começa a bater mais devagar.

Não era assim que tu imaginavas o fim, verdade? - aliás, nem acreditavas em despedidas inesperadas; imaginavas que, o que ambos sentiam vos sustentava, mesmo nos dias cinzentos, mas, aos poucos, sempre que tu o lias, sempre que tu o ouvias, sentias a magia fugir-te das mãos.

Não o culpes! Talvez tu não tenhas enxergado bem como ele é, mas como querias que fosse, por isso, não houve gritos, houve apenas só um desencanto. Um adeus que chegou sem avisar, como quem entra devagar para não assustar; mas ele está aqui, entre nós, ocupando o espaço que foi palco dos momentos mais lindo de magia; mas a magia também pode significar ilusão.

Há uma linguagem que não precisa de palavras, e nela habita a magia do silêncio. Este silêncio não é ausência, é presença profunda; ele chega quando os sons se recolhem, quando as vozes se calam, quando até o pensamento parece andar descalço. No silêncio, tudo o que é verdadeiro se revela: a inquietação guardada no peito, o peso das perguntas que evitamos, e, às vezes, uma paz que não sabíamos procurar.

Há silêncio que cura, que nos devolve a orientação, que nos permite ouvir o que o barulho do mundo insiste em abafar: o murmúrio da intuição, o sopro da alma, a verdade que não precisa de explicações. No silêncio, os olhos falam mais, os gestos ganham sentido, e a presença do outro se torna mais nítida, não pelo que diz, mas pela sua ausência. Talvez seja neste silêncio que tudo começa a fazer sentido!



Com tanta conversa, o nosso estômago começou a reclamar - justo, afinal o romance também precisa de hidratos. Nem por acaso, mesmo ali ao lado, encontrámos um restaurante simples, com cheiro de paprika no ar e risadinhas húngaras à volta. Pedimos goulash fumegante, pão crocante, e cervejas geladas que suavam como adolescentes num baile. Conta? Dez euros por cabeça. Lorena ergueu uma sobrancelha como quem diz “eu disse”. Eu respondi com um sorriso.

A tarde deslizou suave como seda no corpo. “Sabes, Maurício… Budapeste é a capital dos spas. O meu olhar espelhou dois corações, e ela riu - tímida perigosa, irresistível, disse: “estás na terra do relax.” E continuou, “temos o metro mais antigo da Europa continental, inventámos o cubo mágico e a caneta esferográfica… e as cavernas subterrâneas existentes na cidade, são verdadeiros labirintos secretos como búnqueres nucleares.

A cada passo, os nossos dedos buscavam-se com mais coragem, os nossos olhares demoravam-se mais um segundo que o recomendado por lei. E então chegámos à ponte. O Danúbio corria sob nós dividindo Buda e Peste - duas metades que só existem plenamente juntas.

Lorena parou. O mundo parou com ela. Pegou-me na mão. Os olhos dela eram uma cidade inteira sem saída - e eu feliz por me perder. “Hoje o dia está a ser especial para mim. Posso convidar-te para jantar… e depois… quem sabe… terminarmos a noite ao som de uma boa música?”

Respirei. Ou tentei. Como recusar um destino que já estava decidido pela pele? O jantar foi luz baixa, risos fáceis, vinho que beijava, música que abraçava. Dançámos lento, desejámos com pressa, falámos entre sussurros e silêncios. A noite foi um segredo partilhado com o universo.

Tarde demais quando regressei ao hotel. Olhei o Danúbio outra vez - brilhante, silencioso, eterno. Ele acolhia barcos felizes e sonhos inquietos… e eu, apenas mais um perdido que encontrou, por um dia, um encanto inesperado.

Antes de adormecer liguei o computador para saber das últimas notícias de Portugal, como quem procura orientação no meio de uma cidade estranha. Entre títulos e debates, reencontrei os mesmos problemas que carregamos há anos - problemas que não cessam, apenas mudam de forma, como um eco persistente que acompanha o país. Continuam, inevitáveis, as preocupações que dominam as conversas das famílias portuguesas: o aumento constante do custo da alimentação, o preocupante serviço de saúde publica, o peso crescente das despesas com educação e a angústia de encontrar uma habitação digna e acessível.

Talvez devêssemos olhar para estas questões com os olhos de uma família comum, da classe média que trabalha, poupa e, ainda assim, luta para garantir um futuro seguro. E que dizer daquelas que vivem no limiar da pobreza, para quem o amanhã é sempre uma incógnita mais pesada?

Cabe ao Estado - ao governo que escolhemos - usar os recursos que lhe confiamos com responsabilidade, priorizando o essencial e colocando as pessoas no centro das decisões. É desse compromisso que nasce uma sociedade verdadeiramente justa, fraterna, e capaz de oferecer oportunidades reais a todos os seus cidadãos.

A questão, afinal, não é apenas se temos recursos suficientes para enfrentar estas desigualdades sociais. A pergunta que se impõe é outra: teremos a visão, a coragem e a inteligência necessárias para distribuir esses recursos de forma ética, humana e eficaz, sem ceder ao peso das estratégias partidárias nem às tentações da propaganda?

O futuro de um país constrói-se não apenas com números, mas com escolhas - escolhas que reflitam aquilo que queremos ser como comunidade e como nação.

 

Diário de uma viagem – 61 dia – 26/08/2025

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