E lá fomos nós, eu com a curiosidade às costas e ela com o violino!
Acordei
com a serenidade que só uma noite tranquila em Salzburgo pode oferecer. Ao
abrir a janela do meu quarto, o rio Salzach espreguiçava-se diante dos meus olhos,
deslizando preguiçoso sob o olhar distante dos Alpes. Que maravilha. Um quadro
perfeito para começar um dia que prometia ser… surpreendente.
Do
outro lado do rio, a cidade dividia-se como duas personalidades de um mesmo
corpo: de um lado, Altstadt, a cidade antiga — medieval, barroca,
exclusivamente pedestre, um verdadeiro museu a céu aberto; do outro, Neustadt,
moderna e prática. Entre ambas, o Salzach corria, testemunha silenciosa do
tempo e das histórias que ali se cruzavam. Foi em Altstadt que nasceu Mozart, o
prodígio rebelde que transformou notas em eternidade. A sua casa é hoje museu,
guardando entre vitrinas os instrumentos de uma infância que ecoa em cada
acorde tocado nesta cidade.
Mas
chega de história — o banho chamava e a curiosidade também. O hotel era um
charme: romântico, acolhedor, decorado com corações por todo o lado. Claramente
um refúgio de luas de mel e promessas sussurradas. Eu, achei graça à ironia — o
destino às vezes gosta de brincar comigo.
A
sala do pequeno-almoço parecia saída de um conto vienense: mesas de mármore,
flores frescas, talheres que tilintavam com elegância, e um aroma inebriante de
café e pão quente. Casais trocavam olhares doces, o staff sorria com aquela
simpatia genuína que quase nos convence de que a felicidade é contagiosa.
De
estômago satisfeito e alma desperta, parti para descobrir Salzburgo. Caminhei
por ruas estreitas e empedradas, passei por praças encantadoras e lojas que
pareciam ter parado no tempo. Quando cheguei à principal rua comercial —
Getreidegasse, vibrante, apinhada de turistas e vitrines cintilantes — o som de
um violino cortou o burburinho.
Era
uma melodia de Mozart, mas o que realmente me prendeu foi ela. Uma mulher de
cabelos dourados, olhar sereno e sorriso que desafiava o inverno dos Alpes.
Toque após toque, a cidade dissolveu-se ao redor. Coloquei cinco euros na
pequena caixa diante dela, mas fiquei. Não consegui partir.
Minutos
depois, escrevi um bilhete e coloquei na caixinha das moedas: “Your smile
enchants me, and your music seduces me. I could listen to Mozart all day, but I
need to discover the city’s other charms.”
Ela
olhou, parou de tocar, leu o bilhete, sorriu. Chamou-me com um olhar que valia
mais do que qualquer palavra. Abraçou-me — sim, sem cerimónia — e sussurrou com
um sotaque doce: “Eu sou alemã. Também cheguei hoje e quero descobrir
Salzburgo. Podes esperar por mim?” Sorri, meio incrédulo. “Yes, I can wait for
you.”
Pouco
depois, ela embalou o violino, guardou as moedas e apresentou-se: “I’m Johanna.
Let’s discover Salzburg.” E lá fomos nós, rua abaixo — eu com a curiosidade às
costas e ela com o violino.
Encontrámos
um pequeno restaurante escondido entre vielas, daqueles que em Portugal
chamaríamos de tasca. O aroma era um convite irresistível. Sentámo-nos numa
mesa recuada, e entre risos e copos de vinho branco, partilhámos histórias.
Ela
contava-me sobre a vida de artista errante, a coragem de viajar sozinha em
busca de um palco; eu falava da minha paixão por conhecer o mundo e as suas
gentes. Descobrimos afinidades — e talvez um prelúdio de algo mais.
Em
cada ano de vida, celebramos o desfazer de um tempo que deixou de ser, não mais
existe. Deve ser lembrado, comemorado, brindado... para trás ficam as
histórias, quando os sorrisos e lágrimas são compartilhadas.
Eu
tenho uma história dentro de mim! Eu tenho uma história e tu também. Na
verdade, não temos só uma história, mas várias histórias cravadas em nossos
cérebros, que contam todas as nossas experiências vividas.
Tu
vives com o passaporte em punho, tamanha a sede de aventuras. Por isso, saístes
da tua sua zona de conforto para fazeres algo que te assusta; tudo que te
desafia alimenta-te, realiza-te e deixa-te mais auto-confiante, porque tu és
aventureira, mente criativa e curiosa.
Na
verdade, quando viajo sozinho a minha personalidade muda; fico mais aberto,
menos tímido, mais comunicativo, com mais tempo para interagir com outras
pessoas e para aprender outras culturas, mas quando o faço, não sinto que me
torno um fugitivo, porque o que me move é o caráter e não a ética.
É
preciso ter coragem para se ser feliz assumindo a vulnerabilidade. Todos
tentamos encontrar a felicidade à nossa maneira, mas, muitas vezes, somos
sugados e acabamos por, inconscientemente, seguirmos o caminho desenhado que
não era nosso.
Passamos
a vida em busca de um grande amor como um tesouro escondido; uns fogem de casa
para serem felizes, outros fogem para casa em busca da felicidade. Pelo meio
acreditamos em falsas promessas, num passado que já se apagou, num futuro que
ainda nem existe e no agora esquecemo-nos de “ser”.
Não
consegui ainda vasculhar suficientemente bem o meu cérebro, para entender qual
é o motivo desta busca infinita. Nunca a lua está ao alcance da mão, nunca o
fruto está maduro, nunca o carinho recebido é suficiente; na verdade, a fé move
montanhas, e segura a nossa paciência ao assumir a derrota calculada na dúvida
da vitória, desperdiçando a oportunidade do tempo que nos resta para ser feliz.
À
nossa volta há muitas experiências que não compreendemos; experiências extraordinárias
ou sobrenaturais que nos coloca numa zona de fronteira do espírito humano, onde
é fácil perder as coordenadas.
Claro
que os sentimentos nunca são lógicos, nem é fácil racionalizar as nossas
emoções, mas se não queres cair na escuridão da tua ignorância, não abandones a
matemática de um é pouco, mas dois é demais.
O
almoço foi delicioso: schnitzel crocante, salada fresca e um apfelstrudel que
parecia um beijo doce. À tarde, percorremos juntos os recantos de Altstadt. Subimos
até a fortaleza de Hohensalzburg, de onde a vista era uma pintura viva. As
ruas, as torres, os sinos, tudo parecia conspirar a nosso favor. Caminhávamos
lado a lado, às vezes os ombros roçando, as mãos quase se tocando. Havia uma
tensão doce no ar — uma melodia silenciosa que não precisava de violino.
Brincámos,
tirámos fotos, partilhámos gargalhadas — e, por momentos, parecíamos dois
adolescentes a fugir das responsabilidades do mundo. Quando a noite caiu,
entrámos num bar acolhedor, iluminado por velas e risos. A cerveja era fria, a
música quente, e os nossos olhares… perigosamente próximos.
Na
despedida, Johanna indicou-me hotel dela, ficava próximo do meu — um dos mais
elegantes da cidade. Foi então que percebi: aquela mulher que tocava nas ruas
não o fazia por necessidade, mas por paixão. Era de uma família abastada, e
tocava para se sentir livre — para ser ela própria.
Antes
de se despedir, deu-me a mão. O abraço que se seguiu foi longo, quente, cheio
de promessas não ditas. Quando voltei ao meu quarto, abri a janela outra vez. O
rio Salzach corria sereno, e de algum lugar distante, soava Mozart — como se
Johanna ainda estivesse ali, tocando para mim.
E
naquele instante, percebi: Salzburgo não é apenas a cidade de Mozart. É a
cidade onde, por um dia, eu vivi uma sinfonia chamada Johanna.
Diário
de uma viagem – 55 dia – 20/08/2025


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