Do conhecimento ao reconhecimento!
Acordar
em Viena é despertar para uma outra dimensão do mundo. É abrir os olhos e
sentir que o tempo aqui dança ao som de Mozart, sussurra com Beethoven e
rodopia com Strauss. É sentir-se embalado pela harmonia que paira no ar e pela
elegância que a cidade exala, onde até os pombos parecem ter estudado música
clássica.
Enquanto
a água morna do banho deslizava pelo corpo, olhava pela janela o Danúbio —
sereno, altivo, quase filosófico. “Como pode um rio ser tão sábio?”, pensei.
Talvez Freud tivesse uma explicação, afinal, estava na sua cidade, o berço da
psicanálise. Viena não é apenas um lugar, é um estado de espírito. E o meu
espírito, ainda sonolento, já ansiava por conhecimento e reconhecimento — dois
irmãos inseparáveis da alma humana.
Decidi
reforçar as energias com um pequeno-almoço vienense digno de imperador: café
forte, pães frescos, compotas, e um aroma de baunilha que prometia redenção.
Depois, saí à descoberta desta cidade que respira história e refinamento.
Comecei
pelo Palácio de Schönbrunn, a antiga residência de verão da imperatriz Maria
Teresa. Um labirinto de jardins impecáveis, fontes que parecem conversar com o
vento e salões onde o dourado reflete a vaidade dos séculos.
De
lá, segui para o Palácio Belvedere, onde o quadro O Beijo de Gustav Klimt beija
não apenas a tela, mas a eternidade. A arte aqui é quase um ato de sedução e,
um pouco mais tarde, curioso, fui ver o excêntrico incinerador de Spittelau,
desenhado por Friedensreich Hundertwasser — uma explosão de cores e formas que
prova que até o lixo, quando bem pensado, pode ser arte.
Caminhando
pela cidade, reparei em fontes de água potável espalhadas pelas ruas — pequenos
gestos de civilização que dizem muito sobre o caráter vienense. E em alguns
cartazes educativos, com frases que pareciam falar diretamente comigo. Um deles
dizia: “O conhecimento é a semente; o reconhecimento é o fruto.” Fiquei
suspenso, refletindo. Realmente, quanto mais aprendemos, mais deveríamos purificar
a nossa consciência — e reconhecer o que somos, o que fomos e o que ainda
podemos ser, nunca esquecendo aqueles que pelo nosso caminho nos seguraram as
pontas.
Muitas
vezes a ingratidão bloqueia a memoria do que de bom recebeu para alargar espaço
das recordações menos boas. Tornas-te vitima do teu passado porque a tua mente
está sempre ocupada com o teu “eu”.
Como
é gratificante ver na tua boca um especial sorriso depois de receberes um ato
de bondade surpreendente; reabrir o baú das recordações e atear a memória das
mãos e corações solidários que te abraçaram em tempos carecidos.
Pois
é! É nessa memória que sustenta a riqueza da nossa experiência, onde arquivamos
tudo o que na vida fomos aprendendo por aqueles que, pela força das
circunstâncias, nos foram apoiando.
É
certo que não será fácil inverter a tendência natural de diminuição da memória
ao longo dos anos, mas torna-se muito preocupante quando por muitas e variadas
razões, sobretudo por deformação de valores, conseguimos apagar momentos marcados
por aqueles que num outro tempo foram fundamentais na escalada do percurso da
nossa vida. Essa omissão de memoria, porque realmente ela está lá, torna-se
muito mais problemática em manifestações de desequilíbrio entre emoção e a
razão.
Pessoa
grata não fica em silêncio, mas “agradece”’ mesmo pelas pequenas coisas que
recebe; a ingratidão fica insensível ao que recebe de bom, mas fala bem alto
quanto quer pedir e abre a boca ainda mais para reclamar. Gratidão exige mais de cada um de nós; é
aquela perceção acordada que se surpreende e reconhece uma mais valia naquele
abraço imprevisto e desinteressado.
Experimenta! Ultrapassa-te, fecha os olhos e deixa a mente
vagar trazendo-te de volta aquela pessoa que foi muito importante na tua vida;
alguém que fez algo significativo que determinou a diferença na tua trajetória
e que tu deixaste para trás. Centra a tua atenção naquele momento especial,
lembra o gesto que alterou a tua vida e que tu esqueceste de dizer “muito
obrigado”.
Mais
tarde, atraído pelo perfume do café, entrei num dos lendários Cafés Vienenses.
O Café Central, por exemplo, é um templo do intelecto e da boémia. As cadeiras
de veludo e os lustres dourados parecem sussurrar segredos de outros tempos.
Aqui sentavam-se Trotsky, Freud, Stefan Zweig, e até Lenin — todos discutindo o
destino da humanidade entre goles de café e fatias de apfelstrudel.
Estes
cafés não são apenas lugares para beber; são laboratórios de ideias, onde o
aroma do expresso mistura-se com o perfume da filosofia e, às vezes, com o doce
perfume de um olhar trocado ao acaso.
Guiado
pelo instinto e pelo aroma, escolhi um pequeno restaurante numa rua pedonal. As
mesas ao ar livre, as flores nas janelas, e um violino que soava de longe
criavam um cenário quase cinematográfico. Pedi um Wiener Schnitzel, estaladiço
e dourado como o pôr do sol, acompanhado de uma taça de Grüner Veltliner, vinho
branco austríaco que dança no paladar como uma valsa leve.
Para
sobremesa, rendi-me à majestosa Sacher-Torte — o bolo mais famoso da Áustria.
Diz a lenda que, em 1832, o jovem aprendiz Franz Sacher teve de substituir o
chefe de cozinha do Príncipe Metternich. Em pânico, criou o bolo de chocolate
com compota de damasco e cobertura de ganache. O príncipe adorou. Mais tarde, o
filho abriu o Hotel Sacher, onde a receita original ainda é guardada como
segredo de Estado. A disputa com o Café Demel pela “autenticidade” da receita
durou décadas e terminou nos tribunais — um drama açucarado digno de ópera.
Após
o almoço, visitei o Museu Albertina, lar de obras de Da Vinci, Monet e Picasso
— onde cada pincelada parece uma lição de humildade perante a beleza. Depois,
caminhei até a Catedral de Santo Estêvão, que ergue sua torre gótica como um
dedo que aponta para o infinito. Lá dentro, o silêncio é quase uma melodia, e
as velas acesas parecem iluminar mais a alma do que o espaço.
De
volta ao hotel, o funcionário da receção perguntou-me, num português perfeito,
de que cidade eu era. Era António, outro português a conquistar o mundo — com
saudades no coração e um sorriso nos olhos. “Já visitaste a casa de Sigmund
Freud?”, perguntou-me. A curiosidade venceu o cansaço. Convidei-o para me
acompanhar e, claro, para jantar depois.
A
Casa de Freud, na Berggasse 19, é uma viagem fascinante à mente humana. Lá está
o seu consultório, o famoso divã — testemunha silenciosa de tantas confissões e
angústias. Ali sentimos o peso dos pensamentos e a leveza da compreensão. É
quase um santuário da introspeção.
Depois
da visita, fomos a um restaurante modesto, numa ruela com flores pendendo das
varandas. Pedimos goulash com pão fresco e duas canecas de cerveja vienense.
Rimos, falámos de Portugal, dos fados e das saudades que não cabem numa mala. Mais
tarde, já no bar do hotel, brindámos ao destino — esse maestro invisível que,
por vezes, compõe as notas certas nas nossas vidas.
No
quarto, cansado e sereno, abri as janelas. De lá via a Donauinsel, a ilha do
lazer, o coração verde de Viena. As luzes refletiam-se no rio, e por um
instante tive a sensação de que o mundo estava exatamente no lugar certo.
Adormeci
ao som de música clássica, sentindo que Viena me ensinara mais do que história
e beleza — ensinara-me que o verdadeiro conhecimento nasce do reconhecimento. E,
no fundo, é esse o segredo da alma humana: compreender-se para poder, finalmente,
reconhecer-se.
No
dia seguinte, esperava-me uma nova jornada — até Koshice, na Eslováquia — e uma
prece silenciosa para que o mundo, em especial a Ucrânia, ali ao lado, mesmo ferida,
continuasse a dançar… ao som de uma valsa vienense.
Diário
de uma viagem – 57 dia – 22/08/2025


Que maravilha de texto!
ResponderEliminarUma verdadeira valsa literária dançada pelas ruas de Viena.
Ler-te é viajar... e é também recordar que o mundo ainda guarda lugares onde beleza, memória e humanidade se encontram com delicadeza. Muito bom, Maurício. Parabéns!!!