Deixei-a para trás por não a poder ajudar!

 


Ainda o dia não tinha nascido e já o silêncio me pedia partida. O orvalho repousava sobre o capô do carro, como se fosse um último adeus de Cracóvia, cidade que me ficou cravada na memória, pela beleza das suas praças, pela vitalidade que parecia nascer em cada rua, pela ternura das vozes polacas que se entrelaçavam no ar frio da manhã. Mas em cada encanto existe também a sombra — e a minha lembrança mais dolorosa não é a das torres altivas nem das igrejas góticas, mas de um jardim no coração da cidade.

Era um espaço amplo, de árvores robustas que se inclinavam como guardiãs silenciosas, e de caminhos ladeados por flores já cansadas do verão. Ali, entre bancos gastos pelo tempo, aninhava-se um grupo de sem-abrigo. O frio parecia dormir com eles, partilhando a nudez disfarçada por mantas rasgadas. Entre todos, os meus olhos prenderam-se a uma jovem: olhos de mel, cabelo selvagem, um rosto de beleza ferida. As roupas deixavam entrever um corpo magro, ainda vibrante de juventude, mas marcado pela dureza da sobrevivência. Partiu-me o coração. Interroguei os deuses, o destino, os homens: porque se escolhe o abandono tão cedo? Ou será que o abandono a escolheu primeiro, cruel e implacável?

Às vezes, rejeitamos verdades que não estamos prontos para ouvir, julgamos ideias, conselhos ou sentimentos como se fossem estranhos ao nosso caminho, mas o tempo, silencioso e sábio, trabalha em nós. Ele nos amolece, nos confronta, nos quebra — até que, enfim, escutamos o que antes ignorávamos.

Ela tinha um sorriso bonito, um jeito de quem sabia esconder a dor. Falava de futuro como quem quer acreditar, mas os olhos… os olhos contavam outra história. Ela não escolheu aquele caminho; foi levada por conta própria, porque antes alguém lhe vendeu a ilusão de uma vida divertida, com promessas embrulhadas em prazeres momentâneos.

Disseram-lhe que aquilo era liberdade, era fuga, era amor… mas era prisão. Foram eles quem a puxaram para o abismo, quem lhes estenderam a primeira dose como quem oferece carinho, ensinando-lhe a fugir das dores da alma.

O vício droga — aquele que não começou com ela — consumia-lhe o pouco que ainda restava, porque ela estava presa a promessas antigas que nunca se cumpriram, presa a nomes que já nem estavam ali, mas ainda dominavam tudo, porque ela sentia necessidade de manter a corrente presa à cintura.

Cada dose roubava-lhe um pedaço, cada noite de ilusões apagava-lhe um dia de futuro. O corpo pedia mais enquanto a alma implorava por paz. Já não reconhecia o espelho; via apenas uma sombra, uma menina perdida a carregar um peso que não lhe pertencia.

Ela sonhava em ser livre, mas encontrava-se cativa de uma ilusão que a consumia dia após dia, roubando-lhe o riso, o amor e a promessa de um amanhã.

Parti com a dor no peito. Deixei-a para trás por não a poder ajudar. A estrada, lisa como um tapete estendido pela própria manhã, levou-me ao encontro da paisagem. Campos dourados, pequenas casas térreas pintadas de cal, telhados vermelhos que respiravam histórias antigas, aldeias que surgiam como sussurros de vida. O sol erguia-se lentamente, dissolvendo a nostalgia em tons de cobre e prata.

Cruzei a fronteira e logo Ostrava me recebeu. Cidade do ferro, do carvão, do suor moldado em aço. Vitkovice erguia-se diante de mim, imenso corpo siderúrgico, metálico e quase monstruoso. Uma cidade subterrânea pulsava ali — embora me fosse negada a entrada, imaginei milhares de vidas soterradas no carvão, braços fortes, olhos cansados, sonhos perdidos entre labaredas e fumo.

Uma polícia de beleza serena, com uniforme que lhe acentuava a graça, indicou-me o caminho de um restaurante junto ao jardim zoológico. Entrei primeiro nos portões verdes do zoo, onde a natureza se misturava com o riso de crianças. Leões repousavam com majestade, tigres vagueavam num espaço amplo, aves coloridas riscavam o céu com vozes exóticas. O restaurante, discreto e acolhedor, recebia viajantes com cheiro a madeira e calor humano. Sentei-me, e diante de mim trouxeram carne de veado, suculenta e tenra, fumegante como um segredo revelado. O sabor selvagem misturava-se com a espuma generosa de uma cerveja polaca, encorpada, fresca, feita para acalmar a sede e a saudade.

Mas o tempo, cruel amante, não me concedeu mais. Deixei para trás o que não pude visitar — castelos, museus, jardins escondidos — e lancei-me de novo à estrada. A via para Praga não diferia muito da anterior, senão pela inquietação do trânsito que anunciava a grande capital.

A noite já se deitara quando cheguei. Praga, cidade dourada, abriu-se diante de mim como um sonho. O rio Moldava corria sereno, cortando a cidade em dois espelhos. A Ponte Carlos, sólida e eterna, ligava as margens como quem une amantes separados. O hotel, imponente, recebeu-me junto à beira-rio. Atravessar o átrio foi como mergulhar num romance antigo: colunas altas, luz dourada e, ao fundo, o piano de Chopin embalando cada passo.

O rececionista sorriu, cúmplice do meu cansaço, oferecendo-me um licor doce e a promessa de um jantar leve. Mas a solidão, essa companheira inesperada, já se sentava comigo à mesa. Pedi vinho tinto — um rubi escuro, de aroma profundo, notas de cereja madura e especiarias. O líquido deslizava pela boca como um beijo lento, aquecendo-me e lembrando-me que as viagens não são apenas horizontes, mas também espelhos que devolvem a nossa própria fragilidade.

No quarto, deixei os sapatos caírem como fardos. Deitei-me, apagando a luz. A cidade lá fora cintilava, mas dentro de mim reinava o silêncio. Esperei apenas que o novo dia me trouxesse luz — e talvez redenção — nesta cidade encantada, onde a beleza beija o destino e a dor caminha de mãos dadas com o amor.

 

Diário de uma viagem – 48 dia – 13/08/2025

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