Dançamos com os nossos fantasmas!
Acordei
em Copenhague com a luz suave do Norte a esgueirar-se pelas cortinas do quarto.
Ainda pairava no ar o eco da noite anterior — aquela discoteca elegante, onde
os corpos dançavam sob néons quentes e as almas, embriagadas, se despiam aos
poucos das suas armaduras. Era um lugar belo, povoado por rostos encantadores,
gestos refinados, perfumes caros. Mas com o passar das horas, à medida que o
álcool se infiltrava nas mentes e a música descia em volume e densidade, o
verniz social começava a rachar. Havia olhares que já não sorriam, sorrisos que
tremiam como copos prestes a cair. É curioso como a embriaguez desnuda: há os
que bebem para se libertar e os que o fazem para fugir.
Enquanto
saboreava o pequeno-almoço no hotel — pães escandinavos escuros e densos,
queijo dinamarquês, ovos macios e café forte — perguntava-me o que leva alguém
a procurar no álcool um reflexo de si. Talvez porque, por vezes, é só nesse
espelho líquido que encontramos coragem para dançar com os nossos fantasmas.
Há
momentos que marcam tanto as nossas vidas que nos fazem querer escrever sobre
eles para os reviver e registar para a eternidade. Nos períodos menos bons
escrever pode se um exercício de superação, uma vez que temos a oportunidade de
olhar para os acontecimentos de outra perspectiva, assim como a importância que
tivemos nas pessoas que cruzaram ou permaneceram na nossa vida um tempo do
nosso tempo.
Somos
seres multidimensionais com destinos pré-definidos numa viagem, umas vezes
longa outras vezes curta, prontos a interagir em várias e múltiplas realidades
simultaneamente, com vários níveis de consciência e personalidade, mas todos
com o mesmo propósito “ser feliz”
Assim,
o que pensamos ser nós, como personalidade única, é a soma do todo em nós
interagindo, atuando simultaneamente em várias realidades paralelas ao mesmo
tempo. O passado não existe, o futuro coexiste com o agora. O agora pode estar
a ser vivido em tempos diferentes. Sendo assim, podemos interagir e alterar no
que, num outro tempo não foi possível, tendo em vista que não estamos presos na
matriz do tempo.
Mas
nós estávamos ali para divertir, para falar, para escutar, para descobrir o que
cada um estava sentindo, talvez em tempos diferentes, talvez no mesmo espaço de
tempo ou em tempos sobrepostos
Somos
seres emocionais, temos as nossas fragilidades e precisamos de nos sentir
compreendidos e acolhidos. Quando nos sentimos com uma visão de túnel,
procuramos o amigo (a) em quem podemos confiar para nos ouvir, para desabafar,
para nos aconselhar.
Nessa
noite, todos falamos, falamos, falamos, rimos e choramos e até tentamos
equacionar o “porquê” e acabamos por reconhecer que estávamos a tentar trocar
as voltas ao destino, essa força sobrenatural que gere as nossas vidas, muitas
vezes em circunstâncias adversas aos nossos desejos, numa sucessão inevitável
de acontecimentos à qual ninguém pode escapar. Nada acontece por acaso, tudo
tem uma causa já predestinada. Os acontecimentos não surgem do nada, mas sim
desta força desconhecida que nós muitas vezes queremos contrariar com algo que
nos faça vibrar.
Copenhague,
pela manhã, pulsava com uma calma vibrante. Decidi descobrir a cidade ao meu
ritmo, sem pressa, como quem se embriaga de luz e arquitetura. Comecei pelo
Nyhavn, aquele postal vivo com as suas casas coloridas refletidas no canal e
barcos antigos a flutuar como memórias. Passeei pelo Palácio de Amalienborg,
onde os guardas reais pareciam saídos de um conto. Em Rosenborg Slot,
maravilhei-me com as joias da coroa, que cintilavam como promessas antigas.
No
Jardim Botânico, respirei fundo entre estufas tropicais e lagos plácidos, e na
Rundetårn, subi a espiral suave que me levou a uma vista que abria o coração:
telhados de cobre, torres, e a vida lá em baixo, a continuar. Depois perdi-me
de propósito por Christianshavn, onde os canais sussurram segredos e os cafés
parecem guardar histórias de amor e exílio.
Almocei
já tarde, num restaurante pequeno, quase escondido, onde tudo parecia espontâneo,
mas bem pensado: mesas de madeira crua, janelas largas, e um prato simples de
salmão curado com ervas, servido com batatas baby e molho de mostarda e endro.
Não tinha muita fome, mas comi como quem agradece.
À
tarde, deixei-me levar sem mapa. Passei por ciclistas apressados, mães com
crianças sonolentas, jovens de mãos dadas, turistas a tropeçar em encantos que
nem sabiam nomear. Há algo em Copenhague — talvez o ar limpo, talvez a forma
como a luz se deita sobre os edifícios — que nos faz sentir parte de uma
elegância tranquila, de um mundo onde o tempo passa sem nos esmagar.
Ao
fim do dia, voltei ao hotel e preparei-me para a despedida. Escolhi um jantar
especial num restaurante requintado perto do canal. A luz era quente, a música,
jazz suave, com um toque de melancolia, parecia acompanhar o ritmo do coração.
Pedi um prato típico: Frikadeller, almôndegas dinamarquesas macias, servidas
com puré de batata cremoso, cebola caramelizada e um molho denso que sabia a
casa. A sobremesa foi Risalamande, arroz-doce com amêndoas e molho de cereja
quente — doce e nostálgico como uma memória inventada.
A
noite não podia ser longa. O sono era pouco, e a manhã prometia pressa. Mas
havia em mim uma serenidade diferente, como se Copenhague, com o seu charme
nórdico e os seus contrastes humanos, tivesse deixado um sussurro dentro de
mim. Algo entre o romântico e o enigmático. Algo que talvez só se revele
completamente na próxima madrugada, noutro lugar, noutra cidade, onde o coração
acorde outra vez estrangeiro — e livre.
Diário
de uma viagem – 25 dia – 21/07/2025

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