Conversas com sabores saboreados!

 


Quando despertei em Talin, parecia que tinha acordado dentro de um filme cheio de magia. Havia algo de irreal, como se estivesse a viver um conto de fadas medieval. As ruas estreitas, a arquitetura de pedra e madeira, as torres com telhados vermelhos — tudo respirava história e romance. Até o ar parecia mais fresco, perfumado com um leve toque de maresia misturado ao aroma do pão quente das padarias que já trabalhavam cedo.

A ansiedade para explorar a cidade era grande, mas não resisti a um pequeno-almoço digno de rei. Frutas frescas, pão artesanal ainda morno, queijos locais cremosos e um café encorpado, servido por gente bonita e sorridente. E lá estava ela, Elina, a rececionista que na noite anterior tinha sido minha guia improvisada — olhos claros, sorriso cúmplice, como quem guarda segredos da cidade só para revelar aos que merecem.

Mal terminei, saí disparado pelas ruas de Talin. Queria saborear cada esquina, cada sombra medieval projetada pelas muralhas. A primeira paragem foi inevitável: a Praça do Município (Raekoja Plats), com o edifício gótico da Câmara Municipal e as esplanadas coloridas, onde turistas e locais se misturam. Segui pelas ruas empedradas até à Igreja de São Olavo, cuja torre outrora foi das mais altas da Europa — subi os degraus, e de lá de cima, a vista era de cortar a respiração: os telhados vermelhos da cidade antiga a contrastar com o azul profundo do Mar Báltico.

Nas muralhas medievais, passei pelo Portão Viru, com as suas torres robustas, que me deram a sensação de atravessar uma passagem mágica para outro tempo. Descobri ainda o Castelo de Toompea e a impressionante Catedral Alexander Nevsky, com as suas cúpulas em forma de cebola, onde a fé ortodoxa se mistura com a imponência russa.

No meio dessa avalanche de beleza, recebi uma chamada. A voz de um grande amigo, pausada, carregada de tristeza, dizia que o seu “castelo tinha desmoronado”. Entendi logo que não falava de pedras nem de muralhas, mas de coração — de amor. Foi uma longa conversa, cheia de silêncio e de conselhos, em que tentei acalmá-lo, motivá-lo, lembrando que mesmo as muralhas mais antigas podem ser reconstruídas. Desliguei, ainda pensativo, mas o encanto da cidade puxava-me de volta à vida.

Às vezes é melhor seguir uma intuição do que uma biblioteca de informações. À nossa volta há muitas experiências que não compreendemos. Experiências extraordinárias ou sobrenaturais que nos coloca numa zona de fronteira do espírito humano, onde, neste mar da vida, é fácil perder as coordenadas.

Ele fica sussurrando ao meu ouvido o que vai acontecer, mas eu duvido dos sinais. Rejeito antecipar o futuro e até fico serenado em pensar que o outro “Eu” está errado, mas, por diversas vezes, a vida já me ensinou que quem está errado não é o “outro”, sou eu!

Porque ele tem a capacidade natural de intuir, de ouvir a voz interior que vem da lucidez. As ideias “sentidas” às vezes têm muito mais relevância do que as ideias “pensadas”, não falo de “perceções extrassensoriais” nem de “precognição”, na verdade, intuir é uma delicada procura nos nossos oceanos inconscientes para encontrar a resposta certa.

Claro que os sentimentos nunca são lógicos, nem é fácil racionalizar as nossas emoções, mas se não queres cair na escuridão da tua ignorância, não abandones a matemática de um é pouco, mas dois é demais. Permite-te escutar o teu outro “Eu”, descodificar a clarividência e tomar comportamentos mais desapegados, porque, no mar da vida e do amor, às vezes é melhor seguir uma intuição do que uma biblioteca de informações.

Nem sempre temos a sabedoria para lidar com os acontecimentos e o poder de separar o certo do errado, mas como seres intuitivos não podemos abandonar a ideia de nos segurar na ancora da razão.

Pois é! Achamos que as adversidades só acontecem aos outros. O que é de uma história recente pode não ser de um futuro inexistente. Balanceamos num conto sem passado, sem começo ou fim e acabamos saindo sentidos quando contestamos o nosso “Eu”.

Quando o golpe é profundo todos os acontecimentos são ensinamentos. Ele avisou! Começamos a possuir um forte senso de perigo, que nos mantém sempre em estado de alerta. Passamos a ser cada vez mais intensos, intuitivos e de natureza distante, mantendo o contato com o nosso interior e o equilíbrio das nossas emoções com mais sabedoria. 

Se vives um momento de incertezas, de prazeres fugazes, do “ter” em detrimento do “ser” e de necessidades alienadas que nunca são satisfeitas, provocando uma sensação contínua de perda de valores e referências, então corta! Dá um espaço e escuta o teu outro “Eu”.

Com a envolvência destes pensamentos, o almoço chegou tarde. Escolhi um restaurante com vista para o mar para serenar. Mesas de madeira clara, velas acesas mesmo em plena luz do dia, música suave — um jazz delicado misturado com sons do mar que entravam pela janela aberta.

Depois de refrescar-me no hotel, voltei a mergulhar na noite de Talin. A cidade ganha uma aura ainda mais mágica quando o sol se põe: as luzes amarelas dos candeeiros iluminam as muralhas, as ruas ficam mais silenciosas, e os bares escondidos revelam-se como cavernas cheias de histórias.

Para o jantar, escolhi um restaurante tipicamente estoniano, daqueles que parecem uma taberna medieval, mas com um charme irresistível. O ambiente era quente, com madeira escura, tapeçarias nas paredes e um cheiro convidativo de especiarias no ar. Provei javalí estufado com molho de bagas vermelhas, acompanhado de batatas assadas com ervas do campo. Para beber, um vinho francês tinto, com alma, que me fez recordar as nossas conversas serenas na almofada.

No final da noite, caminhei sem pressa pelas ruas quase desertas. A lua refletia-se nos telhados molhados pelo orvalho, e tudo parecia respirar romance. Talin, com a sua mistura de mistério medieval e vibração moderna, tinha-me conquistado por inteiro — e deixava-me a certeza de que este era apenas o primeiro capítulo de uma longa história a ser vivida.

Regressei ao hotel com a saudade, do nosso vinho tinto aveludado e das longas conversas com sabores saboreados, no lugar que para nós era sagrado.

 

Diário de uma viagem – 35 dia – 31/07/2025

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