Comecei a falar-lhe sem palavras!

 


Depois de uma massagem que, na noite anterior, me deixou a flutuar entre o sonho e a realidade, despertei em Klaipėda com o corpo leve e a alma renovada. O sol insinuava-se pela janela, trazendo promessas de descoberta. O pequeno-almoço foi um festim de sabores: o mel âmbar, o pão ainda quente, os queijos intensos e a frescura das frutas que pareciam ter sido colhidas apenas para mim.

Nas minhas anotações brilhavam os pontos obrigatórios: a Estátua da Liberdade, o Museu do Âmbar, a Universidade Marítima da Lituânia e o Teatro Dramático — templo vivo de uma tradição forte. Mas à medida que o dia avançava, percebi que a cidade escondia segredos além dos guias turísticos. As ruelas empedradas guardavam histórias, as praças respiravam melancolia e nos jardins cresciam árvores exóticas que pareciam suspensas entre o báltico e o infinito.

Enquanto caminhava pelas ruas comerciais, deparei-me com uma cena inesperada: um espetáculo de teatro ao ar livre, como se a cidade tivesse decidido abrir o coração diante de mim. A música, as danças, a coreografia… tudo parecia hipnótico. Parei, prisioneiro daquele instante. Foi então que senti — uma mão, leve, mas firme, a deslizar na minha. A princípio pensei tratar-se de uma encenação, uma interação com o público. Mas o silêncio à minha volta denunciava algo diferente.

Olhei para a mulher diante de mim: olhos azuis como o mar em calma, brilho que escondia tempestades. O tempo suspendeu-se. Ela apenas murmurou com voz macia: “Sorry, I’m Liepa. This is no representation… it’s temptation”.

O mundo desapareceu. Ficámos ali, mãos unidas, respirando o mesmo ar, como se não houvesse mais ninguém. Depois, ela sorriu, abraçou-me suavemente e perguntou: “Thank you. What’s your name?” Respondi que era português, e estava ali para descobrir a cidade, e naquele instante percebi que talvez fosse a cidade que me tinha encontrado a mim.

Liepa reuniu o grupo de atores e convidou-me para almoçar. O restaurante típico fervilhava de vozes, risos e pratos a tilintar. A confusão não era do meu agrado, mas a proximidade dela dissolvia tudo. Inclinou-se até ao meu ouvido e sussurrou, quase como uma carícia: “Don’t mind the noise… later, I’ll guide you through the city”.

Havia mistério no gesto que a levara a segurar a minha mão sem me conhecer. Perguntei-me repetidas vezes o que a movera. Não havia resposta — apenas a promessa de algo maior.

À tarde, vagámos pela cidade. Liepa era de uma beleza luminosa e um pouco indomável, com um sorriso capaz de disfarçar a dor. Aos poucos revelou-me pedaços da sua história: a perda recente dos pais num acidente aéreo, um divórcio que lhe arrancara certezas, uma doença ainda sem nome que lhe roubava tranquilidade. Compreendi então: ela queria viver cada dia como se fosse o último, desafiar a lógica, experimentar o inexplicável.

Em silêncio comecei a falar-lhe sem palavras: conecta-te com a tua melhor versão! O que existe de incrível dentro de ti é o propósito que te move para gerares energia transformadora capaz de conquistar teus objetivos, porque vais descobrir a tua espiritualidade antes de despertares para a finitude da vida.

Às vezes é necessário abrandar o nosso ritmo de vida e permitir que a mente respire para pensar o que andamos a fazer, qual é a nossa missão e propósito nesta bolinha brilhante no meio do universo, que mais parece uma montanha russa, umas vezes está reluzente outras vezes está a apagar-se, porque estamos todos aqui na condição de alunos, porque estamos todos aqui para aprender.

Cada um de nós “morre” e renasce várias vezes na mesma vida pela expansão da consciência. Cada processo de auto cura é único, pessoal, subjetivo e intransferível, porque no teu DNA está armazenada uma série de informações, potenciais e debilidades que farão atrair as experiências necessárias para ficar diante daquilo que precisa ser transcendido e purificado.

Quando tu despertas a tua razão de existires e porque estás aqui, tu resgatas a tua essência como se ligasses a luz novamente, com um forte propósito dentro de ti, que te sustenta diante de momentos difíceis e nebulosos. O que tu fazes pode mudar, mas o “porque fazes”, não!

O amor… esse um misterioso conceito indescritível, está estritamente ligado com o nosso propósito de viver. Sem o amor não haveria vida. Sem ele a nossa espécie não teria evoluído, não teria transmitido e melhorado seus genes.

Aprendi que o amor tudo cura, tudo restaura, tudo renova, tudo suporta, tudo supera... O amor é a essência sublime da vida, que não sabe o que é impossível, vai lá e faz… sim, às vezes para seres feliz, é preciso seguir aquela loucura que faz teu coração bater mais rápido e as tuas pernas começarem a correr para um sonho dourado, porque a vida precisa ser vivida com brilho nos olhos e seguir a tua vontade, o teu instinto ou sexto sentido. Dá o nome que quiseres, mas liberta o teu coração e deixa que ele construa o teu destino. A felicidade é uma experiência ligada à sabedoria. A tua vida muda quando tu mudares. É isso que nos garante uma capacidade de resiliência e de perseverança Não podes continuar a fazer e a viver as mesmas coisas, e esperar resultados diferentes

Quando a noite chegou, convidei-a para jantar no restaurante situado entre as ruínas do Castelo de Klaipėda. A entrada, iluminada por tochas, era um portal para um outro tempo. Dentro, o ambiente exalava um romantismo quase ancestral.

À mesa, os sabores entrelaçaram-se como se dançassem connosco: um creme de cogumelos silvestres, peixe fresco banhado em ervas bálticas, e para coroar, um vinho tinto do Alentejo, encorpado, quente, carregando o sol português no seu rubi líquido. Cada gole era uma viagem dentro da viagem.

Falámos dos nossos países, da vida, da dor e da beleza escondida nos instantes inesperados. O olhar dela oscilava entre a sombra da saudade e a luz de um desejo secreto. Quando a noite se despediu de nós, Liepa, com lágrimas nos olhos, murmurou: “Thank you… this is a unique moment in my life. Something I always wished for, without knowing how to make it real”.

A madrugada já se anunciava quando regressei ao hotel. Deitei-me em silêncio, envolto num mistério doce e impossível de traduzir. Há encontros que não precisam de explicação. São para ser vividos, sentidos e guardados como tesouros.

Apaguei as luzes e, antes de adormecer, pensei: há razões que a própria razão nunca ousará compreender.

Diário de uma viagem – 41 dia – 06/08/2025

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