Atrai-me os corações que sentem e demonstram!

 


Deixei Tartu ainda com os olhos pesados da noite mal dormida, mas o corpo leve pela lembrança do pequeno-almoço generoso. Naquela mesa nada faltava: o pão quente que ainda libertava o perfume do forno, os frutos de um vermelho vivo, o café que parecia acordar mais a alma do que o corpo. E havia Isabella — estatura baixa, ruiva, de olhos azul-claro como se tivessem sido lavados pela neve do inverno báltico. A sua voz, levemente filtrada, trazia uma vibração que não se ouvia apenas: sentia-se na pele. Bastou um instante, um gesto, o modo como inclinou o rosto, para que em mim despertasse a memória de outra mulher, perdida no tempo. Também ela tinha um olhar que carregava esperança — e talvez um segredo —, e cujo rastro de amizade se apagou nas encruzilhadas da vida. Isabella, sem saber, abriu essa porta invisível onde a saudade mora.

Atrai-me os corações que sentem e demonstram, olhos que enxergam além do aparente e que choram quando o sentimento não cabe no peito. Não simpatizo com sentimentos descartáveis, amizades por conveniência, felicidades ilusórias e meias verdades.

Hoje eu lembro-me dela como uma mulher stressada, que vivia uma relação cinzenta, descolada e constantemente adiada, mas que lidava bem, nos intervalos, com relações descartáveis.  Logo eu que odeio copos de plásticos, canudinhos, tudo que não dure. Permanecer na zona cinzenta de uma relação significa aceitar não saber o que vai acontecer durante o jogo.  Sentada no “banco dos suplentes” fica à mercê da vontade do “treinador” de decidir   vê-la jogar.

Mas como não se trata de um jogo, eu nunca percebi quais as razões porque insiste em estar com uma pessoa que não tem grande interesse, para não dizer nenhum interesse, em formalizar uma relação escondida. Cada vez vivemos mais amizades e relações descartáveis… parece que estamos formatados só para olhar para os nossos interesses; sofremos da síndrome do desumanamente humanos, onde as pessoas usam relacionamentos como rota de fuga, como válvula de escape para as suas frustrações, saltando de situações humilhantes para situações dominantes com toda a banalidade.

Quando abandonamos o nosso humanismo, habitamos uma sociedade hipócrita, alimentos perecíveis com embalagens descartáveis, com baixo valores, rotulados e com prazo de validade. Quando somos envolvidos em situações descartáveis, temos que estar sempre preparados para nos reciclar e afastar de tudo o que é efêmero, porque a felicidade são pequenos momentos que não podemos perder ao lado de pessoas inteiras, que não tenham dúvidas, fricotes, dívidas afetivas, muito menos feridas abertas, que tu não serás capaz de curar nem com extremo afinco e dedicação.

O passado está sempre acontecer na nossa mente. Tudo que vivemos permanece connosco inevitavelmente, mas entre aceitar esse fato e ficarmos completamente dominados pelo ontem há uma enorme distância. Não superar o passado é, na verdade, um mergulho no abismo, é permitir que ele faça parte do presente e se aposse do nosso futuro ...

Atrai-me os corações que sentem e demonstram, olhos que enxergam além do aparente e que choram quando o sentimento não cabe no peito. Não simpatizo com sentimentos descartáveis, amizades por conveniência, felicidades ilusórias e meias verdades.

Infelizmente, nada acontece de substancial nesta vida, caso não se aprofunde intensamente os pormenores. É preciso mergulhar, sorver com intensidade cada momento, cada oportunidade. Nada é previsível, nada é certeza, sem que ousemos ir além do raso.

Estamos cada vez mais rodeados de aparatos tecnológicos que nos facilitam a vida. Estamos cada vez mais rodeados de informação, mas não aprofundamos os assuntos. Há cada vez mais formas de relacionamentos por redes sociais e aplicativos, mas a solidão aumenta. Aumenta a quantidade de tudo, porém, nada mais parece ser experienciado além da superfície, porque vivemos numa era do descartável, porque somos desumanamente humanos.

A estrada até Riga parecia um poema escrito pela natureza. Florestas de verde profundo, interrompidas aqui e ali por clareiras douradas de trigo e casas pintadas em cores suaves — azuis desbotados, amarelos que lembravam girassóis, vermelhos terrosos como corações pulsando à distância. Ao chegar a Valga, cidade dividida pela fronteira, senti-me atravessar um espaço que não era apenas geográfico: era quase um corte no tempo. O silêncio pairava, cúmplice, sobre as ruas tranquilas. No restaurante típico, o prato de carne fumegante veio acompanhado por uma cerveja que parecia conter no seu sabor a própria frescura da região. Após o almoço, deixei que os pés me guiassem sem pressa pela cidade, captando os pequenos sinais dos costumes locais — a forma como os vizinhos se cumprimentavam, a delicadeza com que o quotidiano se repetia.

Segui viagem rumo a Riga com a serenidade de quem se deixa embalar. No carro, uma música suave, quase etérea, de atmosfera spa, era como um véu que me separava do ruído do mundo. O céu parecia deslizar lentamente até vestir-se de noite, e quando cheguei à capital letã, as luzes já se tinham acendido como estrelas ao alcance das mãos.

O hotel, embora pequeno, recebia-me com grandeza: no conforto, na beleza contida dos detalhes, e no calor sincero do acolhimento. O jovem da receção, prestável, apontou-me direções e segredos da cidade, mas foi ao falar do jantar que seus olhos brilharam. Segui o conselho e encontrei uma mesa onde me esperava carne de caça, suculenta e envolta em aromas de floresta, acompanhada por um vinho tinto que se abriu lento no copo como se quisesse confidenciar histórias.

O cansaço da noite anterior caiu sobre mim como um manto. De regresso ao hotel, pedi uma bebida no bar — algo simples, apenas para marcar o fim da jornada — e deixei-me conduzir para o quarto. Ainda assim, antes de fechar a cortina do sono, abri uma janela virtual para o mundo real: as notícias da Ucrânia. As imagens do desvario humano invadiram-me: cidades reduzidas a cinzas, vidas colhidas por uma ambição sem sentido. Pensei no absurdo de gastar milhões para matar, quando tantos milhões de vidas poderiam ser salvas. Que ironia viver numa era em que sonhamos com planetas habitáveis, e, ao mesmo tempo, destruímos o único jardim que temos. Perguntei-me, já quase em devaneio, como nos observariam — se é que o fazem — as civilizações que, talvez, nos espreitam do cosmos. Veriam em nós uma espécie suicida, ou apenas uma criança perdida em sua própria sombra?

E adormeci nesse enigma: entre a memória de um olhar que guardava esperança, o perfume de uma cidade estrangeira, e a perplexidade diante da fragilidade humana.

 

Diário de uma viagem – 38 dia – 03/08/2025

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