Aqui ensina-se a ser!
A
estrada abriu-se diante de mim como um poema em movimento. O verde dos campos
misturava-se com o amarelo suave das flores silvestres e, ao longe, bosques
densos guardavam mistérios ancestrais. O céu ainda guardava resquícios de
nuvens da madrugada, mas a claridade do dia conseguia atravessá-las, espalhando
raios de luz dourada sobre o asfalto. Era uma paisagem quase musical, em que
cada curva revelava novas cores e harmonias.
Foi
em Kaunas, a segunda maior cidade do país, que parei para o almoço. Kaunas é
uma joia cultural que respira história. As suas ruas estreitas guardam a
memória dos séculos, e as praças vibram de energia jovem. A arquitetura é uma
mistura de imponência gótica, serenidade barroca e modernidade discreta. Mas o
que mais me prendeu atenção não foram apenas as pedras ou os monumentos — foi a
forma como este povo educa os seus filhos. Aqui, nos primeiros anos de escola,
não se ensina apenas a ler e a escrever. Ensina-se a ser. Respeito, empatia,
disciplina: valores que constroem alicerces sólidos para o futuro. A
inteligência emocional é cultivada como uma flor rara, e é com ela que preparam
crianças não apenas para carreiras, mas para a vida. Como resultado, as
crianças desenvolvem qualidades essenciais que contribuem tanto para o sucesso
acadêmico quanto para o crescimento pessoal, garantindo uma educação integral e
significativa. Como gostaria que o meu país aprendesse com essa sabedoria!
Por
esta e outras razões, algumas crianças, quando adultas, não sabem escutar. Eu
já senti isso com um antigo chefe no meu primeiro emprego. Não se importa com a
dor que está a causar. Pára sem pedir
desculpa quando vê no olhar lágrimas de tristeza depois de arrasar, humilhar e
machucar sem admitir erros, numa desesperada tentativa inconsciente de esconder
as vulnerabilidades de não saber escutar e admitir diferentes formas de pensar,
ideias inovadoras e opiniões alternativas de quem vê o mundo mais colorido
dentro de um contexto cinzento.
Estamos
inseridos numa cultura onde a agressividade já não tolera a diferença. A
desestruturação é tão grande que usamos a ação para nos apoderamos da razão. Em
certos momentos da vida todos reagimos com alguma agressividade, o problema
começa quando este sentimento se torna recorrente e incontrolável.
Na
falta de argumentos a “ignorância” usa a agressividade e a ofensa como arma de
ataque. É, por definição, um desvio de comportamento que está associado a uma
predisposição para ser violento. É uma forma de direcionar a energia, assumindo
uma atitude que busca autoafirmação ou autoproteção ou a duas coisas.
O
agressivo é uma personalidade dominante inadequada, que expressa seus
sentimentos e opiniões de forma a garantir a preponderância de seus pensamentos
através da humilhação e do menosprezo pelas ideias dos outros.
Mas
o que está por trás de tanta agressividade neste comportamento? O assunto abre
portas para muitas avaliações. Há um conjunto de gatilhos que influenciam no
comportamento humano. São anos de insatisfação, falta de empatia, sentimento de
impotência e carência interna, porque aqui, nos primeiros anos de escola,
apenas se ensina a ler, a escrever e a competir.
A
grande verdade é que o temperamento agressivo sente a raiva borbulhar e reagem
a todos os acontecimentos como se tratasse de uma disputa. Impulsivo e
desafiador, tem sérias dificuldades em saber escutar outra voz que que não seja
a sua.
Por
isso eu reconheço e admiro o quanto é importante o programa aplicado nos
primeiros anos nas escolas Lituânias, onde o respeito, empatia e a disciplina,
valores que constroem alicerces sólidos para o futuro, são levados a sério. É importante cuidarmos do nosso equilíbrio
emocional para podermos lidar, no futuro, com as frustrações, com as derrotas,
escutando para depois sabermos ajuizar com coerência.
Depois
de passear pelas ruas do centro histórico, encontrei um pequeno restaurante
escondido numa esquina, quase secreto, como se fosse um convite particular. O
interior era acolhedor, com paredes de tijolo aparente, velas acesas e mesas de
madeira polida que guardavam histórias silenciosas de encontros e despedidas.
Pedi um prato de carne assada lentamente, tenra e suculenta, que se desmanchava
ao toque do garfo. Acompanhei com uma cerveja local, fresca e levemente amarga,
perfeita para realçar o sabor. Da janela, via-se a vida da cidade pulsar:
jovens rindo alto, músicos de rua afinando guitarras, casais que passeavam de
mãos dadas. Antes de seguir viagem, ainda percorri alguns pontos imperdíveis: a
fortaleza de Kaunas, o Convento de Pažaislis com a sua imponência barroca e o
Museu do Diabo, curioso e enigmático como a própria alma lituana.
No
meio da tarde, retomei a estrada em direção a Vilnius. O dia estava agradável,
o céu levemente nublado, mas entreaberto por raios de sol que brincavam com as
copas das árvores e iluminavam pequenos lagos como se fossem espelhos de prata.
A viagem tornou-se um espetáculo de luz e sombra, quase como se a natureza
preparasse um prólogo para a chegada à capital.
Quando
alcancei Vilnius, o céu já estava escuro, mas a cidade brilhava iluminada e
colorida. As ruas cintilavam, refletindo as luzes dos cafés, dos candeeiros
antigos e dos prédios históricos. O hotel onde me hospedei era majestoso: a
entrada enorme, luxuosamente decorada com tapetes macios e sofás que convidavam
ao repouso. Dois rececionistas, com sorrisos genuínos, receberam-me como se
fosse um velho amigo que regressava.
À
noite, jantei no restaurante do hotel. Era um espaço de luxo, elegante, com
luzes baixas e taças que brilhavam como cristal líquido. O prato principal foi
arenque marinado, delicado e refinado, acompanhado de champanhe francês que
estalava no paladar como pequenas estrelas efervescentes. As mesas estavam
ocupadas por casais, homens de negócios, viajantes cosmopolitas — todos envolvidos
em conversas e risos. Eu era o único solitário, e talvez por isso recebi ainda
mais atenção da funcionária que servia. Gentil, silenciosa e curiosa, deixava
escapar olhares que pareciam interrogar-me sobre quem eu era e de onde vinha.
Às vezes, tinha a sensação de que me confundia com alguma celebridade discreta,
alguém que preferia o anonimato às câmaras. Sem uma única palavra além do
necessário, cuidou de mim com delicadeza rara.
Quando
regressei ao quarto, o dia encerrou-se como um livro que promete continuação. O
espaço era confortável, elegante, decorado com um bom gosto quase poético.
Sobre a cama, dois corações de chocolate repousavam ao lado de um cartão que
dizia: “Bem-vindo, Mr. Silva.” Sorri. Ali, entre o luxo e a simplicidade, entre
o silêncio e os olhares enigmáticos, percebi que a viagem não era apenas pelo
país — era também dentro de mim.
