Aqui ensina-se a ser!


Já era meio da manhã quando deixei Klaipėda. A noite anterior tinha sido longa, quase infinita, mas não resisti ao ritual silencioso do pequeno-almoço: pão fresco, queijo delicado e um café forte, negro como as lembranças que se dissolvem aos poucos. Esse café, intenso e aromático, foi o despertar necessário para a viagem até Vilnius, a capital desta Lituânia que, a cada quilómetro, me conquistava mais — não com gestos grandiosos, mas com a subtileza de pequenos pormenores que só os olhos atentos percebem
.

A estrada abriu-se diante de mim como um poema em movimento. O verde dos campos misturava-se com o amarelo suave das flores silvestres e, ao longe, bosques densos guardavam mistérios ancestrais. O céu ainda guardava resquícios de nuvens da madrugada, mas a claridade do dia conseguia atravessá-las, espalhando raios de luz dourada sobre o asfalto. Era uma paisagem quase musical, em que cada curva revelava novas cores e harmonias.

Foi em Kaunas, a segunda maior cidade do país, que parei para o almoço. Kaunas é uma joia cultural que respira história. As suas ruas estreitas guardam a memória dos séculos, e as praças vibram de energia jovem. A arquitetura é uma mistura de imponência gótica, serenidade barroca e modernidade discreta. Mas o que mais me prendeu atenção não foram apenas as pedras ou os monumentos — foi a forma como este povo educa os seus filhos. Aqui, nos primeiros anos de escola, não se ensina apenas a ler e a escrever. Ensina-se a ser. Respeito, empatia, disciplina: valores que constroem alicerces sólidos para o futuro. A inteligência emocional é cultivada como uma flor rara, e é com ela que preparam crianças não apenas para carreiras, mas para a vida. Como resultado, as crianças desenvolvem qualidades essenciais que contribuem tanto para o sucesso acadêmico quanto para o crescimento pessoal, garantindo uma educação integral e significativa. Como gostaria que o meu país aprendesse com essa sabedoria!

Por esta e outras razões, algumas crianças, quando adultas, não sabem escutar. Eu já senti isso com um antigo chefe no meu primeiro emprego. Não se importa com a dor que está a causar.  Pára sem pedir desculpa quando vê no olhar lágrimas de tristeza depois de arrasar, humilhar e machucar sem admitir erros, numa desesperada tentativa inconsciente de esconder as vulnerabilidades de não saber escutar e admitir diferentes formas de pensar, ideias inovadoras e opiniões alternativas de quem vê o mundo mais colorido dentro de um contexto cinzento.

Estamos inseridos numa cultura onde a agressividade já não tolera a diferença. A desestruturação é tão grande que usamos a ação para nos apoderamos da razão. Em certos momentos da vida todos reagimos com alguma agressividade, o problema começa quando este sentimento se torna recorrente e incontrolável.

Na falta de argumentos a “ignorância” usa a agressividade e a ofensa como arma de ataque. É, por definição, um desvio de comportamento que está associado a uma predisposição para ser violento. É uma forma de direcionar a energia, assumindo uma atitude que busca autoafirmação ou autoproteção ou a duas coisas.

O agressivo é uma personalidade dominante inadequada, que expressa seus sentimentos e opiniões de forma a garantir a preponderância de seus pensamentos através da humilhação e do menosprezo pelas ideias dos outros.

Mas o que está por trás de tanta agressividade neste comportamento? O assunto abre portas para muitas avaliações. Há um conjunto de gatilhos que influenciam no comportamento humano. São anos de insatisfação, falta de empatia, sentimento de impotência e carência interna, porque aqui, nos primeiros anos de escola, apenas se ensina a ler, a escrever e a competir.

A grande verdade é que o temperamento agressivo sente a raiva borbulhar e reagem a todos os acontecimentos como se tratasse de uma disputa. Impulsivo e desafiador, tem sérias dificuldades em saber escutar outra voz que que não seja a sua.

Por isso eu reconheço e admiro o quanto é importante o programa aplicado nos primeiros anos nas escolas Lituânias, onde o respeito, empatia e a disciplina, valores que constroem alicerces sólidos para o futuro, são levados a sério.  É importante cuidarmos do nosso equilíbrio emocional para podermos lidar, no futuro, com as frustrações, com as derrotas, escutando para depois sabermos ajuizar com coerência.

Depois de passear pelas ruas do centro histórico, encontrei um pequeno restaurante escondido numa esquina, quase secreto, como se fosse um convite particular. O interior era acolhedor, com paredes de tijolo aparente, velas acesas e mesas de madeira polida que guardavam histórias silenciosas de encontros e despedidas. Pedi um prato de carne assada lentamente, tenra e suculenta, que se desmanchava ao toque do garfo. Acompanhei com uma cerveja local, fresca e levemente amarga, perfeita para realçar o sabor. Da janela, via-se a vida da cidade pulsar: jovens rindo alto, músicos de rua afinando guitarras, casais que passeavam de mãos dadas. Antes de seguir viagem, ainda percorri alguns pontos imperdíveis: a fortaleza de Kaunas, o Convento de Pažaislis com a sua imponência barroca e o Museu do Diabo, curioso e enigmático como a própria alma lituana.

No meio da tarde, retomei a estrada em direção a Vilnius. O dia estava agradável, o céu levemente nublado, mas entreaberto por raios de sol que brincavam com as copas das árvores e iluminavam pequenos lagos como se fossem espelhos de prata. A viagem tornou-se um espetáculo de luz e sombra, quase como se a natureza preparasse um prólogo para a chegada à capital.

Quando alcancei Vilnius, o céu já estava escuro, mas a cidade brilhava iluminada e colorida. As ruas cintilavam, refletindo as luzes dos cafés, dos candeeiros antigos e dos prédios históricos. O hotel onde me hospedei era majestoso: a entrada enorme, luxuosamente decorada com tapetes macios e sofás que convidavam ao repouso. Dois rececionistas, com sorrisos genuínos, receberam-me como se fosse um velho amigo que regressava.

À noite, jantei no restaurante do hotel. Era um espaço de luxo, elegante, com luzes baixas e taças que brilhavam como cristal líquido. O prato principal foi arenque marinado, delicado e refinado, acompanhado de champanhe francês que estalava no paladar como pequenas estrelas efervescentes. As mesas estavam ocupadas por casais, homens de negócios, viajantes cosmopolitas — todos envolvidos em conversas e risos. Eu era o único solitário, e talvez por isso recebi ainda mais atenção da funcionária que servia. Gentil, silenciosa e curiosa, deixava escapar olhares que pareciam interrogar-me sobre quem eu era e de onde vinha. Às vezes, tinha a sensação de que me confundia com alguma celebridade discreta, alguém que preferia o anonimato às câmaras. Sem uma única palavra além do necessário, cuidou de mim com delicadeza rara.

Quando regressei ao quarto, o dia encerrou-se como um livro que promete continuação. O espaço era confortável, elegante, decorado com um bom gosto quase poético. Sobre a cama, dois corações de chocolate repousavam ao lado de um cartão que dizia: “Bem-vindo, Mr. Silva.” Sorri. Ali, entre o luxo e a simplicidade, entre o silêncio e os olhares enigmáticos, percebi que a viagem não era apenas pelo país — era também dentro de mim.

 

Diário de uma viagem – 42 dia – 07/08/2025
 

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…